O filme brasileiro “O Agente Secreto” (2025) chega ao Oscar 2026 carregando nas costas não apenas a esperança de uma estatueta, mas também um pedaço da história do futebol pernambucano. Protagonizado por Wagner Moura e dirigido por Kléber Mendonça Filho, o longa que concorre em quatro categorias, incluindo Melhor Filme Internacional, se passa no Recife de 1977, período que coincide com uma das eras mais gloriosas do Santa Cruz Futebol Clube. A conexão não é acidental: o time virou um elemento narrativo sutil, mas significativo, tecido nas falas e na sonoridade do filme.
A fala improvisada que virou referência cultural
Em uma cena marcante, o personagem Seu Alexandre, interpretado por Carlos Francisco, solta a frase: “Se o Santa ganhar eu pago a cerveja”. O curioso é que essa linha não estava originalmente no roteiro. Em entrevista, o ator mineiro revelou que a fala foi uma direção do próprio Kléber Mendonça Filho durante as gravações. “Torcedor do Santa Cruz, torcedor fanático do Santa Cruz. E acho que no período do filme, o Santa Cruz tava numa bela fase… Ele (Seu Alexandre) pagou a cerveja. Muito bom”, contou Francisco. A confiança do personagem reflete com precisão o momento histórico: em 1977, o Santa Cruz vivia sua chamada “época de ouro”, terminando o Campeonato Brasileiro na 10ª posição entre 62 clubes e iniciando a segunda maior invencibilidade da história da competição, uma série de 35 jogos sem derrotas que se estenderia até o ano seguinte.
O jogo histórico por trás da promessa de cerveja
Mas qual partida específica teria motivado a promessa de Seu Alexandre? Apesar do filme não especificar o confronto, uma investigação do programa Esporte Espetacular, da TV Globo, aponta para um jogo em particular. A fala provavelmente faz referência à vitória do Santa Cruz por 1 a 0 contra o Central, no estádio do Arruda, em 28 de fevereiro de 1977, pela Taça Cidade do Recife. O gol da partida foi marcado por Mazinho, consolidando uma vitória importante durante essa fase vitoriosa do clube. Essa precisão histórica demonstra o cuidado da produção em ancorar a narrativa ficcional em eventos reais, dando autenticidade ao retrato da época.
A ironia do diretor tricolor em um filme coral
Um dos aspectos mais curiosos dessa relação é o fato de Kléber Mendonça Filho, o diretor e roteirista do filme, ser declaradamente torcedor do Náutico, rival histórico do Santa Cruz. Essa informação adiciona uma camada de ironia à inclusão das referências ao time tricolor. Mais do que um mero capricho de torcedor, a decisão parece refletir um entendimento mais profundo do papel do futebol na identidade cultural recifense da década de 1970. O Santa Cruz, com sua torcida massiva e popular, era mais do que um clube; era uma instituição social que permeava o cotidiano da cidade, independentemente das preferências clubísticas individuais.
A voz de Nunes na trilha sonora da ditadura
A segunda referência futebolística no filme é ainda mais sutil, mas não menos significativa. Durante o longa, é possível ouvir o áudio de uma entrevista do atacante Nunes, também datada de 1977. Na ocasião, o centroavante do Santa Cruz explicava sua ausência de gols após uma derrota por 1 a 0 para o São Paulo. Apesar de a imagem do jogador não aparecer, sua voz é incluída e creditada na obra, funcionando como um elemento sonoro que transporta o espectador para aquele período específico. Essa escolha demonstra como o futebol e seus personagens eram parte integrante do tecido sonoro da época, ecoando pelo rádio e permeando conversas em bares e residências.
O futebol como pano de fundo do Brasil autoritário
“O Agente Secreto” se passa durante os anos mais duros da ditadura militar brasileira, e o futebol aparece não como tema central, mas como pano de fundo cultural inevitável. A inclusão das referências ao Santa Cruz funciona como um dispositivo de veracidade histórica, ajudando a situar o espectador no Recife de 1977. Em uma cidade onde o futebol era (e ainda é) paixão coletiva, as conversas sobre os resultados do fim de semana, as promessas em bares e as entrevistas de jogadores no rádio faziam parte da normalidade, mesmo em tempos de exceção política. O filme captura essa dualidade: a vida seguia com seus pequenos rituais, como torcer pelo time do coração, enquanto o regime autoritário silenciava vozes e controlava corpos.
O legado do Santa Cruz de 1977 na memória coletiva
O time de 1977 deixou marcas profundas na história do futebol brasileiro. Além da invencibilidade recorde, a equipe contava com jogadores que se tornariam ícones, como Nunes, que mais tarde brilharia no Vasco da Gama e na seleção brasileira. A lembrança dessa equipe permanece viva não apenas nos arquivos esportivos, mas também na memória afetiva dos torcedores, como demonstra sua inclusão em um filme de alcance internacional quase cinco décadas depois. Essa permanência na cultura popular atesta o poder do futebol como elemento formador de identidade e guardião de memória coletiva.
O reconhecimento internacional de uma narrativa local
A indicação de “O Agente Secreto” ao Oscar 2026 em quatro categorias (Melhor Filme Internacional, Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Canção Original) coloca o filme – e suas referências locais – no centro das atenções globais. Para o público internacional, as menções ao Santa Cruz podem passar como detalhes culturais específicos, mas para o espectador brasileiro, especialmente o pernambucano, elas funcionam como códigos de autenticidade. Essa dupla camada de significação é um dos trunfos do cinema que consegue ser profundamente local em sua temática e universal em sua humanidade.
O resgate histórico através do cinema
Ao incluir elementos tão específicos da história esportiva regional, Kléber Mendonça Filho realiza um trabalho de resgate histórico que vai além da mera ambientação. O filme funciona como uma cápsula do tempo que preserva não apenas os eventos políticos da ditadura, mas também as texturas do cotidiano, os sons das ruas e as paixões que moviam as pessoas comuns. Nesse contexto, a referência ao Santa Cruz ganha dimensão simbólica: representa as alegrias simples que persistiam mesmo em tempos sombrios, a capacidade de encontrar esperança em pequenas vitórias, seja no campo político ou no campo de futebol.
Ao tecer o futebol na narrativa de “O Agente Secreto”, o filme brasileiro indicado ao Oscar demonstra como a história não se faz apenas de grandes eventos, mas também dos rituais cotidianos que dão sentido à vida comum. A promessa de cerveja de Seu Alexandre, baseada em uma vitória específica do Santa Cruz em 1977, ecoa como um testemunho da resistência da normalidade frente à opressão. Mais do que uma curiosidade para torcedores, essas referências futebolísticas representam a teimosia com que a vida segue seus próprios ritmos, criando memórias que, meio século depois, ainda encontram eco na tela grande e, agora, no palco mais prestigiado do cinema mundial.

