Disputa pelos domingos na TV aberta expõe acomodação dos canais no resto da semana

O domingo na televisão aberta brasileira se consolidou como um campo de batalha único, onde Globo, Record e SBT concentram seus maiores investimentos, talentos e esforços criativos. A recente estreia de Eliana no SBT apenas intensificou uma competição que já era acirrada, envolvendo desde programas de auditório até séries e coberturas esportivas. Enquanto os intervalos comerciais desses dias específicos transbordam de anunciantes, uma pergunta persiste entre profissionais do setor e analistas de mídia: por que esse nível de empenho e qualidade não se repete nos outros seis dias da semana?

A concentração de esforços no único dia lucrativo

A análise dos horários dominicais revela um padrão claro de concentração de recursos. Das manhãs às noites, cada canal posiciona seu cardápio mais elaborado, com apresentadores de alto custo e produções com orçamentos significativamente superiores aos de programas similares exibidos durante a semana. Essa estratégia cria um ciclo autoalimentado: a qualidade atrai audiência, a audiência atrai anunciantes, e o faturamento justifica os investimentos. No entanto, essa lógica parece se esgotar quando o relógio marca a segunda-feira, dando lugar a uma programação frequentemente repetitiva e com menor apelo criativo.

O contraste com a produção digital contemporânea

Enquanto as emissoras tradicionais reservam seu melhor material para um único dia, plataformas digitais como YouTube oferecem novidades constantes em todos os dias da semana. Criadores independentes e canais especializados produzem conteúdo diariamente, respondendo a demandas do público por variedade e atualidade. Essa disparidade tem levado telespectadores, especialmente nas faixas etárias mais jovens, a migrar parte de seu consumo para ambientes digitais, onde encontram a regularidade e diversidade que a TV aberta oferece apenas aos domingos.

Casos específicos que ilustram a dinâmica dominial

A movimentação de talentos entre emissoras segue concentrada em atrações dominicais. A contratação de Eliana pelo SBT representa um investimento milionário focado especificamente na disputa do ibope aos domingos. Na Globo, programas como o “Domingão com Huck” (e seus sucessores) sempre receberam tratamento diferenciado em termos de produção e orçamento. Na Record, especiais dominicais e programas de auditório do dia recebem atenção redobrada da diretoria. Essa focalização cria uma assimetria perceptível na qualidade da programação ao longo da semana.

O fenômeno das migrações estratégicas de talentos

Nos últimos anos, observou-se um fluxo significativo de apresentadores e artistas da Record para a Globo, todos com foco em projetos dominicais ou que teriam maior impacto nesse dia específico. Xuxa Meneghel, Sabrina Sato, Marcos Mion, Rodrigo Faro e Ticiane Pinheiro são exemplos dessa movimentação. Mais recentemente, Fábio Porchat e Paulo Vieira também integraram essa lista. Cada uma dessas contratações representou investimentos vultosos, justificados pela capacidade desses nomes de alterar a balança da audiência nos domingos.

Investimentos em produção que reforçam o padrão

A oitava temporada de “Tô de Graça”, série protagonizada por Rodrigo Sant’Anna com participação especial de Xuxa, teve suas gravações finalizadas com estreia programada para plataformas digitais da Globo. Da mesma forma, o Prime Video marcou para abril a retomada das gravações de “Tremembé”, estrelada por Marina Ruy Barbosa e Bianca Comparato, com promessa de maior desenvolvimento para personagens coadjuvantes. Esses investimentos em produção original, embora destinados a streaming, seguem a lógica de concentrar esforços em produtos com potencial de impacto massivo, espelhando a estratégia dominial da TV aberta.

A exceção das coberturas esportivas internacionais

Um setor que parece escapar parcialmente dessa lógica é o das coberturas esportivas de grande porte. A TMC (antiga Transamérica) prepara uma equipe de aproximadamente dez profissionais para cobrir a Copa do Mundo nos Estados Unidos, México e Canadá, apoiada por mais 70 profissionais trabalhando do Brasil. Da mesma forma, SBT e NSports ainda negociam os nomes que comporão suas equipes de cobertura do mundial. Esses megaeventos exigem investimentos contínuos ao longo de semanas, representando uma exceção à regra da concentração dominial.

