Como lidar com a insônia — Bessel van der Kolk ensina a ressignificar o trauma

Você já deitou na cama após um dia cansativo, fechou os olhos e… nada. A mente gira como um carrossel desgovernado, revirando memórias, preocupações, fragmentos do dia. O travesseiro vira um campo de batalha, o relógio avança implacável, e a frustração cresce a cada hora perdida de descanso. A insônia não é apenas falta de sono; é uma experiência solitária e exaustiva que afeta milhões, corroendo a saúde mental e física silenciosamente.

Imagine acordar todas as manhãs já cansado, como se tivesse corrido uma maratona durante a noite. Seus olhos ardem, sua concentração falha, e pequenos estresses se transformam em montanhas. A insônia crônica não escolhe vítimas — atinge executivos, mães, estudantes, artistas. E o pior: muitas vezes, tentamos combatê-la com mais café, mais telas, mais ansiedade, criando um ciclo vicioso que parece impossível de quebrar.

Mas e se a insônia for mais do que um distúrbio do sono? E se for um sinal do corpo tentando processar algo que a mente ainda não conseguiu digerir? Foi nessa direção que o psiquiatra Bessel van der Kolk — como o corpo guarda as memórias do trauma”>Bessel van der Kolk, um dos maiores especialistas em trauma do mundo, trouxe uma perspectiva revolucionária. Ele não fala de comprimidos ou técnicas rápidas; ele nos convida a escutar o que o corpo está gritando durante aquelas noites em claro.

Quem foi Bessel van der Kolk e por que ele entende de insônia?

Bessel van der Kokol é um nome que ecoa fortemente na psicologia moderna, especialmente para quem estuda os efeitos duradouros do trauma. Nascido na Holanda e radicado nos EUA, ele fundou o Trauma Center em Brookline, Massachusetts, e dedicou décadas a entender como experiências traumáticas se alojam não apenas na mente, mas no corpo. Seu livro best-seller “O Corpo Guarda as Marcas” tornou-se um marco, mostrando que trauma não é só uma lembrança dolorosa — é uma resposta fisiológica que pode persistir por anos.

Van der Kolk trabalhou com veteranos de guerra, sobreviventes de abuso, pessoas com TEPT, e notou um padrão: muitos sofriam de insônia severa. Não era apenas ansiedade ou estresse; era como se o sistema nervoso estivesse permanentemente em alerta, incapaz de desligar. Enquanto outros pesquisadores focavam em medicamentos ou terapia conversacional, ele mergulhou em como o corpo “lembra” o trauma e como isso sabotava o repouso.

Seu contexto de pesquisa foi inovador: numa época em que a psiquiatria ainda era muito centrada em fármacos e diagnósticos convencionais, van der Kolk insistiu em abordagens integrativas. Ele estudou ioga, neurofeedback, EMDR e teatro como formas de acessar e reorganizar as memórias traumáticas armazenadas somaticamente. Para ele, a insônia muitas vezes é uma manifestação corporal de um sistema em hipervigilância — um resto de quando o corpo precisava estar acordado para sobreviver.

O conceito central: o corpo guarda as marcas do trauma

Van der Kolk cunhou a ideia de que “o corpo guarda as marcas” — uma frase que virou quase um mantra na psicologia do trauma. Ele demonstrou, através de estudos de neuroimagem, que experiências traumáticas alteram fisicamente o cérebro, especialmente áreas como a amígdala (centro do medo) e o córtex pré-frontal (regulação emocional). Quando alguém vive um trauma, o corpo entra em modo de luta ou fuga, liberando cortisol e adrenalina. Se o trauma não é processado, esse estado de alerta pode se tornar crônico.

E como isso se relaciona com a insônia? Durante o sono, nosso cérebro deveria entrar em modo de reparo, consolidando memórias, regulando emoções e descansando. Mas para quem tem trauma não resolvido, o cérebro interpreta o relaxamento como perigo. Adormecer significa baixar a guarda, e para um sistema nervoso traumatizado, isso é ameaçador. A insônia, então, torna-se uma estratégia de sobrevivência disfuncional: o corpo se mantém acordado para evitar reviver pesadelos ou sensações aterrorizantes.

