O Raspberry Pi, que durante anos foi o símbolo da computação acessível e da cultura maker, vive um paradoxo difícil de ignorar: enquanto os consumidores enfrentam preços que mais que dobraram em pouco mais de um ano, a empresa por trás da placa comemora resultados financeiros que apontam para um recorde histórico de lucratividade. A pergunta que fica no ar é: como uma companhia que vende um produto cada vez mais caro pode estar surfando uma onda de receita tão positiva? A resposta, como quase sempre no mercado de semicondutores, está na memória.
Lucro recorde no primeiro semestre fiscal de 2026
A Raspberry Pi Holdings divulgou em 5 de junho a projeção de resultados para o primeiro semestre do ano fiscal de 2026 (encerrado em junho de 2026). Os números impressionam: o EBITDA ajustado deve alcançar ao menos US$ 38 milhões (cerca de 60,8 bilhões de ienes), com mais de 4 milhões de unidades embarcadas. O desempenho não apenas supera com folga o mesmo período do ano anterior, como também se aproxima da projeção anual que analistas haviam traçado para todo o ano fiscal — US$ 42 milhões (aproximadamente 67,2 bilhões de ienes). Na prática, a empresa está a meio caminho de atingir, em apenas seis meses, a meta que o mercado esperava para doze.
Para o ano completo, a companhia se limitou a dizer que os resultados devem “superar significativamente as expectativas do mercado”. Considerando que o EBITDA total do FY2025 foi de US$ 46,4 milhões, tudo indica que o FY2026 será o ano mais lucrativo desde a abertura de capital na Bolsa de Londres, em 2024. O mercado reagiu imediatamente: as ações dispararam mais de 20% no dia do anúncio, chegando a 963,5 pence, uma alta de 42% em relação ao valor de meados de maio, que estava em torno de 673 pence.
O segredo está no estoque de memória comprada barata
Se a memória LPDDR4 está tão cara — o preço subiu 7 vezes em um ano —, como a Raspberry Pi consegue aumentar sua margem? A resposta está na estratégia de inventário. Ao longo de 2025, a empresa aproveitou os preços ainda baixos da LPDDR4 DRAM e acumulou grandes volumes desses chips. Esse estoque de baixo custo permitiu que, mesmo após três rodadas de aumento nos preços dos produtos (dezembro de 2025, fevereiro de 2026 e abril de 2026), a companhia continuasse operando com margens elevadas. O raciocínio é simples: comprar barato e vender caro.
No entanto, a própria empresa reconhece que essa janela de oportunidade tem prazo de validade. No comunicado oficial, a Raspberry Pi Holdings afirma que, na segunda metade do ano fiscal, quando o estoque de memória comprada a preços baixos se esgotar, a margem por unidade vai encolher. Para o investidor e para o consumidor, fica o alerta: o lucro excepcional atual é, em boa medida, um efeito contábil do descompasso temporal entre o custo do componente e o preço de venda final.
O impacto no bolso do consumidor brasileiro
Enquanto a empresa celebra, quem compra o Raspberry Pi 5 sente o peso no bolso. O modelo de 16 GB, lançado em fevereiro de 2025 por 22.440 ienes no mercado japonês, chegou a 60.390 ienes em abril de 2026 — um aumento de 2,69 vezes. Nos Estados Unidos, o preço oficial subiu de US$ 120 para US$ 305. No Brasil, embora o valor final dependa de impostos e margens dos revendedores, a referência é igualmente assustadora.
| Período | Preço com impostos (Japão) | Variação em relação ao lançamento |
|---|---|---|
| Fev/2025 (lançamento) | ¥22.440 | — |
| Jan/2026 | ¥30.580 | 1,36x |
| Fev/2026 | ¥41.360 | 1,84x |
| Abr/2026 | ¥60.390 | 2,69x |
Os modelos de 8 GB e 4 GB também subiram, para 34.650 ienes e 21.780 ienes, respectivamente. Somando case, fonte e armazenamento, o kit ultrapassa com folga o preço de um mini PC com Intel N100. O Raspberry Pi ainda se diferencia pelo baixo consumo e pela presença dos pinos GPIO, mas a vantagem competitiva do custo está cada vez mais frágil.
Fuga para modelos de entrada e alternativas mais simples
A única faixa de preço que se manteve estável é a dos modelos com pouca memória. O Raspberry Pi 5 de 1 GB custa US$ 45 (cerca de 9.680 ienes), inalterado. Os modelos baseados em LPDDR2, como o Raspberry Pi Zero e o Pi 3, também não sofreram reajustes. Para aplicações headless ou projetos de IoT, essas opções ainda são viáveis. Mas para quem esperava usar o Raspberry Pi como um desktop de baixo custo ou rodar inferências de IA que consomem RAM, a conta não fecha. O público que a própria empresa ajudou a criar — entusiastas que buscavam um computador capaz e acessível — está sendo empurrado para fora do mercado.
O que esperar do futuro: a promessa (incerta) de normalização
Eben Upton, CEO da Raspberry Pi, repete que a situação é temporária e que, assim que os preços da memória se acomodarem, os aumentos serão revertidos. O problema é que ninguém sabe quando esse alívio vai chegar. Os investimentos maciços em infraestrutura de IA continuam pressionando a demanda por HBM, que consome boa parte da capacidade das fábricas de memória. A LPDDR4, justamente por ser uma tecnologia mais antiga e de menor margem, acaba sofrendo com a escassez de espaço nos wafers.
A própria Raspberry Pi Holdings já indicou que pretende usar linhas de crédito para fazer compras estratégicas de memória no segundo semestre, o que sugere que a direção da empresa não espera uma melhora rápida no mercado. Em outra frente, a companhia lançou em abril o Raspberry Pi 4 de 3 GB por US$ 83,75, e Upton declarou que “a era de colocar mais memória do que o necessário acabou”. É uma resposta pragmática, mas que não resolve o problema de quem realmente precisa dos modelos de alta capacidade.
Duas faces de uma mesma empresa
Esse cenário expõe a tensão latente na identidade da Raspberry Pi. De um lado, a Raspberry Pi Foundation, sem fins lucrativos, que sempre defendeu a democratização do acesso à computação e à educação. Do outro, a Raspberry Pi Holdings, empresa listada na bolsa desde 2024, que precisa entregar resultados aos acionistas. Não há contradição formal entre as duas missões, mas a convivência prática está cada vez mais desconfortável. Enquanto a companhia colhe os frutos de uma gestão de estoque afiada, a comunidade de usuários vê o sonho do computador de US$ 35 se afastar.
No fim das contas, o vilão da história não é a Raspberry Pi, mas uma cadeia de suprimentos de semicondutores distorcida pela febre da inteligência artificial. O mérito da empresa foi ter antecipado o movimento e se protegido com estoque. O risco é que, se os preços não caírem em breve, o encolhimento da base de usuários pode corroer o ecossistema que sustenta o valor da plataforma no longo prazo. Um Raspberry Pi de 60 mil ienes pode até gerar lucro recorde por alguns trimestres, mas dificilmente manterá viva a chama do “barato e divertido” que sempre definiu a marca.

