O ano de 2026 prometia ser um marco para o futebol virtual com o lançamento do EA FC 26, aclamado inicialmente como o melhor título desde a mudança da franquia de FIFA para EA FC. No entanto, seis meses após seu lançamento, o cenário é de desilusão generalizada, e o sinal mais alarmante vem de dentro da própria comunidade: criadores de conteúdo históricos e fundamentais para o jogo estão reduzindo drasticamente sua produção ou abandonando o modo Ultimate Team (UT).
AA9skillz anuncia pausa em série icônica do Ultimate Team
Um dos casos mais emblemáticos é o de AA9skillz, criador com mais de uma década de trajetória e mais de dois milhões de inscritos no YouTube. Em comunicado recente, ele anunciou a interrupção de sua série “Road to Glory”, na qual constrói um time competitivo a partir do zero. A decisão não foi tomada por falta de interesse no jogo em si, mas pela frustração com a forma como o conteúdo do UT vem sendo gerenciado pela EA. Ele destacou que a qualidade de seu trabalho passou a depender exclusivamente do lançamento de promoções pela desenvolvedora, criando uma rotina insustentável e pouco criativa.
O custo exorbitante das promoções no Ultimate Team
AA9skillz detalhou um dos problemas centrais: o custo desproporcional de participar das promoções do UT. Segundo ele, engajar-se em uma única promoção pode esvaziar completamente o cofre de moedas de um clube virtual, devido à raridade e ao alto preço dos itens oferecidos. Como as moedas são difíceis de obter sem investimento financeiro real ou horas excessivas de jogo, os jogadores se veem forçados a escolher entre gastar dinheiro ou ficar para trás na corrida por elencos competitivos. Essa dinâmica transforma a experiência de construção de time, antes uma jornada de conquistas, em um ciclo de desgaste financeiro.
A insatisfação se espalha além dos criadores de conteúdo
A revolta não se limita às figuras públicas. Fóruns especializados, comunidades no Reddit e pesquisas informais indicam um sentimento crescente de cansaço entre a base de jogadores casuais e hardcore. Muitos ecoam as críticas de AA9skillz, apontando para uma sensação de que o UT se tornou um “segundo trabalho”, onde o progresso é lentíssimo sem desembolso adicional. A falta de recompensas significativas em modos como Division Rivals e Champions, combinada com a saturação de promoções de curta duração, esgotou a paciência de uma parcela significativa da comunidade.
O contraste entre o jogo base e o modo Ultimate Team
É importante destacar que as críticas mais contundentes são dirigidas especificamente ao modelo de negócios e à economia do Ultimate Team, não necessariamente ao motor de jogo do EA FC 26. Muitos jogadores, incluindo os próprios criadores descontentes, elogiam a jogabilidade, os gráficos e as inovações em modos como Carreira e Clube Profissional. Esse contraste evidencia um abismo entre a qualidade técnica do produto e a experiência manipulativa de seu modo mais popular, sugerindo que os problemas residem nas decisões de design de serviço e monetização.
O impacto econômico do desengajamento de criadores de conteúdo
Criadores como AA9skillz funcionam como vetores de marketing orgânico e engajamento para o EA FC. Seus vídeos geram hype para novas promoções, ensinam táticas e mantêm a comunidade ativa durante todo o ano. Quando figuras tão consolidadas perdem a paixão e reduzem seu conteúdo, isso tem um impacto direto e mensurável no ecossistema do jogo. A diminuição do buzz orgânico pode levar a uma queda no interesse de jogadores casuais, afetando as vendas de moedas do FUT e, consequentemente, a receita da EA.
O risco para o futuro da franquia EA FC
O abandono de criadores OGs é um sinal de alerta vermelho para qualquer franquia de jogos como serviço. Ele indica que os pilares da comunidade, aqueles que sobreviveram a várias gerações do jogo, estão atingindo seu limite. Se a EA não responder a esse feedback de maneira concreta, corre o risco de transformar o EA FC em um jogo sustentado apenas por uma base de jogadores altamente monetizada, mas cada vez menor e mais cínica, comprometendo a longevidade e a reputação da franquia a longo prazo.
O que a EA precisa fazer para salvar o Ultimate Team?
A solução, segundo a comunidade, passa por reequilibrar a economia do jogo. Sugestões comuns incluem aumentar significativamente as recompensas em moedas de todos os modos online, oferecer mais caminhos garantidos para obter jogadores de elite sem depender de pacotes, e repensar o ritmo e o custo das promoções. Além disso, há um apelo por mais transparência nas odds dos pacotes e por sistemas de “pity” que garantam recompensas após um certo número de aberturas, prática comum em outros jogos de coleta.
O exemplo de outros jogos de sucesso no mercado
Títulos como *EA Sports FC Mobile* e outras franquias competitivas têm experimentado com modelos que valorizam mais o tempo investido pelo jogador. Sistemas de temporada com recompensas claras, missões diárias e semanais mais generosas, e uma distribuição de recursos que não penaliza excessivamente os jogadores não pagantes são caminhos já trilhados. A EA tem a oportunidade de olhar para esses exemplos e adaptar o Ultimate Team para um cenário de 2026, onde o valor percebido pelo consumidor é tão importante quanto a receita gerada.
A trajetória do EA FC 26 serve como um estudo de caso sobre a relação tênue entre desenvolvedoras e comunidades de jogos ao vivo. O êxodo de criadores de conteúdo históricos não é apenas uma série de desistências individuais; é um termômetro do descontentamento coletivo. A resposta da EA a esse movimento definirá se o Ultimate Team conseguirá recuperar sua alma comunitária ou se consolidará como um modelo puramente extrativista, enquanto jogadores e criadores buscam refúgio em experiências mais gratificantes. O futuro do futebol virtual mais popular do mundo agora depende de uma revisão profunda de suas regras internas.

