Há três décadas, a franquia Pokémon constrói sua força sobre a relação entre treinadores e monstros de bolso. Mas, no universo dos bricks, essa dinâmica sempre esbarrou em uma ausência curiosa: Ash, Misty, Brock e outros personagens humanos jamais ganharam uma minifigure oficial da Lego. Agora, a empresa finalmente explica o motivo — e a resposta está diretamente ligada à forma como as crianças enxergam a si mesmas dentro desse mundo.
O design thinking por trás da ausência de minifigures
A decisão não foi por acaso ou por limitação de licenciamento. Em entrevista recente, Siddharth Muthyala, diretor de design do Lego Group, revelou que a escolha de não incluir minifigures nos novos conjuntos interativos de Pokémon foi uma decisão deliberada, baseada em pesquisas com o público infantil. “Toda vez que conversamos com crianças e fãs, o que elas querem ser são Treinadores Pokémon”, afirmou Muthyala. “E quando você se aprofunda nisso, o que significa ser um Treinador? É encontrar Pokémon, capturá-los, criá-los, treiná-los e, claro, batalhar com eles.”
A linha Smart Play, que acaba de chegar ao mercado, foi projetada para materializar essa fantasia sem intermediários. Os sets utilizam Smart Tags — pequenos sensores embutidos nas peças — que reconhecem movimentos do jogador, permitem evoluir os monstros e registrar vitórias em batalhas simuladas. Tudo isso sem o uso de telas, apenas com sons e luzes. A proposta é que a criança não interprete um treinador: ela é o treinador.
Como funcionam os Smart Tags e a jogabilidade imersiva
Os novos conjuntos da Lego Pokémon não são meros dioramas estáticos. Cada Smart Tag programada nos elementos dos sets é capaz de se comunicar com outras peças da linha. Isso significa que um Pikachu adquirido em um conjunto pode interagir com um Gengar de outro kit, permitindo que a criança crie cenários de batalha ou treinamento de forma orgânica. O sistema rastreia o movimento do jogador para “subir de nível” o Pokémon — quanto mais ativo o treinador, mais poderoso o monstro se torna nos embates simulados.
A Lego consultou jovens fãs de Pokémon para entender exatamente o que torna a experiência de ser um treinador tão cativante. O resultado foi um sistema que prioriza a ação física sobre a observação passiva. Diferente de um videogame, onde o jogador controla um avatar, aqui a criança literalmente ergue o bloco, move o braço e interage com o ambiente físico para progredir. A ausência de minifigures, neste contexto, não é uma lacuna — é um princípio de design centrado no usuário.
Por que não há minifigures de Ash, Misty ou Brock?
A resposta curta, segundo Muthyala, é que a inclusão de personagens humanos quebraria a imersão que a Lego busca criar. “A intencionalidade é tão profunda que não temos nenhuma minifigure no sortimento, porque as crianças são os treinadores”, explicou o diretor. “É um mundo Pokémon no qual você está entrando, e todas as crianças lá fora são os humanos, são os treinadores que estão capturando esses Pokémon, criando vínculos com eles, batalhando e treinando.”
Essa abordagem contrasta com outras linhas temáticas da Lego, como Star Wars ou Harry Potter, nas quais minifigures de personagens icônicos são o principal atrativo. No caso de Pokémon, a decisão de omitir Ash, Misty ou Brock não é uma recusa em licenciar rostos conhecidos — é uma aposta na identificação direta do consumidor com o protagonista da história. A Lego entendeu que, para o público infantil, o herói da jornada Pokémon não é um personagem pré-definido: é quem está segurando os bricks.
E se a Lego mudar de ideia?
Embora a justificativa faça sentido do ponto de vista do design de experiência, o apetite do mercado por minifigures clássicas de Pokémon é inegável. Fãs adultos, que cresceram com a série animada e os jogos originais, continuam a specular sobre o potencial de um conjunto de minifigures da Equipe Rocket — Jesse, James e Meowth — ou mesmo das lideranças de ginásio da primeira geração. Caso a Lego decida, no futuro, atender a esse público nostálgico, é provável que a demanda seja tão alta quanto a dos sets de monstros atuais.
Por enquanto, a prioridade do Lego Group é consolidar a linha interativa e observar como o público reage à proposta de “ser o treinador”. A empresa parece disposta a sacrificar o apelo imediato de rostos conhecidos em nome de uma experiência lúdica mais profunda. Se o modelo Smart Play vingar, talvez o próximo passo seja justamente criar minifigures que representem “tipos de treinadores” genéricos — permitindo que a personalização continue sendo o centro da narrativa.
A ausência de Ash Ketchum nas prateleiras de Lego, afinal, não é um esquecimento: é uma declaração de que, neste universo de plástico, o lugar do protagonista está reservado para quem brinca.
