O caso do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana, que chocou o Rio de Janeiro no início do ano, ganhou novas e graves dimensões. A polícia agora investiga ao menos duas outras denúncias de violência sexual envolvendo os mesmos jovens acusados. Segundo o delegado titular da 12ª DP (Copacabana), Ângelo Lages, as novas acusações vieram à tona após a ampla divulgação das fotos dos quatro réus enquanto estavam foragidos, o que encorajou outras possíveis vítimas a buscarem a delegacia.
Segunda vítima relata crime com modus operandi idêntico ocorrido em 2023
Em entrevista ao portal LeoDias, o delegado Lages detalhou o depoimento de uma segunda jovem, que na época do crime tinha 14 anos. O fato teria ocorrido em 2023, seguindo um padrão alarmantemente similar ao do caso de Copacabana. A adolescente foi atraída para um apartamento por um menor de idade que ela já conhecia. O local era de propriedade do pai de Mattheus Martins, hoje com 19 anos e um dos acusados no estupro coletivo de janeiro. No apartamento, ela foi estuprada pelos jovens e por mais um adolescente ainda não identificado.
Vítima foi coagida por gravação do crime e viveu sob intimidação por anos
O depoimento da mãe desta segunda vítima, prestado na delegacia, é descrito pelo delegado como “bem chocante”. A investigação, ainda em fase inicial, revela um quadro de extrema violência psicológica. A vítima relatou que, durante toda a agressão, queria sair do apartamento, chorou o tempo todo e pediu repetidamente para que parassem. Os agressores, no entanto, permaneceram rindo. O crime foi filmado pelos jovens, e essa gravação teria sido usada como instrumento de intimidação, impedindo a jovem de fazer a denúncia durante todos esses anos. A mãe da vítima esteve na delegacia para prestar seu relato, dando início ao processo formal de investigação deste caso específico.
Terceira acusação aponta crime durante festa de estudantes do Colégio Pedro II
Uma terceira jovem também procurou as autoridades. Aluna do tradicional Colégio Pedro II, ela foi vítima durante uma festa de alunos realizada no salão de festas de um prédio no bairro do Humaitá. Neste episódio, conforme relatado pelo delegado Lages, o modus operandi foi diferente. O local havia sido alugado para a realização da festa, e, segundo as investigações iniciais, apenas um dos acusados do caso de Copacabana, Victor Hugo Simonin, teria cometido o crime, sem a participação dos outros envolvidos. Esta denúncia amplia o escopo das investigações, sugerindo que os ataques podem não ter se limitado a um único local ou método.
Acusados poderão responder por atos infracionais por crimes cometidos quando menores
Um ponto jurídico crucial surge nas duas novas denúncias. Embora Mattheus Martins e Victor Hugo Simonin sejam hoje maiores de idade, os crimes que lhes são atribuídos nestes casos anteriores ocorreram quando ambos ainda eram menores. Portanto, ao fim das investigações, se comprovados, eles poderão responder por atos infracionais correspondentes, e não por crimes comuns no âmbito da Justiça penal tradicional. Esta nuance legal será determinante para o encaminhamento processual de cada uma dessas novas frentes investigativas.
Investigação do caso original de Copacabana está concluída com a prisão dos quatro acusados
Enquanto as novas denúncias são apuradas, a investigação principal – referente ao estupro coletivo da adolescente de 17 anos ocorrido no dia 31 de janeiro em Copacabana – foi concluída pela delegacia. Os quatro suspeitos, Bruno Felipe dos Santos Allegretti, Victor Hugo Oliveira Simon, Mattheus Veríssimo Zoel Martins e João Gabriel Xavier Bertho, foram presos e estão encaminhados ao Presídio José Frederico Marques, em Benfica, na Zona Norte do Rio. Eles aguardam audiência de custódia e responderão pelos crimes de estupro, com o agravante de a vítima ser menor de idade, e por cárcere privado. O quinto envolvido, um menor de idade que teve a identidade preservada, está em liberdade e responde por ato infracional em processo que tramita na Vara da Infância e da Adolescência.
Repercussão pública e exposição midiática foram catalisadores para novas denúncias
O delegado Ângelo Lages foi enfático ao afirmar que a grande repercussão do caso e, especialmente, a divulgação das fotografias dos foragidos foram fatores decisivos para que outras vítimas se sentissem encorajadas a procurar a polícia. Este fenômeno é observado frequentemente em casos de violência sexual de grande impacto, onde a visibilidade pública quebra barreiras de medo e silêncio. A exposição dos acusados parece ter criado um efeito de validação para outras jovens que, até então, sofriam sozinhas com as consequências dos crimes, muitas vezes intimidadas pelos próprios agressores, como no caso da gravação mencionada na segunda denúncia.
Padrão de comportamento emerge nas investigações sobre o grupo de jovens
As novas acusações desenhadas pelas investigações começam a apontar para um possível padrão de comportamento criminoso por parte do grupo. O uso de locais privados (apartamentos, salões de festa) para isolar as vítimas, a atração por meio de conhecidos ou em contextos sociais, e a participação de múltiplos agressores em alguns dos episódios são elementos comuns. A alegação da existência de gravações dos crimes também surge como um fator de coerção pós-crime, utilizado para silenciar as vítimas. A polícia agora trabalha para verificar a consistência desses relatos e buscar possíveis evidências que corroborem as denúncias, como os supostos vídeos ou qualquer outra prova material.
Autoridades reforçam canais de denúncia e apoio às vítimas de violência sexual
Em meio à comoção gerada pela revelação de novos casos, as autoridades e organizações de defesa dos direitos das mulheres reforçam a importância dos canais de denúncia. O Disque 180 permanece como a principal ferramenta nacional para relatar violência contra a mulher, oferecendo acolhimento e direcionamento. A coragem das novas denunciantes em buscar justiça, mesmo anos depois dos fatos, é vista como um passo crucial não apenas para a responsabilização dos agressores, mas também para o próprio processo de recuperação das vítimas, que muitas vezes carregam traumas profundos em silêncio.
A revelação de que os acusados de um crime hediondo podem ter um histórico de violência sexual coloca a sociedade diante de perguntas incômodas sobre a detecção precoce de comportamentos predatórios e a eficácia dos sistemas de proteção. Cada nova denúncia que surge à luz não é apenas um caso a mais nos autos da polícia; é a confirmação de um padrão que pode ter sido negligenciado e a oportunidade, ainda que tardia, de interromper um ciclo de violência. A justiça, agora, tem o desafio de conectar os pontos de uma história que parece se estender para muito além de uma única noite em Copacabana, buscando a verdade e a reparação para todas as vítimas que encontraram forças para romper o silêncio.