Van der Kolk enfatiza que isso não é “frescura” ou falta de força de vontade. É biologia. Pessoas com insônia relacionada a trauma muitas vezes acordam sobressaltadas, com taquicardia, suores ou a sensação de que algo ruim vai acontecer. O sono não restaura; ele cansa ainda mais. E pior: a privação de sono piora a regulação emocional, criando um ciclo onde a insônia alimenta a ansiedade, que alimenta mais insônia.

Sinais de que sua insônia pode estar ligada a trauma

Como distinguir uma insônia comum daquela enraizada em experiências não processadas? Van der Kolk lista alguns indicadores sutis. Primeiro, pesadelos recorrentes ou despertares abruptos com sensação de pânico. Não são apenas sonhos ruins; são revivências de emoções ou fragmentos do trauma. Segundo, hipervigilância noturna: você ouve cada barulho, fica tenso, como se precisasse monitorar o ambiente constantemente. Terceiro, sensações físicas ao deitar: aperto no peito, respiração curta, inquietação nas pernas que não tem causa médica clara.

Outro sinal é a dificuldade em “desligar” a mente. Enquanto a insônia por estresse tende a girar em torno de preocupações do dia a dia, a insônia traumática muitas vezes vem com flashbacks, imagens intrusivas ou uma ansiedade flutuante que não se prende a um pensamento específico. O corpo parece “ligado” mesmo quando a mente está exausta. Van der Kolk também observou que muitas pessoas com trauma desenvolvem rituais noturnos de controle — checar portas várias vezes, deixar luzes acesas, evitar certas posições ao dormir — como tentativas inconscientes de se sentir seguro.

É importante notar: trauma não significa necessariamente um evento catastrófico como um acidente ou abuso. Pode ser negligência emocional na infância, bullying persistente, ou até mesmo experiências médicas traumáticas. Se seu corpo reage ao sono como uma ameaça, vale investigar se há marcas não curadas por trás disso.

Aplicação prática: como ressignificar a insônia com as ideias de van der Kolk

Van der Kolk é pragmático: não adianta lutar contra a insônia. Combatê-la só aumenta a ansiedade. Em vez disso, ele propõe uma abordagem de acolhimento e reconexão com o corpo. Primeiro passo: pare de ver a insônia como inimiga. Em vez de “preciso dormir agora”, tente “meu corpo está tentando me proteger, mesmo que desadaptativamente”. Essa mudança de perspectiva reduz a autocobrança.

Segundo, pratique a regulação corporal antes de dormir. Van der Kolk recomenda técnicas de aterramento: deite-se e, em vez de focar em adormecer, preste atenção nas sensações físicas. Sinta o peso do corpo no colchão, a textura dos lençóis, a temperatura do ambiente. Se surgir ansiedade, não a combata; respire fundo e diga mentalmente “estou seguro agora”. Exercícios de respiração diafragmática (4 segundos inspirando, 6 expirando) podem acalmar o sistema nervoso.

Terceiro, incorpore movimento diurno. Van der Kolk é um defensor de práticas como ioga, tai chi ou até dança, que ajudam a liberar tensões armazenadas no corpo. O objetivo não é cansar-se para dormir, mas restaurar a sensação de controle e segurança corporal. Quatro, considere terapias somáticas. EMDR, neurofeedback e terapia de integração sensorial são modalidades que ele estudou e que mostram eficácia em reprocessar trauma e melhorar o sono.

Pergunta frequente: insônia por trauma tem cura?

Muitos se perguntam se é possível curar totalmente a insônia ligada a trauma. Van der Kolk é otimista, mas realista: não se trata de apagar as memórias, mas de mudar a relação com elas. A “cura” vem quando o corpo para de reagir ao trauma como uma ameaça presente. Isso pode significar noites de sono mais tranquilas, mesmo que ocasionalmente haja recaídas em períodos de estresse.

