O Retorno Silencioso da Mpox: O Que Esconde o Aumento de Casos no Brasil

O Brasil registrou 88 casos confirmados de mpox (anteriormente conhecida como varíola dos macacos) em 2026, com o estado de São Paulo concentrando a maioria das infecções, de acordo com dados do Ministério da Saúde consolidados até meados do ano. Apesar do aumento expressivo em relação ao ano anterior, não houve registros de mortes relacionadas à doença neste período. O cenário, que ressurge após um declínio acentuado pós-pandemia global de 2022-2023, coloca autoridades sanitárias e comunidades em alerta, revelando uma transmissão comunitária ativa e sustentada que desafia as expectativas de controle rápido da doença.

O Peso do Agora

Até ontem, a narrativa dominante sobre a mpox no Brasil era de uma crise contida. Após o pico histórico de 2022, que colocou o país como um dos epicentros globais da doença com mais de 10 mil casos, os números caíram drasticamente em 2023 e 2024. A campanha de vacinação focalizada, o aumento da conscientização sobre os modos de transmissão (principalmente por contato próximo prolongado) e a imunidade adquirida por quem contraiu a doença criaram uma aparente barreira. Relatórios trimestrais do Ministério da Saúde em 2025 falavam em “transmissão esporádica” e “casos isolados”, com a maioria dos registros vinculada a viagens internacionais ou contatos muito específicos. A expectativa consolidada entre especialistas em saúde pública era de que a mpox se tornasse uma doença rara, controlável através de vigilância de rotina e respostas localizadas.

Os 88 casos de 2026, no entanto, representam uma fratura nesse cenário. Não se trata apenas de um aumento numérico – é um padrão que contradiz a trajetória esperada. Diferente de 2022, quando os casos explodiram quase simultaneamente em múltiplas capitais, hoje a transmissão mostra uma geografia mais concentrada, porém igualmente persistente. São Paulo responde por mais de 60% dos registros, mas há notificações confirmadas em pelo menos outros sete estados, incluindo Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Este não é um surto pontual, mas sim a evidência de que o vírus encontrou um nicho para circular de forma sustentada, mesmo sem as condições excepcionais que permitiram sua disseminação explosiva há quatro anos.

O dado mais revelador, porém, não está nos boletins epidemiológicos. Ele está no perfil dos casos. Enquanto em 2022 a grande maioria das infecções ocorreu entre homens que fazem sexo com homens (HSH), hoje há um aumento proporcional – ainda que minoritário – em outros grupos. São registros em mulheres, em pessoas fora das redes inicialmente mais afetadas, e casos com vínculos epidemiológicos menos claros. Esta mudança sutil, mas significativa, indica que o vírus pode estar encontrando novas rotas de transmissão ou que a vigilância se tornou mais sensível. De qualquer forma, quebra a premissa de que a doença permaneceria circunscrita a populações específicas com alto nível de alerta e acesso a informações preventivas.

Uma Transmissão que Encontrou seu Ritmo

A concentração em São Paulo não é coincidência, mas sim o resultado de uma convergência de fatores que transformaram o estado em um microcosmo do desafio nacional. Com mais de 50 casos confirmados, a capital paulista e sua região metropolitana representam um laboratório de transmissão urbana. A densidade populacional, a intensa mobilidade interna e a existência de grandes comunidades com redes sociais complexas criam o ambiente ideal para um vírus que depende de contato próximo. Mas há mais: São Paulo foi também um dos estados com maior cobertura vacinal durante a campanha emergencial de 2022-2023, o que teoricamente deveria criar uma barreira imunológica mais robusta. O fato de a transmissão persistir mesmo assim sugere limitações na duração da proteção vacinal, falhas na distribuição que deixaram bolsões suscetíveis, ou ambas as coisas.

Os sistemas de vigilância estadual e municipal, considerados entre os mais avançados do país, também desempenham um papel paradoxal. A capacidade de detectar e confirmar casos é maior em São Paulo do que em estados com infraestrutura mais precária. Isto significa que os números paulistas podem não refletir necessariamente uma incidência desproporcional, mas sim uma capacidade de diagnóstico superior. Em outras palavras, o que vemos em São Paulo pode ser apenas a parte visível de um fenômeno mais amplo e subnotificado em outras regiões. Esta é uma hipótese preocupante que especialistas começam a considerar seriamente.

Entre a Memória e o Esquecimento

A resposta social à nova onda de casos apresenta uma contradição fundamental. Por um lado, comunidades que foram duramente atingidas em 2022 mantêm um nível elevado de alerta. Organizações da sociedade civil, especialmente aquelas que atuam na saúde da população LGBTQIA+, continuam a disseminar informações sobre prevenção, sintomas e onde buscar atendimento. Esta memória coletiva do trauma funciona como uma primeira linha de defesa. Por outro lado, fora desses círculos, a percepção de risco praticamente desapareceu. Para o público geral e mesmo para muitos profissionais de saúde da atenção primária, a mpox tornou-se uma doença “do passado”, um capítulo fechado da história recente da saúde pública.

