Big Techs e tecnofascismo ameaçam eleições e democracia no Brasil

Aliança entre big techs e regimes autoritários coloca em risco a democracia brasileira nas próximas eleições.

Destaques
  • O tecnofascismo usa tecnologia para vigilância, controle social e eliminação da democracia.
  • Big techs promovem o discurso de risco existencial da IA para evitar regulações e atrair investimentos.
  • A resistência exige redistribuição da autoridade epistêmica e participação ativa da sociedade civil.

O tecnofascismo, termo que define a aliança estratégica entre big techs e regimes autoritários, deixou de ser um conceito teórico para se tornar uma ameaça concreta à democracia brasileira. Com o segundo turno das eleições presidenciais se aproximando, o país enfrenta uma escolha fundamental: dar continuidade ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que busca regular e democratizar o uso da tecnologia, ou sucumbir a um modelo de desregulação total que entregaria o destino da informação e da política nas mãos de corporações cada vez mais alinhadas ao autoritarismo. O alerta sobre os perigos dessa simbiose já havia sido feito pelo presidente Lula, mas o avanço global da extrema-direita e sua aliança com o Vale do Silício tornam a discussão mais urgente do que nunca.

Para compreender o tamanho do risco, é preciso primeiro entender como essa engrenagem opera e quais os discursos que a sustentam no cenário nacional e internacional.

A engrenagem do tecnofascismo

A promessa libertária dos primórdios da internet há muito deu lugar a uma realidade distópica. A professora Catherine D’Ignazio define tecnofascismo como a confluência entre o poder econômico das gigantes de tecnologia e o poder político de governos de direita e extrema-direita. Essa aliança tem um objetivo claro: usar a tecnologia como ferramenta de vigilância, controle social e eliminação da democracia.

Os exemplos dessa engrenagem são numerosos e preocupantes. Empresas como a Palantir, do bilionário Peter Thiel, fornecem sistemas de monitoramento para estados autoritários, enquanto as plataformas de redes sociais falham, muitas vezes deliberadamente, em conter discursos de ódio e desinformação, usando algoritmos que alimentam a radicalização política. No campo bélico, o uso da inteligência artificial por Israel na Faixa de Gaza, analisado pelo sociólogo Sérgio Amadeu, demonstra como essas tecnologias podem ser empregadas para desumanizar populações inteiras e automatizar a violência em larga escala.

O discurso do risco existencial como cortina de fumaça

Enquanto os danos reais da IA se acumulam, as big techs promovem uma narrativa que desvia a atenção do presente para um futuro apocalíptico. A ideia de que a inteligência artificial representa um “risco existencial” para a humanidade é, segundo a cientista da computação Timnit Gebru, uma “distração” deliberada.

Para Gebru, empresas como OpenAI, Anthropic, Google e xAI alimentam o pânico em torno de supermáquinas imaginárias com um objetivo muito concreto: falar com investidores e governos. Ao se apresentarem como as únicas capazes de controlar essa suposta ameaça, essas corporações justificam valuations bilionários e afastam regulações mais rígidas sobre seus negócios. O escritor Cory Doctorow endossa essa visão e argumenta que o “hype” em torno da IA é uma bolha de propaganda artificialmente criada para atrair capital e se blindar contra críticas.

Gil Durán, autor de The Nerd Reich, vai além e afirma que o tecnofascismo não é um desvio de rota, mas o destino lógico de uma indústria fundada na privatização do espaço público e no desprezo pelos valores democráticos. Ao focar em cenários distópicos e vender a ideia de sua própria inevitabilidade, as big techs tentam naturalizar um projeto de poder que é profundamente autoritário.

O PBIA e a disputa pelo futuro da democracia no Brasil

No Brasil, o governo Lula buscou construir um contraponto direto a essa lógica com o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), batizado de “IA para o Bem de Todos”. O plano coloca a defesa da democracia, a cidadania e a soberania nacional como eixos centrais para o desenvolvimento da tecnologia. Ele reconhece a existência de vieses raciais, de gênero e de classe nas ferramentas de IA, além da necessidade de responsabilizar as grandes empresas de tecnologia pelos impactos de seus produtos.

O PBIA representa uma visão de que a tecnologia deve estar a serviço do bem comum, e não de interesses privados e autoritários. No entanto, sua continuidade está diretamente ameaçada pelo cenário eleitoral. Uma vitória da extrema-direita no segundo turno não apenas enterraria o plano, mas abriria as portas para uma atuação ainda mais predatória das big techs no país. Sem regulação, o Brasil se tornaria um campo fértil para a desinformação em massa, o uso de deepfakes e a manipulação algorítmica das eleições, repetindo o modelo de desregulação defendido por aliados de Donald Trump nos Estados Unidos.

Transparência e resistência: hackeando o sistema

Diante desse cenário, a resistência ao tecnofascismo exige mais do que boas intenções ou códigos de conduta voluntários. A pesquisadora Nina da Hora propõe uma abordagem que envolve “hackear” as bases epistemológicas desses sistemas. Isso significa ir além da simples exigência de “transparência algorítmica” — saber como um código funciona — e partir para uma “redistribuição da autoridade epistêmica”.

Em outras palavras, não basta entender o mecanismo técnico; é preciso questionar quem desenvolve essas tecnologias, com quais dados, para atender a quais interesses e, principalmente, quem decide o que é verdade ou relevância em uma sociedade. A governança democrática da inteligência artificial é uma questão essencialmente política, e não apenas técnica. Ela exige a participação ativa da sociedade civil, da academia e do Estado na definição dos rumos da tecnologia, retomando o controle sobre um futuro que está sendo sequestrado por meia dúzia de corporações.

A inteligência artificial não é uma força inevitável da natureza, e o tecnofascismo tampouco deve ser tratado como tal. Defender a democracia no Brasil de hoje é também resistir à colonização de nossa vida por algoritmos nada neutros. É construir, de forma coletiva e participativa, um futuro digital que esteja a serviço da pluralidade, da justiça social e do bem comum, em oposição direta aos projetos de poder autoritários que emergem da aliança entre a extrema-direita e o Vale do Silício.

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