O verão de 2026 entrará para a história da Europa como um dos mais letais desde o início dos registros sistemáticos. Dados da plataforma EuroMomo indicam que mais de 32 mil mortes acima do esperado foram registradas no continente entre meados de julho e meados de agosto, vítimas diretas e indiretas das sucessivas ondas de calor que assolaram a região. O número, ainda provisório, tende a aumentar conforme novos dados oficiais forem consolidados nas próximas semanas.
O pico de mortalidade durante as ondas de calor
A análise dos dados semanais revela um padrão alarmante: a última semana de junho foi a mais mortal de todo o período, com quase 16 mil mortes acima do esperado. A primeira semana de julho, logo em seguida, registrou aproximadamente 8 mil mortes. Esses dois picos coincidiram exatamente com as ondas de calor excepcionais que atingiram o centro e o sul do continente, combinadas com uma seca generalizada que criou condições ideais para incêndios florestais em múltiplos países.
A EuroMomo compila estatísticas oficiais de 23 nações, mas o modelo não inclui boa parte do leste europeu, o que significa que o número real de fatalidades pode ser significativamente maior. A AFP, em análise independente, cruzou dados provisórios de oito países e chegou a 33 mil mortes acima do esperado ou diretamente relacionadas ao calor.
Alemanha: recorde histórico e o padrão entre idosos
A Alemanha foi um dos países mais castigados, com 14 mil mortes relacionadas às ondas de calor até 9 de agosto, segundo o Instituto Robert Koch. Esse número é o maior desde o início da série histórica em 2016 e reforça um padrão observado em toda a Europa: pessoas com mais de 75 anos foram as mais afetadas. O organismo de saúde alemão destacou que a vulnerabilidade térmica dos idosos, combinada com a falta de infraestrutura de refrigeração em muitas residências, agravou o cenário.
França, Espanha e o peso do calor no sul da Europa
Na França, as autoridades de saúde registraram 7.300 mortes acima do esperado entre o fim de maio e 22 de julho. O número deve crescer, pois uma longa onda de calor iniciada no fim de julho havia terminado recentemente, ainda fora da janela de análise. Na Espanha, o Instituto Carlos III contabilizou quase 4.500 mortes atribuídas ao calor entre 1º de junho e 19 de agosto, o maior volume para o período desde 2022.
Inglaterra, Bélgica e Países Baixos: o impacto no norte
Na Inglaterra, a autoridade de saúde e segurança estima 2.877 mortes relacionadas ao calor durante as ondas de maio e junho, número que se aproxima do recorde histórico de 2.985 mortes do verão de 2022. O alerta é que o total de 2026 pode ser substancialmente maior, considerando outras ondas de calor registradas ao longo do ano. Na Bélgica, o instituto nacional de saúde pública Sciensano estima 2.570 mortes acima do esperado entre 18 de junho e 17 de julho, com atualização prevista para setembro. Nos Países Baixos, o RIVM aponta 968 mortes acima do esperado entre 22 de junho e 5 de julho.
Áustria e Portugal: dados complementares
A Áustria registrou 396 mortes relacionadas às ondas de calor em junho, o maior número para o mês desde 2017, segundo a agência AGES. Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde contabilizou mais de 600 mortes acima do esperado entre meados de junho e o fim de julho. Esses números, embora menores em termos absolutos, representam impactos proporcionais significativos em populações menores.
O que explica o alto número de mortes?
As ondas de calor consecutivas não permitiram que o organismo da população mais vulnerável se recuperasse entre os episódios. A combinação de temperaturas máximas recordes, noites tropicais (quando a temperatura não cai abaixo de 20°C) e a ausência de infraestrutura adaptada em muitas residências europeias, que historicamente não contam com ar-condicionado, criou um estresse térmico prolongado. Doenças cardiovasculares e respiratórias pré-existentes foram agravadas, e a desidratação foi um fator crítico entre os idosos.
Projeções e contexto para o leitor brasileiro
O verão europeu de 2026 se consolida como um estudo de caso sobre os limites da adaptação humana a eventos climáticos extremos. Para o Brasil, país onde o calor intenso é uma constante, mas a mortalidade por ondas de calor é subnotificada, os dados europeus servem como alerta. Enquanto a Europa corre para adaptar sua infraestrutura e sistemas de saúde pública, o país ainda carece de uma base de dados robusta como a EuroMomo para dimensionar corretamente o impacto real das altas temperaturas sobre a população.

