A Apple concordou em pagar US$ 250 milhões (cerca de R$ 1,3 bilhão) para encerrar uma ação coletiva movida por consumidores que alegavam ter sido enganados por propagandas que prometiam funcionalidades de IA para o Siri que nunca foram entregues. O acordo, anunciado em 5 de maio de 2026, ocorre às vésperas da WWDC26, que acontece em 8 de junho, e onde a empresa finalmente apresentará a versão reformulada do assistente virtual — dois anos após a promessa inicial feita na WWDC 2024. O caso expõe não apenas o custo financeiro de uma comunicação agressiva, mas também a complexidade técnica e estratégica que levou a Apple a trocar seu motor de IA próprio por uma parceria de peso com o Google Gemini.
O preço do atraso do Siri: como a Apple chegou ao acordo de US$ 250 milhões
A origem do litígio remonta a junho de 2024, quando a Apple apresentou, na WWDC 2024, o Apple Intelligence e prometeu um Siri radicalmente novo, capaz de entender o contexto pessoal do usuário e realizar ações entre aplicativos. A empresa reforçou essas promessas na campanha de lançamento do iPhone 16, em setembro do mesmo ano, exibindo em anúncios funcionalidades que, na prática, ainda não existiam. Em março de 2025, a Apple oficializou o adiamento indefinido dessas funções, retirou as propagandas do ar e se viu alvo de uma ação coletiva nos Estados Unidos.
Os consumidores que adquiriram iPhones entre 10 de junho de 2024 e 29 de março de 2025 nos Estados Unidos são elegíveis para receber entre US$ 25 e US$ 95 por dispositivo, dependendo do modelo e das circunstâncias. A Apple, embora tenha concordado em pagar a indenização, não admite qualquer irregularidade — uma manobra comum em acordos desse tipo para evitar a criação de jurisprudência. O valor de US$ 250 milhões cobre honorários advocatícios, custos administrativos e compensações diretas aos membros do grupo.
O caso ilustra um risco crescente no setor de tecnologia: o de anunciar produtos e funcionalidades com base em roteiros de desenvolvimento agressivos, que podem não se concretizar no prazo estipulado. A Apple, conhecida por seu controle rigoroso sobre a experiência do usuário, viu-se em uma posição defensiva, tendo que gerenciar expectativas que ela mesma criou.
O novo Siri: IA generativa, integração com Gemini e o fim do assistente tradicional
Na WWDC26, o foco principal será a apresentação do Siri reformulado, que deixará de ser um assistente de voz baseado em comandos pré-definidos para se tornar um chatbot de IA generativa, nos moldes do ChatGPT e do Google Gemini. O assistente ganhará um aplicativo próprio, com interface que exibe as conversas em balões semelhantes aos do iMessage, e o histórico de interações será sincronizado entre dispositivos via iCloud. O usuário poderá pesquisar diálogos passados e fazer upload de arquivos diretamente na conversa com o Siri.
O grande diferencial técnico, no entanto, está na arquitetura de inteligência artificial. Em janeiro de 2026, a Apple firmou um acordo plurianual com o Google, com pagamento estimado em US$ 1 bilhão por ano, para utilizar o modelo customizado de 1,2 trilhão de parâmetros do Gemini como base do Apple Intelligence. Fontes indicam que a Apple avaliou ofertas da OpenAI e da Anthropic, mas optou pelo Google após constatar que cerca de 33% das respostas do modelo próprio da Apple para consultas complexas falhavam. A decisão representa um reconhecimento explícito de que a empresa não conseguiu desenvolver internamente um modelo de fundação competitivo no prazo necessário.
Contudo, o Siri não se tornará exclusivo do Gemini. O iOS 27 introduzirá o sistema “Extensions”, que permitirá ao usuário escolher qual serviço de IA — Gemini, ChatGPT, Claude ou outros — servirá como backend não apenas para o Siri, mas para todo o ecossistema Apple Intelligence, incluindo ferramentas de escrita e geração de imagens. Há relatos de que cada modelo terá uma voz de resposta distinta, personalizando ainda mais a experiência. A Apple insiste que, mesmo com a parceria, o Siri baseado em Gemini será executado nos servidores próprios do Apple Private Cloud Compute, sem que os dados do usuário sejam transferidos diretamente para o Google — uma alegação que precisará ser demonstrada tecnicamente durante a keynote.
