Você já sentiu que algumas memórias não ficam apenas na sua mente, mas parecem habitar seu corpo? Que certos cheiros, sons ou toques desencadeiam reações físicas antes mesmo que você consiga processar o que está acontecendo? Talvez você tenha notado que, em situações de estresse, seu corpo reage de formas que sua mente racional não consegue explicar. Essas experiências não são aleatórias — elas são a marca que o trauma deixa em nós, e é exatamente sobre isso que Bessel van der Kolk ensina a ressignificar o trauma”>Bessel van der Kolk, um dos maiores especialistas em trauma do mundo, nos ajuda a entender.
Quem é Bessel van der Kolk e por que ele mudou a forma como vemos o trauma
Bessel van der Kolk é um psiquiatra holandês-americano que dedicou mais de 40 anos de sua carreira a entender como o trauma afeta a mente e o corpo. Seu trabalho revolucionário começou nos anos 70, quando ele percebeu que os veteranos da Guerra do Vietnã não respondiam aos tratamentos tradicionais. Enquanto a psiquiatria convencional focava apenas na mente, van der Kolk observou que esses pacientes carregavam o trauma em seus corpos — nas tensões musculares, na respiração acelerada, nos sobressaltos involuntários.
Seu livro “O Corpo Guarda as Marcas” se tornou um marco na psicologia traumática, vendendo milhões de cópias mundialmente. Nele, van der Kolk argumenta que o trauma não é apenas uma doença mental, mas uma experiência que reorganiza todo o sistema nervoso. O que torna sua abordagem única é a integração entre neurociência, psicoterapia e práticas corporais — uma visão holística que considera que para curar o trauma, precisamos tratar tanto a mente quanto o corpo.
O que é o trauma segundo van der Kolk
Van der Kolk define trauma não como o evento em si, mas como a resposta do nosso sistema nervoso a uma experiência avassaladora. Quando vivemos algo que nos ameaça profundamente, nosso cérebro primitivo entra em modo de sobrevivência. O problema é que, para algumas pessoas, esse “botão de emergência” nunca desliga completamente. O corpo continua agindo como se o perigo ainda estivesse presente, mesmo anos depois do evento traumático.
Imagine que seu sistema nervoso é como um alarme de incêndio. Em uma situação normal, o alarme só toca quando há fogo real. No trauma, o alarme fica desregulado — ele pode disparar com o cheiro de fumaça de uma lareira, com o barulho de uma porta batendo, ou mesmo sem motivo aparente. Van der Kolk explica que essa desregulação é a essência do trauma: o corpo vive no passado perigoso, enquanto a mente tenta seguir em frente no presente seguro.
Como o corpo realmente guarda as memórias
Você já reparou como algumas memórias parecem ter uma qualidade física? Talvez uma lembrança dolorosa venha acompanhada de uma sensação de aperto no peito, ou uma memória de medo traga consigo frio na barriga. Van der Kolk explica que isso acontece porque o trauma é processado principalmente pela amígdala cerebral — a parte do cérebro responsável pelas emoções e sobrevivência — e não pelo hipocampo, que organiza as memórias de forma narrativa.
Quando algo traumático acontece, o hipocampo “desliga” temporariamente. Por isso, as memórias traumáticas não são armazenadas como histórias coerentes, mas como fragmentos sensoriais: cheiros, imagens, sensações corporais, sons. É por isso que alguém que sofreu um acidente de carro pode ter uma reação de pânico ao ouvir o barulho de freios, mesmo sem conseguir lembrar conscientemente do acidente. O corpo lembra o que a mente esqueceu.
Sinais de que seu corpo pode estar guardando traumas
Como saber se reações aparentemente inexplicáveis do seu corpo podem ser resquícios de experiências traumáticas? Van der Kolk lista alguns sinais comuns: tensão muscular crônica, especialmente nos ombros e pescoço; dificuldade para respirar profundamente; sobressaltos exagerados a barulhos repentinos; sensação de “não estar no corpo” em situações estressantes; dores crônicas sem causa médica aparente; e padrões de contração muscular que parecem involuntários.
É importante notar que esses sintomas não significam necessariamente que você tenha um transtorno de estresse pós-traumático. Muitas pessoas carregam pequenos “traumas do desenvolvimento” — experiências da infância que, acumuladas, criam padrões de resposta no corpo. A boa notícia é que, segundo van der Kolk, reconhecer esses sinais é o primeiro passo para a cura.
Por que as terapias convencionais às vezes falham
Van der Kolk critica a abordagem tradicional de tratar o trauma apenas com medicamentos ou terapia da fala. Ele argumenta que quando tentamos processar o trauma apenas racionalmente, estamos falando com a parte errada do cérebro. A amígdala, que guarda as memórias traumáticas, não responde à lógica ou à análise — ela responde a sensações, movimentos e experiências corporais.
É por isso que muitas pessoas em terapia tradicional podem entender intelectualmente a origem de seus problemas, mas continuam sentindo as reações físicas. “Saber por que você está ansioso não cura a ansiedade”, diz van der Kolk. A cura requer acesso às memórias implícitas — aquelas que estão codificadas no corpo, não na narrativa consciente.
As abordagens revolucionárias de van der Kolk
O trabalho de van der Kolk levou ao desenvolvimento de terapias que integram corpo e mente. A EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares), por exemplo, ajuda a reprocessar memórias traumáticas através de estímulos bilaterais. A terapia sensoriomotriz trabalha diretamente com as sensações corporais. E o neurofeedback treina o cérebro para autorregular seu funcionamento.
