Manguezais e comunidades ribeirinhas lideram o enfrentamento climático em uma das regiões mais estratégicas do planeta: a costa amazônica. O Brasil concentra a segunda maior área contínua de manguezais do mundo, e cerca de 80% desses manguezais estão no cinturão formado pela foz do Amazonas, entre o Amapá, o Pará e o Maranhão. É nesse território que o avanço do mar, a estocagem de carbono e a vida de milhares de famílias tradicionais se encontram — e definem os rumos da adaptação possível.
Por que manguezais e comunidades ribeirinhas lideram o enfrentamento climático
Os manguezais são ecossistemas costeiros de transição entre o continente e o mar, adaptados a solo lamoso e salobro e à dinâmica das marés. Suas raízes-escora e pneumatóforos fixam o sedimento e criam condições para que o solo cresça verticalmente junto com a elevação do nível do mar. Por isso, são considerados uma das soluções mais eficientes de proteção costeira e estocagem de carbono — quase cinco vezes mais eficientes do que florestas plenamente continentais.
Essa eficiência vem do acúmulo de matéria orgânica no solo alagado, onde a decomposição é lenta. O carbono fica retido por décadas ou séculos, tanto no sedimento quanto na biomassa das árvores. Enquanto uma floresta terrestre devolve grande parte do carbono para a atmosfera em ciclos mais curtos, o manguezal age como um depósito de longo prazo. É esse mecanismo que coloca o ecossistema no centro das discussões sobre mitigação das mudanças climáticas.
Mas o papel do manguezal não se limita ao carbono. Ele também atua como barreira natural contra a erosão, reduz a energia das ondas, especialmente em eventos extremos, e sustenta a produtividade pesqueira da região. Dessa produtividade dependem diretamente as comunidades ribeirinhas, que usam o manguezal de forma sustentável e, na prática, são as primeiras guardiãs do ecossistema.
O que são os manguezais e como funcionam na prática?
Manguezal é um ecossistema costeiro que ocorre em regiões tropicais e subtropicais, sujeito à influência das marés. Suas árvores desenvolveram adaptações como raízes aéreas e tolerância à salinidade para sobreviver em solo pobre em oxigênio. Na prática, o manguezal estabiliza o sedimento, abriga espécies marinhas e juvenis de peixes e funciona como uma esponja que absorve a energia das ondas e protege a costa.
Na costa amazônica, grande parte dessas áreas está sob algum tipo de proteção. O levantamento do ICMBio (2026) contabiliza 14 Reservas Extrativistas Marinhas (RESEXmar) no Pará, cinco no Maranhão e quatro propostas de criação no Amapá. Além disso, a legislação brasileira trata o manguezal como área de preservação permanente. Ou seja, o reconhecimento legal existe; o desafio é fazer com que o financiamento chegue a quem mantém a floresta em pé.
Mercado de carbono ainda não chega a quem protege
O mercado de carbono é frequentemente apontado como a principal via para financiar a preservação. Na prática, porém, as regras são complexas, burocráticas e cheias de intermediários. As empresas especializadas em créditos de carbono ajudam as comunidades a acessar o mercado, mas também reduzem o ganho efetivo de quem vive no território. O resultado é que grande parte dos recursos fica no caminho, e pouco chega às populações tradicionais.
Há também um problema de escopo. A preservação de áreas de manguezal evita que o problema da emissão de carbono se agrave, mas não recupera o que já foi degradado. Para que o manguezal cumpra plenamente seu papel, é preciso recuperar áreas, favorecer sua expansão e incluir esse processo no mercado de carbono. Sem isso, a conta fica incompleta.
Nesse cenário, o programa Bolsa Verde tem se mostrado um mecanismo mais direto. Ao transferir renda para comunidades que atuam na preservação, ele coloca recursos na ponta, sem a intermediação do mercado financeiro. O programa tem potencial para se conectar ao mercado de carbono e ampliar a escala, mas ainda depende de desenho institucional e de prioridade política.
Os limites da resiliência e as ameaças que chegam pelo mar
É um erro tratar o manguezal como um ecossistema indestrutível. As plantas de mangue já vivem sob forte estresse hídrico por causa da salinidade. Com o aumento da temperatura e a alteração no regime de chuvas, a evapotranspiração cresce e o colapso de áreas inteiras vira um risco real. Nesse caso, as comunidades ribeirinhas seriam vítimas junto com o ecossistema.
A elevação do nível do mar também impõe limites. Em 2007, o ecologista Norman C. Duke publicou na Science o artigo “O mundo sem manguezais”, no qual alertava que a área disponível para a migração dos manguezais em direção ao continente está diminuindo. A topografia e a ocupação da costa já existente restringem o espaço para que o manguezal avance. Mesmo que a vegetação cresça verticalmente, a falta de sedimentos e a erosão costeira podem levar à perda progressiva do ecossistema.
A erosão é, aliás, um dos pontos mais sensíveis. Estudos recentes, como o de Gomes et al. (2025), indicam que os manguezais reduzem a erosão de forma mais eficiente e com custo menor do que obras de engenharia. Paralelamente, entregam outros serviços ambientais, como a paisagem, a biodiversidade e o sustento de milhares de famílias.
Soluções baseadas na natureza e o futuro da costa amazônica
As soluções baseadas na natureza têm ganhado força como frente de pesquisa e política pública. No Brasil, iniciativas na região costeira amazônica já analisam como recifes e manguezais podem atuar como redutores naturais de energia de ondas, reduzindo o impacto de tempestades e a erosão. A vantagem é dupla: protegem a costa e mantêm de pé os serviços ecossistêmicos que sustentam as comunidades.
O caminho para enfrentar a crise climática na zona costeira passa, portanto, por um pacto que una ciência, política pública e saberes tradicionais. Não basta preservar o manguezal no papel; é preciso garantir renda e segurança para quem vive dentro dele. O mercado de carbono, com todos os seus limites, pode ser uma peça do quebra-cabeça — mas não a única. E dificilmente funcionará sem que as comunidades ribeirinhas sejam reconhecidas como protagonistas, e não coadjuvantes, do processo.

