O monumento megalítico de Stonehenge, na Inglaterra, sempre desafiou explicações simples: como erguer pedras de 2 a 25 toneladas muito antes da roda? O mistério fica ainda maior quando se descobre que boa parte dessas rochas não veio do leito rochoso local. Um estudo recente, publicado no Journal of Quaternary Science, propõe uma resposta para o caso mais extremo: a chamada Pedra do Altar, um bloco de arenito de seis toneladas e quatro metros de comprimento, pode ter viajado 700 quilômetros do nordeste da Escócia até as Planícies de Salisbury — mas não carregada por humanos, e sim por uma geleira.
O que a nova pesquisa revela sobre a Pedra do Altar?
O trabalho, liderado por geoquímicos e glaciologistas, testou a hipótese de que o transporte glacial foi o mecanismo responsável por levar a Pedra do Altar da Bacia das Orkney, na Escócia, até o sul da Inglaterra. A Pedra do Altar é a maior e mais pesada das chamadas “pedras azuis” (bluestones), que foram as primeiras a compor Stonehenge, cerca de 2.000 anos antes das imensas pedras de Sarsen que formam os arcos conhecidos hoje. O arenito que a compõe se formou a partir de sedimentos de um lago antigo, o Lago Ocradie, que existiu na região nordeste da Escócia.
Como funciona o transporte glacial de rochas?
No final da última era do gelo, há aproximadamente 15.000 anos, o norte do Reino Unido estava coberto por uma camada de gelo tão espessa e persistente que fluía como um rio de movimento lento. Esse fluxo glacial arrasta e transporta rochas e detritos arrancados do leito rochoso — os chamados “erráticos glaciais”. A equipe utilizou um modelo numérico desenvolvido nos últimos cinco anos para prever os possíveis locais de depósito dessas rochas. O modelo mostrou que as rochas da Bacia das Orkney poderiam ter sido levadas pela geleira até uma região submersa no Mar do Norte, conhecida como Dogger Bank.
Dogger Bank: o depósito glacial que virou ponte terrestre
Dogger Bank, hoje um banco de areia famoso pela pesca do bacalhau e por parques eólicos, foi um ponto topográfico elevado de uma região maior chamada Doggerland — uma ponte terrestre que ligava a Europa à Grã-Bretanha durante a última era glacial. O local é formado, em parte, por uma grande morena glacial, uma crista de rochas e detritos depositados no fim da “correia transportadora” de gelo. Caminhar por Dogger Bank naquela época seria como explorar um canteiro de obras de demolição misturado com um museu de rochas: uma variedade de pedregulhos trazidos do norte estava espalhada pela paisagem.
Os povos neolíticos que habitavam a região tinham conhecimento profundo de rochas e eram seletivos ao escolher materiais para ferramentas. É plausível que tenham notado a Pedra do Altar entre os erráticos glaciais e a selecionado por características específicas — como dureza, cor ou formato. Vale lembrar que, em outras culturas, rochas erráticas ganharam nomes como “pedras dos trolls” na Escandinávia, pois acreditava-se que trolls as haviam arremessado centenas de quilômetros. O termo sueco antigo jättekast significa literalmente “arremesso gigante”.
Da Escócia a Stonehenge: a jornada em duas etapas
O estudo sugere que a Pedra do Altar pode ter sido transportada em duas grandes fases. Primeiro, a geleira a levou da Escócia até Dogger Bank. Depois, com o degelo e a elevação do nível do mar, Doggerland foi gradualmente inundada, tornando-se uma ilha que permaneceu acima da água até cerca de 8.000 a 9.000 anos atrás — talvez até 7.000 anos. Nesse período, a paisagem mudou drasticamente: de ponte terrestre a pequena ilha, até ser completamente submersa. A Pedra do Altar, então, teria que ser movida por humanos para um local intermediário, antes de finalmente ser incorporada a Stonehenge.
Uma vez na costa leste da Inglaterra, o transporte humano até as Planícies de Salisbury se torna mais plausível. A distância restante é aproximadamente a mesma percorrida pelas outras “pedras azuis”, mas ainda dez vezes maior que a das pedras de Sarsen, de origem local. Sabe-se que, na época da construção de Stonehenge, existia uma rota neolítica elevada chamada Berkshire Ridgeway, frequentemente considerada a estrada mais antiga da Europa, que ligava o leste ao oeste e levava diretamente às Planícies de Salisbury.
Por que os neolíticos teriam escolhido essa pedra?
O motivo pode estar ligado à urgência. Doggerland estava sendo inundada pelo avanço do mar. Os neolíticos que viviam ali podem ter percebido a mudança da paisagem e decidido agir, movendo a pedra para um local seguro. A Pedra do Altar, com suas seis toneladas, pode ter sido vista como um símbolo importante da terra que estava desaparecendo — algo que justificasse o esforço de transportá-la por centenas de quilômetros.
Implicações do estudo para a arqueologia e a glaciologia
O trabalho não apenas oferece uma explicação mecanística para o transporte da Pedra do Altar, mas também reforça a capacidade dos povos neolíticos de coordenar movimentos de grandes massas e de responder a mudanças ambientais. Além disso, valida o uso de modelos numéricos para prever o trajeto de erráticos glaciais, ferramenta que pode ser aplicada em outros sítios arqueológicos ao redor do mundo. O estudo mostra que, antes de imaginar carregamentos humanos épicos, é preciso considerar a própria paisagem como um transportador natural — e que os construtores de Stonehenge podem ter sido, acima de tudo, extremamente observadores e oportunistas.

