O Ministério de Minas e Energia está finalizando os estudos para colocar em leilão um dos maiores projetos de transmissão de energia da história do Brasil. Orçado em R$ 17 bilhões, o Corredor Expresso Bipolo Nordeste 2 tem como objetivo principal reduzir drasticamente o desperdício de energia renovável, um problema crônico que custou ao setor bilhões de reais em receita perdida apenas em 2025.
Rota de 2.500 km para conectar o Nordeste ao Paraná
O mega-linhão cortará o país no sentido norte-sul, partindo de Angicos, no Rio Grande do Norte, e seguindo até Itaporanga, no Paraná. Com aproximadamente 2.500 quilômetros de extensão, a obra será a segunda mais cara do setor de transmissão, atrás apenas de outro projeto em construção que liga o Maranhão a Goiás, arrematado pela chinesa State Grid por R$ 18 bilhões em 2023.
Curtailment causou perda de 20% da energia renovável em 2025
O principal motivador do projeto é o chamado curtailment, que é o desligamento forçado de usinas eólicas e solares quando a rede de transmissão não tem capacidade para escoar toda a energia gerada. Um estudo da consultoria Volt Robotics revelou que, em 2025, cerca de 20% da geração dessas fontes foi desperdiçada, o que representou uma perda de receita estimada em R$ 6,5 bilhões para as empresas do setor. O Nordeste, região com maior potencial para renováveis, é a que mais sofre com essas restrições.
Previsão de leilão para 2027 e favoritismo da State Grid
Os estudos de viabilidade técnica e econômica foram concluídos pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) no final de 2025. Agora, o governo pretende realizar uma etapa final de estudos com empresas do setor, com o objetivo de licitar as obras em 2027. No mercado, a chinesa State Grid é apontada como a natural favorita para vencer o leilão, devido ao seu expertise tecnológico e robustez financeira. A AXIA Energia também é vista como uma potencial concorrente.
Tecnologia inédita no Brasil promete maior estabilidade
O projeto será um bipolo em corrente contínua, uma configuração que permite transmitir energia por longas distâncias com perdas técnicas significativamente menores do que as linhas de corrente alternada, que predominam no sistema nacional. A grande inovação, porém, está no uso da tecnologia VSC (Voltage Source Converter), ainda não implementada no país. Este sistema é considerado ideal para integrar fontes renováveis intermitentes, como eólica e solar, à rede, oferecendo maior confiabilidade e estabilidade, sendo amplamente utilizado na Europa, EUA e China.
Investimento total pode chegar a R$ 25 bilhões com obras complementares
O Corredor Expresso demandará ainda uma série de obras complementares para reforçar a rede, incluindo outras linhas de transmissão em corrente alternada. Quando consideradas todas as instalações recomendadas pela EPE, o investimento total estimado salta para R$ 25 bilhões. O formato exato do leilão – se em um lote único ou subdividido – ainda será avaliado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Alívio gradual no desperdício de energia limpa
Especialistas acreditam que, com a implementação deste e de outros projetos de transmissão licitados recentemente, o Brasil verá um alívio gradual no curtailment por restrição elétrica, que é aquele causado pela falta de capacidade na rede. No entanto, alertam que ainda poderá ocorrer desperdício por falta de demanda, quando há excesso de geração sem carga para absorvê-lo. A obra representa um passo crucial para otimizar a matriz energética nacional, permitindo que a energia barata e limpa gerada no Nordeste chegue com eficiência às regiões de maior consumo.
A capacidade de exportação do Nordeste será ampliada, enquanto o Sul, que tem uma geração local mais limitada, ganhará uma via robusta para importar energia de outras partes do país. O projeto simboliza a tentativa de resolver um dos maiores gargalos para a expansão das renováveis no Brasil, transformando um passivo bilionário em uma infraestrutura estratégica para as próximas décadas.

