No coração das Montanhas Sombrias, um ser dividido entre suas duas identidades — Sméagol, o hobbit traiçoeiro, e Gollum, a criatura obsessiva — carregou o Um Anel por cinco séculos, tornando-se um dos personagens mais complexos e tragicamente humanos da literatura fantástica. Sua jornada, muito além de uma simples luta entre bem e mal, revela um estudo profundo sobre como a corrupção não destrói a essência de uma vez, mas a fragmenta, criando um conflito interno que ecoa as próprias batalhas que travamos contra nossos piores impulsos.
O Peso da Corrupção Gradual
A história de Gollum começa não com uma queda épica, mas com um ato banal de violência entre primos. Sméagol, um hobbit do tipo dos Pés-Peludos, encontra o Um Anel no leito do rio Anduin após assassinar seu amigo Déagol por cobiça. Este momento inicial é crucial: não há possessão demoníaca instantânea, mas uma escolha consciente, ainda que impulsionada pela atração irresistível do objeto. A corrupção de Sméagol é lenta, gradual, um processo que Tolkien descreve com precisão psicológica assustadora. Ele não se torna Gollum da noite para o dia; primeiro vem o isolamento social, depois a aversão à luz, a mudança física, e finalmente o desenvolvimento de uma segunda personalidade que justifica seus atos cada vez mais sombrios.
O que torna Gollum fascinante é precisamente essa dualidade que persiste mesmo após séculos de corrupção. Sméagol nunca desaparece completamente — ele ressurge em momentos de vulnerabilidade, especialmente durante sua interação com Frodo. A famosa cena em que debate consigo mesmo nas encostas do Monte da Perdição (“Sméagol prometeu” versus “Gollum mente”) não é apenas um recurso narrativo, mas uma representação vívida do transtorno dissociativo de identidade induzido pelo trauma e pela influência maligna. Esta fragilidade psicológica é o que diferencia Gollum dos vilões puramente malignos de Tolkien, como Sauron ou os Nazgûl. Nele, ainda há algo para salvar, ou pelo menos para lamentar.
A Relação Simbiótica com o Objeto do Desejo
Gollum não apenas possui o Anel; o Anel o possui de volta, em um ciclo vicioso de dependência que vai muito além do poder político ou militar. Para ele, o Um Anel se torna “meu precioso” — um objeto de afeto possessivo, uma extensão de seu próprio ser, a única coisa que preenche o vazio deixado pela perda de sua humanidade. Esta relação é essencialmente aditiva: Gollum experimenta o Anel como uma substância que alivia temporariamente sua angústia existencial, mas que sempre exige mais em troca, corroendo um pouco mais de sua alma a cada uso.
Esta dinâmica é brilhantemente explorada na maneira como Tolkien descreve os efeitos físicos da possessão prolongada. Gollum não envelhece normalmente; ele se deforma, adaptando-se às cavernas escuras, desenvolvendo visão noturna e perdendo qualquer semelhança com seus ancestrais hobbits. Seu corpo se torna um mapa de sua degradação psicológica — magro, pálido, com olhos grandes e luminosos que refletem tanto a malícia quanto uma curiosidade infantil residual. Esta transformação física é um espelho externo de sua fragmentação interna, uma representação quase alegórica de como o vício (seja por poder, substâncias ou obsessões) remodela não apenas a mente, mas a própria carne.
O Papel Ironicamente Salvífico da Obsessão
Eis o paradoxo central da história de Gollum: sua obsessão pelo Anel, que o corrompeu por séculos, é exatamente o que permite a destruição do objeto. Sem seu conhecimento íntimo dos caminhos secretos para Mordor, sem sua habilidade em sobreviver nas terras mais perigosas da Terra-média, e sem sua traição final que leva ao acidente providencial no Monte da Perdição, a missão de Frodo teria falhado. Tolkien constrói aqui uma teologia narrativa fascinante: até mesmo os instrumentos mais corrompidos podem ser usados para fins bons, não por sua virtude, mas pela maneira como a Providência (Eru Ilúvatar, na mitologia tolkieniana) trabalha através das falhas e obsessões humanas.
Esta ironia trágica atinge seu clímax no momento da destruição do Anel. Gollum, em um acesso de alegria frenética ao recuperar “seu precioso”, cai nas chamas do Monte da Perdição, perecendo junto com o objeto de seu desejo. Sua morte não é heroica, nem mesmo redentora no sentido tradicional — ele não escolhe sacrificar-se pelo bem maior. E, no entanto, seu ato final, impulsionado pela mesma obsessão que o definiu, cumpre o destino que nem Frodo, portador puro de coração, conseguiu realizar completamente. Aqui, Tolkien parece sugerir que em um mundo caído, a salvação frequentemente chega através de canais tortuosos e personagens imperfeitos, não através da perfeição moral.