Esta desconexão tem consequências práticas. Um médico de família em um posto de saúde de periferia, que não viu um caso de mpox desde 2023, pode não considerar o diagnóstico quando um paciente chega com febre e lesões na pele. O atraso no reconhecimento da doença atrasa o isolamento, o tratamento e a investigação de contactantes, permitindo que cadeias de transmissão se prolonguem silenciosamente. O paradoxo, portanto, é este: temos ao mesmo tempo uma população altamente informada em alguns segmentos e uma ampla desinformação ou indiferença no resto da sociedade. Este desequilíbrio cria brechas por onde o vírus segue circulando.

Os Números por Trás dos Números

Olhar apenas para os 88 casos é enganoso. A epidemiologia moderna entende que cada caso confirmado representa a ponta de um iceberg. Para cada diagnóstico laboratorial positivo, estima-se que haja entre 3 a 5 infecções que nunca chegam ao sistema de saúde ou que são tratadas como outras doenças. Se aplicarmos essa lógica conservadora ao cenário brasileiro, estamos falando potencialmente de 250 a 400 infecções reais em 2026. Este é o tamanho invisível do problema.

Outro dado crucial está na distribuição temporal. Os casos não apareceram de forma homogênea ao longo do ano. Há agrupamentos temporais – pequenos surtos localizados que surgem, são controlados e depois ressurgem em outro lugar. Este padrão de “fogueiras” que se acendem e apagam é típico de doenças que encontraram um equilíbrio endêmico. Não é uma epidemia avassaladora, mas sim uma presença constante e de baixa intensidade que exige vigilância permanente. O custo desta vigilância, em termos de recursos humanos e financeiros, é considerável e compete com outras prioridades de saúde em um sistema já sobrecarregado.

O Efeito Ondulatório

Os próximos meses serão determinantes para traçar a trajetória da mpox no Brasil. A reação em cadeia já começou, e seu primeiro elo é o acionamento dos centros de operações de emergência em saúde nos municípios com transmissão ativa. Em São Paulo, a Secretaria Municipal de Saúde já reativou protocolos de investigação de contactantes e ampliou a oferta de testagem em serviços especializados. Este movimento, quase automático, tem um custo oculto: a desviar equipes e insumos de outras atividades de vigilância, como a de dengue ou síndromes respiratórias. A alocação de recursos em saúde pública é um jogo de soma zero – o que se investe em uma frente, se retira de outra.

O segundo movimento será das agências reguladoras e do Programa Nacional de Imunizações (PNI). A pergunta inevitável é: será necessário retomar a vacinação focalizada? O estoque atual de vacinas é limitado, e a produção global não está priorizando a mpox. Qualquer decisão de iniciar uma nova campanha, mesmo que seletiva, desencadeará uma complexa negociação internacional por doses, concorrendo com dezenas de outros países que podem estar enfrentando cenários similares. Enquanto isso, comunidades em risco ficarão no limbo, sem saber se e quando terão acesso à proteção vacinal.

Finalmente, há o efeito social e político. Cada novo caso confirmado reacende o estigma que marcou a resposta inicial à doença em 2022. Líderes comunitários temem uma nova onda de discriminação contra populações já marginalizadas, especialmente se a cobertura midiática focar exclusivamente na associação inicial da doença com redes específicas de contato. Esta tensão entre a necessidade de alerta público e o risco de estigmatização colocará à prova a capacidade das autoridades de saúde de comunicar riscos com precisão e sensibilidade. O caminho a seguir é estreito: informar sem alarmar, proteger sem segregar, vigiar sem perseguir. O sucesso ou fracasso nesta comunicação delicada pode definir não apenas o controle da mpox, mas também a confiança em futuras respostas a emergências sanitárias.

O vírus da mpox, aparentemente, veio para ficar. Não como uma ameaça catastrófica, mas como mais um agente no já complexo ecossistema de doenças infecciosas do século XXI. Sua presença persistente nos lembra que a saúde global é um sistema interconectado, onde o controle de uma doença em um continente não garante segurança em outro, e onde a memória coletiva sobre riscos passados ​​é tão crucial quanto os insumos médicos. Os 88 casos de 2026 são menos um número e mais um sinal – um alerta silencioso de que a linha entre o controle e a transmissão sustentada é mais tênue do que imaginávamos, e de que a vigilância não pode ser um esforço episódico, mas sim uma disciplina constante.

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