Interface reformulada e novos recursos de câmera com Siri
A forma de invocar o Siri também mudará. No iPhone, um swipe para baixo a partir do centro da parte superior da tela abrirá a interface “Pesquisar ou Perguntar”, que mescla busca textual e consultas ao assistente. O centro de notificações será realocado para o canto superior esquerdo, e a Dynamic Island exibirá um cursor pulsante para indicar que o Siri está sempre presente e ouvindo.
O aplicativo Câmera ganhará um modo “Siri Mode”, posicionado ao lado dos modos Foto, Vídeo, Retrato e Panorama. Esse modo permitirá reconhecimento de objetos em tempo real e tradução instantânea de textos capturados pela câmera. O aplicativo Fotos também receberá funcionalidades de edição com IA, incluindo alteração de composição, expansão de imagem e comandos de edição em linguagem natural.
O iOS 27 terá um recurso de privacidade adicional: a exclusão automática do histórico de conversas. O usuário poderá escolher entre a remoção após 30 dias ou após 1 ano, uma medida que visa mitigar preocupações com o armazenamento prolongado de dados sensíveis.
macOS 27: Liquid Glass refinado e otimização de desempenho
A Apple também aproveitará a WWDC para apresentar o macOS 27, que trará ajustes significativos no design Liquid Glass introduzido no ano anterior. O Liquid Glass, uma reformulação visual ambiciosa que priorizava efeitos de transparência e sombras, enfrentou críticas por comprometer a legibilidade em displays LCD, especialmente nos modelos de Mac que não contam com painéis OLED. O macOS 27 não abandonará o conceito, mas aplicará correções nos efeitos para garantir contraste adequado e melhorar a experiência em telas de cristal líquido.
Internamente, a atualização é comparada ao macOS Snow Leopard (2009): um release focado em estabilidade, desempenho e refinamento de funcionalidades existentes, em vez de adicionar grandes novidades. Melhorias na duração da bateria e na velocidade de abertura de aplicativos devem estar entre os destaques.
Hardware: novos Apple TV, HomePod e a possibilidade do iPhone dobrável
Embora a WWDC seja um evento predominantemente de software, há expectativas de atualizações de hardware. O Apple TV e o HomePod mini, cujos novos modelos já estariam prontos e em uso por funcionários da Apple, podem finalmente ser lançados neste outono, sincronizados com a chegada do iOS 27 e do novo Siri. O atraso na liberação desses produtos, segundo fontes, estava diretamente ligado à necessidade de preparar o ecossistema para a nova inteligência artificial.
Quanto ao tão especulado iPhone dobrável (conhecido internamente como iPhone Fold ou iPhone Ultra), é improvável que apareça na WWDC. Com preço estimado em torno de US$ 2.000, o dispositivo deve ser reservado para o evento de lançamento do iPhone 18, previsto para setembro. A Apple parece querer separar claramente os anúncios de software e hardware.
O que esperar da keynote da WWDC26
A apresentação principal ocorre em 9 de junho, às 2h da manhã (horário de Brasília), com transmissão ao vivo pelo site oficial da Apple, pelo aplicativo Apple TV e pelo YouTube. Três pontos merecem atenção especial do público brasileiro:
- A demonstração real do novo Siri: o quão suave e abrangente for a apresentação ao vivo determinará se a Apple conseguirá recuperar a credibilidade perdida com os adiamentos.
- Explicações sobre privacidade: a empresa precisará detalhar como os dados dos usuários brasileiros serão protegidos na arquitetura que envolve o Google Gemini, especialmente diante de um mercado com regulações cada vez mais rígidas sobre proteção de dados.
- A transição de liderança: a maneira como Tim Cook e John Ternus dividirem o palco dará o tom para os próximos anos da empresa.
A Apple não conseguirá, em uma única keynote, apagar a percepção de que chegou atrasada na corrida da IA generativa. Mas o conjunto de anúncios — novo Siri, parceria com Gemini, iOS 27, macOS 27 refinado e a sucessão na liderança — representa a mais importante ofensiva estratégica da empresa desde o lançamento do Apple Silicon. As respostas, no entanto, só virão com a chegada das atualizações ao público, previstas para setembro.