Mas van der Kolk também valoriza práticas mais acessíveis: ioga, meditação, teatro terapêutico, dança e até mesmo brincar. Ele defende que qualquer atividade que nos ajude a sentir nosso corpo de forma segura pode ser terapêutica. O importante é criar novas experiências corporais que contradigam as memórias de impotência e perigo.
Como identificar traumas não resolvidos no dia a dia
Van der Kolk sugere que prestemos atenção aos momentos em que nossas reações parecem desproporcionais à situação atual. Se você percebe que certas situações — como discussões, críticas, ou mesmo demonstrações de afeto — desencadeiam respostas intensas que não fazem sentido no contexto, pode ser um sinal de que memórias antigas estão sendo ativadas.
Outro indicador é a dificuldade de estar presente no próprio corpo. Muitas pessoas que sofreram trauma desenvolvem o que van der Kolk chama de “anestesia emocional” — uma desconexão das sensações corporais como forma de proteção. Se você frequentemente se sente “distante”, “entorpecido” ou como se estivesse observando a vida de fora, isso pode ser um sinal de trauma não resolvido.
O impacto do trauma nos relacionamentos
Van der Kolk mostra como o trauma afeta nossa capacidade de conexão. O sistema nervoso traumatizado tende a ver perigo onde não existe, tornando difícil confiar nos outros. Muitas pessoas oscillam entre a hipervigilância (desconfiança excessiva) e a busca desesperada por apego — padrões que podem sabotar relacionamentos saudáveis.
Além disso, o trauma pode dificultar a regulação emocional nas interações sociais. Discussões corriqueiras podem ser vividas como ameaças existenciais, e gestos de carinho podem ser interpretados como invasões. Van der Kolk enfatiza que curar o trauma não é apenas uma questão individual, mas também relacional — envolve aprender a se sentir seguro na presença do outro.
Práticas que podem ajudar a liberar o trauma do corpo
Van der Kolk recomenda começar com pequenas práticas de reconexão corporal. Respiração consciente — prestar atenção na entrada e saída do ar — pode ajudar a acalmar o sistema nervoso. Movimentos suaves, como alongamentos ou caminhadas conscientes, permitem que o corpo experimente segurança no movimento.
Técnicas de grounding — como sentir os pés no chão, ou descrever sensações físicas do momento presente — ajudam a trazer a atenção para o aqui e agora. Van der Kolk também sugere práticas que envolvem ritmo e repetição, como bater palmas ou marchar no lugar, que podem ajudar a reorganizar padrões neurológicos desregulados.
Quando o trauma se torna transtorno de estresse pós-traumático
Van der Kolk diferencia entre reações traumáticas normais e o TEPT propriamente dito. O transtorno se caracteriza quando os sintomas persistem por mais de um mês e interferem significativamente na vida da pessoa. Sinais de alerta incluem: flashbacks vívidos, pesadelos recorrentes, evitação extrema de lembretes do trauma, alterações negativas persistentes no humor e pensamentos, e hiperreatividade constante.
É importante lembrar que o TEPT não é um sinal de fraqueza, mas uma resposta normal a uma experiência anormal. Van der Kolk insiste que quanto mais cedo se busca ajuda, melhor o prognóstico. Intervenções precoces podem prevenir que as respostas traumáticas se cristalizem em padrões permanentes.
Mitos sobre o trauma que van der Kolk desfaz
Um dos maiores mitos, segundo van der Kolk, é que “o tempo cura todas as feridas”. Na verdade, sem intervenção adequada, o trauma tende a se cristalizar no sistema nervoso. Outro mito é que apenas eventos catastróficos causam trauma — na realidade, experiências repetidas de negligência, humilhação ou invasão podem ser igualmente traumatizantes.
Van der Kolk também contesta a ideia de que “falar sobre o trauma” é sempre terapêutico. Para algumas pessoas, reviver detalhes do trauma sem as ferramentas adequadas pode retraumatizar. A cura, ele argumenta, vem menos de revisitar a dor e mais de criar novas experiências de segurança e competência.
Como a terapia especializada em trauma funciona
Van der Kolk descreve três fases no tratamento do trauma: primeiro, estabelecer segurança e estabilização; segundo, processar as memórias traumáticas; e terceiro, reintegrar a pessoa à sua vida. Diferente das terapias tradicionais, a abordagem traumática começa pelo corpo — ensinando a pessoa a regular suas respostas fisiológicas antes de abordar as memórias dolorosas.
Técnicas como o EMDR e a terapia sensoriomotriz permitem que o trauma seja reprocessado de forma que o corpo possa “aprender” que o perigo passou. O objetivo não é apagar as memórias, mas integrá-las de forma que não desencadeiem mais respostas de sobrevivência inadequadas.
Se você reconheceu esses sinais em si mesmo
Ver-se nessas descrições pode ser assustador, mas também é um passo corajoso. Significa que você está pronto para olhar para partes de si que talvez tenham sido ignoradas por muito tempo. Van der Kolk diria que seu corpo não está “quebrado” — ele está tentando protegê-lo da melhor forma que sabe.
A jornada de cura do trauma não é sobre se tornar “normal”, mas sobre recuperar a sensação de ser dono do próprio corpo e da própria vida. Comece pequeno: um minuto de atenção à respiração, um alongamento consciente, uma caminhada sentindo os pés no chão. Cada momento de reconexão com seu corpo em segurança é um passo para libertá-lo das amarras do passado.