A Fragilidade como Força Narrativa
O que torna Gollum tão memorável, e por que sua história continua a ressoar com leitores e espectadores décadas depois, é precisamente sua fragilidade. Ao contrário dos heróis convencionais da fantasia, ele não possui força sobre-humana, sabedoria ancestral ou nobre linhagem. Sua “força” — se é que podemos chamá-la assim — reside em sua capacidade de sobreviver, de persistir através de sofrimentos inimagináveis, de manter um fiapo de identidade mesmo após séculos de tortura psicológica. Esta resiliência patética é mais humana do que a invulnerabilidade de Aragorn ou a sabedoria de Gandalf.
Esta humanidade residual é o que permite que os leitores simpatizem com Gollum, mesmo quando ele comete atos repugnantes. Quando ele lamenta como “os hobbits cruéis” o amarraram e o maltrataram, esquecemos momentaneamente que ele os guiava para uma armadilha mortal e sentimos uma ponta de compaixão por sua solidão. Quando ele recorda, com nostalgia trêmula, o “sabor do peixe fresco”, vislumbramos o fantasma do hobbit que já foi, antes que a escuridão o consumisse. Estas pequenas faíscas de humanidade em meio à escuridão são o que elevam Gollum de um simples monstro para uma figura trágica shakesperiana.
O Espelho das Sombras Internas
Gollum funciona como um espelho distorcido para Frodo — e, por extensão, para o leitor. Enquanto Frodo luta contra a influência crescente do Anel, vemos em Gollum o que ele poderia se tornar se cedesse completamente. Esta relação especular é mais do que um aviso moral; é uma exploração psicológica de como o mesmo objeto (ou obsessão) afeta personalidades diferentes de maneiras diferentes. Frodo, com sua compaixão inata, consegue resistir por mais tempo, mas mesmo ele não é imune. Gollum mostra o destino final de qualquer um que se agarre muito tempo às suas “preciosidades”, sejam elas poder, ódio, ressentimento ou vício.
Esta função de espelho se estende à relação complexa entre os dois personagens. Frodo, movido pela piedade, chama Gollum pelo seu nome original, “Sméagol”, tentando resgatar o que resta de humanidade nele. Esta tentativa de redenção quase funciona em vários momentos, especialmente durante a passagem por Ithilien, quando Gollum parece genuinamente tocado pelo tratamento gentil. No entanto, a intervenção de Sam — cuja desconfiança e hostilidade são compreensíveis, mas contraproducentes — e a própria natureza fragmentada de Gollum condenam esta tentativa ao fracasso. Aqui, Tolkien explora os limites da misericórdia: até que ponto podemos confiar em alguém profundamente corrompido? Quando a compaixão se torna ingenuidade perigosa?
A Corrupção como Processo, Não como Estado
Um dos insights mais profundos que a psicologia de Gollum oferece é que a corrupção raramente é um evento único, mas sim um processo contínuo de pequenas concessões, justificativas e autoenganos. Sméagol não decide se tornar um monstro; ele apenas dá o primeiro passo (“Déagol, meu amor, dá o anel para Sméagol”), depois o segundo (usar o anel para espionar e roubar), depois o terceiro (retirar-se para as cavernas), até que, séculos depois, mal reconhece a criatura em que se transformou. Esta progressão insidiosa é muito mais assustadora — e muito mais verdadeira psicologicamente — do que uma transformação instantânea por magia negra ou possessão demoníaca.
Este processo é visível mesmo após Gollum já estar totalmente formado. Sua corrupção não está completa; ele continua a oscilar entre lealdade e traição, entre gratidão e ressentimento, entre Sméagol e Gollum. Esta instabilidade permanente sugere que, não importa o quão longe alguém tenha caído, sempre há uma luta interna acontecendo. Para Tolkien, um católico devoto, esta pode ser uma expressão da doutrina da graça — a ideia de que a imagem de Deus no ser humano nunca é completamente apagada, não importa o quão distorcida se torne.
A história de Gollum não termina com redenção no sentido convencional, mas com um cumprimento trágico e irônico do destino. Sua obsessão, que o definiu e destruiu, acaba servindo ao bem maior de maneira completamente involuntária. Esta resolução satisfaz não porque ofereça uma moral simples (“a ganância leva à queda”), mas porque reconhece a complexidade da condição humana — como nossas falhas e obsessões podem, de maneiras imprevisíveis, contribuir para resultados que transcendem nossas intenções limitadas. Gollum permanece, décadas depois, não como um monstro a ser temido, mas como uma figura trágica a ser compreendida, um lembrete de que a linha entre hobbit e monstro é mais tênue do que gostaríamos de admitir, e que todos carregamos, em algum nível, nosso próprio “precioso” ao qual nos agarramos com perigosa devoção.

