Quando uma comédia de espionagem estrelada por Ryan Reynolds chega ao streaming sem alarde, o ceticismo é uma resposta justa. Afinal, o ator construiu uma carreira baseada em um arquétipo tão repetido que já virou piada recorrente entre os espectadores mais atentos. Mayday (2026), no entanto, é um caso curioso: um filme que chega à Apple TV quase como um drop secreto e, apesar do peso do seu protagonista nas engrenagens da produção, consegue ser uma das comédias mais genuinamente engraçadas do ano. O segredo está na dupla Jonathan Goldstein e John Francis Daley, que transformam uma premissa de Guerra Fria em uma road trip improvável e visualmente inventiva.
O que é Mayday e por que ele funciona mesmo com Ryan Reynolds?
Na trama, ambientada no crepúsculo da Guerra Fria, um piloto norte-americano (Ryan Reynolds) é abatido em uma missão de espionagem sobre a União Soviética. Sobrevivendo à queda, ele é resgatado por um ex-agente da KGB (Kenneth Branagh) que vive isolado na neve e é obcecado por Top Gun: Ases Indomáveis, assistido de forma contrabandeada. O piloto precisa fugir do território inimigo; o espião aposentado quer refúgio nos EUA. O resultado é uma parceria forçada que cruza a vastidão soviética em uma road trip repleta de humor físico, diálogos afiados e uma direção que entende o poder do quadro e da quebra de expectativa.
O grande mérito de Goldstein e Daley — dupla responsável pelo melhor roteiro do Homem-Aranha no MCU (Homem-Aranha: De Volta ao Lar) — é construir um texto que aposta na inteligência do público. As piadas não são explicadas; elas são encenadas. A câmera dança com os personagens em coreografias que lembram Kingsman: Serviço Secreto (2014), e o uso de zoom e enquadramentos transforma perseguições discretas em cenas de tensão cômica raras no gênero. O problema surge quando Reynolds, também produtor, insere suas típicas observações sarcásticas durante a ação, como se precisasse constatar para a plateia algo que ela já processou visualmente. É a voz do Deadpool falando mais alto, e ela conflita com a elegância narrativa dos diretores.
A direção de Goldstein e Daley supera as limitações de orçamento
É evidente que Mayday não teve o orçamento de um Top Gun: Maverick. As limitações aparecem em cenários digitais e em algumas sequências aéreas que, embora empolgantes — como a queda do protagonista com paraquedas rasgado sob destroços do avião espião BlackBird —, não competem com produções blockbuster tradicionais. A resposta de Goldstein e Daley foi priorizar o que está no chão: a fisicalidade dos atores e o movimento de câmera. A abordagem à lá Kingsman nas lutas e a dinâmica de zooms rápidos criam uma linguagem visual própria que sustenta o filme longe da mesmice do gênero de espionagem.
Há, ainda, uma camada dramática inesperada sobre o peso dos regimes sobre os indivíduos. Esse debate é carregado quase que exclusivamente por Kenneth Branagh e Maria Bakalova, que entregam performances capazes de equilibrar o tom entre o absurdo e o humano. A virada emocional do terceiro ato, no entanto, sofre com o desnível de carisma: Branagh corre uma maratona de atuação enquanto Reynolds mal sai da linha de largada. A ausência de presença cênica do protagonista no papel de um piloto charmoso e imponente — que deveria evocar um Maverick ou um Hal Jordan — gera um paradoxo: Mayday é o melhor filme de Reynolds desde Deadpool 2 (2018), mas ele é também o elo mais fraco da produção. Com um Chris Pine ou Ewan McGregor no papel, estaríamos diante de um candidato a filme do ano.
Por que Mayday foi lançado em silêncio na Apple TV?
Um dos aspectos mais curiosos do lançamento de Mayday é o hermetismo. A produção tem a marca de David Ellison (Skydance Media), que insiste em ter seu nome enorme e em primeiro lugar nos créditos de produtor. A pergunta que fica é: por que um estúdio com capacidade de distribuição cinematográfica optou por um lançamento discreto no streaming, sem alarde? A Apple TV parece ter recebido o filme como se fosse um presente inesperado, sem a campanha de marketing típica de uma comédia de ação com nome de peso. Isso não diminui a qualidade do longa, mas levanta questões sobre a estratégia por trás da curadoria do catálogo da plataforma no Brasil.
Mayday é, acima de tudo, um filme que honra o gênero de espionagem com um humor que funciona na maioria das vezes, uma direção criativa e um texto que respeita o espectador. É a prova de que, mesmo com um protagonista que parece estar em piloto automático, uma visão cinematográfica forte pode salvar (e elevar) todo o projeto. Se você tem uma assinatura da Apple TV, vale cada minuto gasto — mesmo que seja para perceber o quanto o filme seria ainda melhor sem o seu astro.

