Quando se fala em trilha sonora de videogame, o imaginário costuma puxar para orquestras inteiras, corais e aquelas composições cinematográficas que funcionariam bem em Hollywood. Mas existe outra linhagem de música de games, bem menos celebrada, mas igualmente vital: a das trilhas sujas, frenéticas e multigenéricas nascidas nos fliperamas. Super Woden: Rally Edge, game espanhol de corrida desenvolvido por uma única pessoa, é um exemplo perfeito desse tipo de som — e a dupla DJ DeVito e DonutDroid acerta em cheio ao transformar a experiência do jogo em um destaque musical à parte.
Diferentemente dos blockbusters modernos, que apostam em paisagens sonoras épicas para acompanhar narrativas densas, os jogos de corrida e luta ainda preservam um espaço para a música que não pede desculpas por ser exagerada, rápida e sintética. É um som que remete à adrenalina das cabines de arcade, com BPM acelerado e produção no limite. Texturas de techno, breakbeat, metal e até jazz-funk convivem no mesmo pacote, e é exatamente essa mistura que torna a trilha de Super Woden: Rally Edge uma joia para entusiastas de game music.
O encontro de dois mundos na mesma trilha
A trilha sonora de Super Woden: Rally Edge tem uma estrutura curiosa: ela é dividida em duas metades complementares, assinadas por artistas distintos. De um lado, DJ DeVito constrói a espinha dorsal com um pacotão de techno, Eurodance, electro e happy hardcore. Do outro, DonutDroid eleva o nível com uma aula de versatilidade musical, circulando entre gêneros sem perder coesão.
O resultado é uma obra que funciona tanto dentro do jogo — onde acompanha carros minúsculos derrapando em estágios de rali de dois minutos — quanto como audição independente. Quem quiser conferir sem abrir o game pode comprar a trilha separadamente na Steam, ou buscar as faixas no YouTube.
DJ DeVito: a base dançante e implacável
As faixas de DJ DeVito são pura energia positiva. É techno de quatro tempos na bateria, linhas de baixo insistentes e aqueles stabs de orquestra sintetizada que soam deliberadamente oitentistas. A faixa “Drive or Die” é um exemplo perfeito: uma base contagiante com teclados orquestrais exagerados que poderiam ter saído de uma trilha de filme de ação de baixo orçamento, mas que funcionam perfeitamente no contexto. Já “Across the Universe” aposta em um techno reto, sem concessões, que mantém a pegada frenética do game sem perder o groove.
Não é música para contemplação. É música para acelerar, para bater o dedo no volante e para ignorar a noção de tempo enquanto se busca o melhor tempo de volta. Essa metade da trilha cumpre o papel de alicerce, preparando o terreno para a parte mais experimental e ousada do trabalho.
DonutDroid: um camaleão em altíssima rotação
Se DJ DeVito entrega a base, é DonutDroid quem coloca a trilha de Super Woden: Rally Edge em outro patamar. O músico transita entre gêneros com uma naturalidade impressionante, e cada faixa parece uma homenagem a um momento distinto da cultura eletrônica e do rock.
“Burn Rubber Lovers” é um breakbeat com pegada punk que caberia sem constrangimento em um Jet Set Radio. “Funk Boy Slim” mistura big beat, órgão Hammond, metais e flauta jazzística em uma faixa impecável. “Disco Killer Music Lover” evoca o Daft Punk dos primeiros discos, com aquela produção suja e crua. E “Gravel Fury” é metal de arena puro, com riffs de guitarra cabeludos e atitude de estádio.
A complexidade técnica das composições de DonutDroid merece atenção especial. Faixas como “Turbocharged Rage” e “Lost in Daytona” mergulham em território de jazz-rock com compassos complexos, slap bass e solos que parecem saídos de uma jam session tão técnica quanto caótica. É um nível de detalhe que recompensa tanto quem ouve distraidamente quanto quem analisa cada camada da produção.
Por que a trilha de Super Woden: Rally Edge é relevante?