Estudos com veteranos de guerra e sobreviventes de abuso mostram que intervenções somáticas podem reduzir significativamente a insônia e os pesadelos. Não é um processo rápido — pode levar meses ou anos — mas é possível. O importante é buscar ajuda profissional especializada em trauma, pois abordagens convencionais para insônia (como higiene do sono pura) muitas vezes falham quando há uma base traumática.

Críticas e limitações da abordagem

Alguns críticos argumentam que van der Kolk superestima o papel do corpo e subestima intervenções cognitivas ou medicamentosas. Para insônias severas, remédios podem ser necessários a curto prazo para quebrar o ciclo de privação. Outros apontam que suas ideias, though poderosas, nem sempre são acessíveis — terapias somáticas podem ser caras e não cobertas por planos de saúde.

Além disso, van der Kolk foca principalmente em trauma “grande”, enquanto insônias podem ter causas multifatoriais (genéticas, ambientais, médicas). Sua abordagem não deve substituir uma avaliação médica completa para descartar apneia, síndrome das pernas inquietas ou outros distúrbios.

Comparação com a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I)

Enquanto van der Kolk olha para a insônia através da lente do trauma corporal, a TCC-I foca em padrões de pensamento e comportamentos disfuncionais em torno do sono. A TCC-I é altamente eficaz para insônia primária, ensinando técnicas de restrição de sono, controle de estímulos e reestruturação cognitiva. Porém, para insônia traumática, van der Kolk argumenta que a TCC-I pode ser insuficiente se não abordar as memórias corporais. O ideal, muitas vezes, é integrar ambas: TCC-I para hábitos e abordagens somáticas para o trauma subjacente.

Erros comuns: o que as pessoas entendem errado sobre insônia e trauma

Um erro frequente é achar que apenas traumas “óbvios” causam insônia. Trauma pode ser sutil — como crescer num ambiente imprevisível onde não se sentia seguro. Outro equívoco é buscar apenas soluções farmacológicas, que mascaram os sintomas mas não tratam a raiz. Também há quem tente “forçar” o sono com exercícios extenuantes ou álcool, o que pode piorar a fragmentação do sono e a hipervigilância.

Van der Kolk alerta: ignorar os sinais corporais é como dirigir um carro com a luz de alerta acesa. A insônia é essa luz. Silenciá-la com pílulas sem investigar a causa é arriscado.

Exercício prático: diário do corpo noturno

Van der Kolk sugere um exercício simples para começar a ressignificar a insônia. Toda noite, antes de deitar, reserve 5 minutos para escrever num caderno: (1) Três sensações físicas que você sente no momento (ex.: tensão nos ombros, frio nos pés); (2) Uma emoção presente (ex.: apreensão, cansaço); (3) Uma lembrança ou pensamento que surgiu hoje e how your body reacted to it. Não julgue, apenas registre. Com o tempo, você notará padrões — talvez certas sensações ou memórias dispararam a insônia. Isso cria consciência sem pressão para dormir.

Quando buscar ajuda profissional

Se sua insônia persiste por mais de um mês, acompanhada de pesadelos, flashbacks, ou sintomas depressivos, procure um terapeuta especializado em trauma. Sinais de alerta: evitar dormir por medo, uso excessivo de álcool ou remédios para dormir, impacto severo no trabalho ou relacionamentos. Van der Kolk enfatiza: você não precisa sofrer sozinho. Terapias como EMDR, somatic experiencing ou até ioga terapêutica podem ser transformadoras.

Seu corpo merece descanso, não guerra

Na próxima vez que a insônia visitar, respire fundo. Lembre-se: talvez seja seu sistema nervoso tentando te proteger de algo que já passou. Em vez de brigar com ele, ofereça compaixão. Van der Kolk deixou um legado claro: a cura começa quando paramos de ver o corpo como adversário e passamos a escutá-lo como aliado. Seu sono pode não ser perfeito amanhã, mas cada pequeno passo para acalmar o corpo é uma vitória. Que tal experimentar uma respiração consciente agora, mesmo acordado?

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