Reestruturações empresariais e mudanças de estratégia

O Grupo Bandeirantes, através da Newco, desenvolveu uma nova estrutura integrando as operações dos canais Agro Mais e Terra Viva em São Paulo, como parte de um plano de modernização que visa potencializar a produção jornalística. Paralelamente, o canal prepara mudanças no “Bora Brasil” nas manhãs da Band, com inversão de pautas para tentar aumentar a audiência, na expectativa de que um crescimento nesse programa beneficie também o “Jogo Aberto”, exibido na sequência. Esses movimentos indicam tentativas de quebrar padrões estabelecidos, ainda que em nichos específicos da programação.

As declarações reveladoras em eventos internacionais

Durante participação no SXSW 2026 em Austin, Manzar Feres, diretora de negócios da Globo, expôs a mudança na relação entre emissoras e anunciantes: “Hoje, as marcas não querem só aparecer; elas querem escolher em quais conversas desejam estar. O nosso papel é justamente contextualizar essas presenças, conectando marcas a histórias e ambientes que fazem sentido para o público”. Essa declaração revela uma compreensão sofisticada do mercado publicitário contemporâneo, que paradoxalmente não se reflete na dispersão equilibrada de investimentos ao longo da semana.

Oportunidades negligenciadas em outros horários

Analistas apontam casos específicos de talentos subutilizados em programas de menor visibilidade durante a semana. Gaby Cabrini, do SBT, é frequentemente citada como exemplo de apresentadora que mereceria investimentos maiores e um projeto mais ambicioso, além do “Fofocalizando”. Da mesma forma, a novela vertical “Icônica: De Faxineira à Fashionista”, produzida para o Globoplay com Gabriel Moraes (Gabb) no elenco ao lado de Bruno Fagundes e Anajú Dorigon, representa o tipo de conteúdo que poderia prosperar em diferentes dias e horários, não apenas como produto digital.

O modelo dos canais especializados por assinatura

Canais pagos como BandSports, Agro Mais e outros gerenciados pela Newco operam sob lógica diferente, com programação temática que atende a públicos específicos diariamente. Sua mudança das instalações da Tabapuã para a Berrini em São Paulo simboliza uma modernização e profissionalização que contrasta com certa estagnação de partes da programação aberta durante a semana. Esses canais demonstram que é possível manter qualidade e audiência sem concentrar todos os esforços em um único dia.

Os impasses na negociação de direitos esportivos

Um exemplo emblemático dos desafios atuais encontra-se nas negociações por direitos de transmissão. O terceiro pacote da Libertadores para a Paramount não foi anunciado devido à compra integral do UFC pela empresa, criando um conflito de interesses que já gerou reuniões nos Estados Unidos. David Ellison, da Paramount, é conhecido por não querer perder nenhuma negociação, característica que define a postura agressiva necessária para competir no mercado atual. Essas batalhas por conteúdo premium ocorrem em todos os dias da semana, não apenas aos domingos.

A realidade atual da TV aberta brasileira apresenta um paradoxo evidente: as emissoras demonstram capacidade técnica, criativa e financeira para produzir programação de qualidade que atrai grandes audiências e anunciantes, mas concentram essa capacidade em aproximadamente 15% do tempo disponível (os domingos). O restante da semana frequentemente apresenta uma versão menos inspirada dessas mesmas emissoras. Enquanto plataformas digitais e canais por assinatura avançam com ofertas diversificadas diariamente, a TV aberta parece hesitar em estender sua excelência dominial para os outros dias. O público existe, a expertise existe, e os exemplos de sucesso fora dos domingos também existem. O que falta, talvez, seja coragem para romper com um modelo que, embora lucrativo em parte, pode estar limitando o potencial completo do meio televisivo aberto no Brasil.

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