Vale perguntar: por que uma trilha de um jogo de corrida indie, feito por um desenvolvedor solo espanhol, merece destaque? A resposta está na raridade. Enquanto as grandes produções enchem os holofotes com orquestras e compositores premiados — nomes como o de David Arnold, que já compôs para filmes de James Bond e que apresentou um prêmio no BAFTA Games Awards homenageando o meio —, as trilhas com linguagem genuinamente videogame, nascidas do arcade, estão cada vez mais escassas.
Essas trilhas têm características próprias: são loops pensados para partidas curtas, transitam entre gêneros com facilidade, não têm medo de soar bregas e exageradas, e mantêm uma energia constante do início ao fim. Elas não querem ser cinema. Querem ser diversão pulsante, com referências explícitas a décadas de música eletrônica e rock. É um vocabulário musical autêntico do meio, que tem nos jogos de luta e corrida seus últimos redutos.
O trabalho de DJ DeVito e DonutDroid em Super Woden: Rally Edge é uma prova de que essa linguagem segue viva. Não é uma trilha que vai concorrer a prêmios de prestígio, e tudo bem. A recompensa aqui é outra: manter acesa uma chama de autenticidade musical que faz parte da história dos videogames.
Onde a trilha se encaixa no cenário atual?
Para entender a importância desse tipo de trabalho, basta olhar para exemplos recentes como Tekken 8, Sonic Racing: Crossworlds e o retorno de Tokyo Xtreme Racer. Todos carregam trilhas que poderiam ser consideradas “menos respeitáveis” no sentido clássico, mas que são fundamentais para a identidade dos jogos. São músicas que entendem o que é uma partida, o que é um confronto, o que é uma ultrapassagem no limite. E Super Woden: Rally Edge se junta a essa linhagem com personalidade própria, graças à coesão entre a direção de arte e o som.
Há também um fenômeno cultural em movimento: as apresentações de música de games lotam salas de concerto, e emissoras de rádio eruditas já tocam trilhas de jogos com frequência. A música de videogame, enfim, ganhou um status que parecia impossível há duas décadas. Mas é preciso celebrar também as margens desse movimento. Enquanto as grandes orquestras executam suítes de Zelda, artistas como DJ DeVito e DonutDroid seguem trabalhando em uma escala menor, mantendo vivo o espírito das sonoridades que não vieram da tradição clássica, mas sim dos chips de som, dos sintetizadores baratos e da cultura de clubes e fliperamas.
Uma análise direta da obra
O que torna a trilha de Super Woden: Rally Edge tão especial? É a combinação da base dançante de DJ DeVito com a versatilidade virtuosa de DonutDroid. A primeira metade cimenta a energia; a segunda eleva a proposta a um nível quase prog. Juntas, as duas metades formam um retrato fiel da alma do jogo: retro, vibrante, caprichado e genuinamente divertido.
Qual a diferença entre os dois artistas? DJ DeVito é o coração pulsante, responsável pelo pilares de techno e Eurodance que sustentam a experiência. DonutDroid é o cérebro inquieto, que transforma a trilha em um playground de gêneros, do breakbeat ao jazz-rock. A soma das partes resulta em um todo maior do que cada contribuição isolada.
Vale a pena comprar a trilha separadamente? Para quem aprecia game music além do óbvio, sim. A trilha funciona perfeitamente como material de audição autônoma, especialmente para quem curte música eletrônica com pegada underground e referências bem resolvidas. Disponíveis na Steam e no YouTube, as faixas oferecem uma experiência completa mesmo para quem nunca jogou Super Woden: Rally Edge.
Ninguém vai entregar um BAFTA para DJ DeVito e DonutDroid. Mas o trabalho deles em Super Woden: Rally Edge é daqueles que envelhecem bem, porque é feito com domínio técnico e amor genuíno pelo meio. Enquanto certos compositores consagrados olham para os videogames de cima para baixo, essa dupla está na trincheira, sujando as mãos com sintetizadores e batidas aceleradas — e o resultado é uma das trilhas mais autênticas do gênero de corrida nos últimos anos.

