O Groupe ADP, gestor dos aeroportos Paris-Charles de Gaulle e Orly, juntou-se oficialmente ao coro de críticas contra o cronograma de implementação do Sistema de Entrada/Saída (EES) da União Europeia. Em um movimento que amplifica a preocupação geral do setor aéreo, a administradora francesa pediu publicamente o adiamento da ativação completa do novo modelo de controle fronteiriço, previsto para outubro de 2024. O pedido surge diante de alertas concretos sobre a incapacidade da infraestrutura atual dos aeroportos de absorver o novo processo sem causar filas massivas e atrasos generalizados.
O que é o EES e por que ele substitui os carimbos
O Sistema de Entrada/Saída (EES) é uma iniciativa da União Europeia para modernizar e digitalizar o controle de fronteiras no Espaço Schengen. Seu objetivo principal é eliminar o carimbo manual nos passaportes de viajantes de países terceiros (não pertencentes à UE ou à Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça). Em vez do selo físico, o sistema registrará digitalmente e de forma automatizada os dados do viajante – nome, tipo de documento, impressões digitais e imagem facial – bem como a data e local de entrada e saída. A ideia é aumentar a segurança, combater a imigração irregular e automatizar o cálculo da permanência autorizada de 90 dias a cada 180 dias.
O processo prático para o viajante no novo sistema
Ao chegar a um ponto de entrada na UE pela primeira vez sob o EES, o viajante de um país terceiro terá um processo diferente. Ele precisará apresentar seu passaporte biométrico em um leitor eletrônico. Em seguida, terá seus dados pessoais, quatro impressões digitais e uma fotografia facial capturados e registrados no sistema centralizado da UE. Esses dados serão cruzados com bases policiais e de imigração. Apenas após essa verificação biométrica, que é nova para a maioria dos viajantes, a porteira de fronteira será liberada. Para entradas subsequentes, o processo será mais rápido, utilizando principalmente o reconhecimento facial.
Os pontos de estrangulamento identificados pelos aeroportos
A principal crítica do Groupe ADP e de outras associações do setor, como a ACI Europe e a IATA, não é ao sistema em si, mas à sua implementação prática no ambiente aeroportuário atual. Eles apontam que os terminais não possuem espaço físico suficiente para acomodar os novos quiosques e equipamentos de biometria necessários para processar todos os passageiros. O processo de coleta de dados, que leva estimados 90 segundos por pessoa na primeira vez, é considerado muito mais lento do que o carimbo manual atual, podendo multiplicar o tempo de espera nas filas de imigração. Em aeroportos movimentados como o Charles de Gaulle, que processa dezenas de milhares de passageiros de países terceiros diariamente, um minuto a mais por pessoa pode significar filas que se estendem por centenas de metros dentro do terminal.
Falta de testes em larga escala e treinamento da equipe
Outra preocupação levantada é a ausência de um período de testes operacionais robusto antes do “dia um”. As autoridades de fronteira, como a polícia auxiliar de fronteira francesa (PAF), e o pessoal das companhias aéreas que verificam documentos no check-in e no embarque precisam ser treinados extensivamente no novo fluxo. A complexidade do sistema também exige um plano de contingência claro para falhas técnicas, que são inevitáveis em um lançamento dessa magnitude. A indústria argumenta que implementar o sistema no pico do verão europeu de 2024, sem testes em condições reais de tráfego, é uma receita para o caos.
O risco de impacto econômico no turismo e na aviação
O temor de longas filas e experiências negativas na entrada na Europa tem um componente econômico direto. Atrasos na imigração podem fazer com que passageiros percam conexões, sobrecarregando os balcões das companhias aéreas e gerando custos com realojamento e compensações. A imagem da UE como um destino turístico eficiente e acolhedor pode ser manchada logo no início da alta temporada. O setor aéreo, que ainda se recupera financeiramente dos impactos da pandemia, vê o EES como um desafio operacional significativo que pode desencorajar viagens se a primeira impressão for de desorganização.
O posicionamento da Comissão Europeia e o possível adiamento
Até o momento, a Comissão Europeia e a agência eu-LISA, responsável pela gestão operacional do sistema, mantêm o cronograma oficial de outubro de 2024. No entanto, a pressão está aumentando. O Parlamento Europeu já realizou audiências sobre os riscos, e vários Estados-membros expressaram preocupações em fóruns internos. Um adiamento de seis meses a um ano é considerado uma possibilidade real por analistas do setor. Esse período seria usado para instalar mais equipamentos, realizar testes operacionais abrangentes em aeroportos-piloto e conduzir campanhas de informação para viajantes.
O que os viajantes devem esperar e como se preparar
Independentemente da data final de implementação, o EES será uma realidade. Viajantes brasileiros e de outros países terceiros devem se preparar para uma experiência inicial de fronteira mais demorada na sua primeira viagem à Europa após a ativação do sistema. É essencial viajar com passaporte biométrico válido e estar pronto para forneecer impressões digitais e ter a foto tirada no quiosque. Verificar os requisitos específicos antes da viagem será mais importante do que nunca. A dica principal das companhias aéreas é chegar ao aeroporto com ainda mais antecedência do que o habitual durante o período de transição.
O pedido do Groupe ADP é um sinal claro de que a desconexão entre a visão regulatória de Bruxelas e a realidade operacional no chão dos aeroportos atingiu um ponto crítico. A implementação bem-sucedida do EES é crucial para a segurança das fronteiras europeias, mas seu fracusto operacional teria consequências imediatas e visíveis para milhões de pessoas. A bola agora está no campo das instituições europeias, que precisam decidir entre impor um calendário rígido ou ceder à pressão do setor para garantir uma transição suave. A decisão que tomarem definirá o tom das chegadas à Europa nos próximos anos.

