O governo do Reino Unido, liderado pelo primeiro-ministro Keir Starmer, intensificou a pressão sobre Apple e Google para que implementem, em até três meses, um sistema de varredura obrigatória de nudez diretamente nos sistemas operacionais de smartphones e tablets. A medida, apresentada como proteção à infância, foi imediatamente classificada pelo Signal como a construção de uma “infraestrutura de vigilância” — em um comunicado contundente publicado em 8 de junho de 2026.
O ultimato do governo britânico: varredura no sistema operacional
Durante a London Tech Week, Starmer exigiu que Apple e Google adotem, dentro de 90 dias, um mecanismo de detecção de imagens de nudez embarcado diretamente no kernel dos sistemas. A proposta prevê o bloqueio automático de fotos explícitas em câmeras, aplicativos de mensagem, galerias e navegadores, com opção de desbloqueio apenas para adultos mediante verificação biométrica ou de identidade oficial. O descumprimento levaria a uma legislação específica, com multas e responsabilização criminal dos executivos das empresas.
O Home Office britânico usa como justificativa técnica o recurso “Communication Safety”, já implementado pela Apple em dispositivos infantis. A Apple oferece, atualmente, um sistema opcional de borramento de imagens com nudez para crianças, e o Google afirma trabalhar em “soluções que suprimam conteúdo nocivo preservando a privacidade”. A diferença agora é a exigência de que esse escaneamento seja obrigatório, global (dentro do Reino Unido) e aplicado a todos os dispositivos — novos e já existentes.
Signal reage: “Vigilância não é segurança”
O Signal, aplicação referência em criptografia de ponta a ponta, publicou uma declaração intitulada “Surveillance Is Not Safety” (Vigilância não é segurança), na qual expõe três argumentos centrais contra o plano britânico.
1. A verdadeira segurança infantil não passa por escaneamento
O Signal afirma que proteger crianças exige educação de qualidade, serviços sociais robustos e uma regulação efetiva sobre plataformas e inteligência artificial — não vigilância em massa. A declaração alerta que a obrigatoriedade do escaneamento fortalece o domínio de mercado de Apple, Google e Microsoft sobre os dados dos usuários, consolidando o poder dessas Big Techs em vez de proteger os jovens.
2. O escaneamento do lado do cliente é inerentemente frágil
O ponto central da crítica do Signal está no que chama de “client-side scanning” (escaneamento do lado do cliente). Como a criptografia de ponta a ponta impede que terceiros leiam o conteúdo das mensagens, a única forma de inspecioná-lo é fazer a varredura antes da criptografia, diretamente no dispositivo. É a mesma abordagem que a Apple tentou implementar em 2021 com o NeuralHash, sistema que escanearia fotos no iCloud em busca de material de abuso sexual infantil. A reação negativa de pesquisadores e organizações civis foi tão forte que a Apple recuou oficialmente em dezembro de 2022, afirmando que “crianças podem ser protegidas sem escaneamento”. O Signal insiste que, uma vez criada essa infraestrutura, não há garantias de que ela permanecerá limitada à detecção de nudez — governos futuros podem expandir a definição de “conteúdo nocivo” para incluir críticas políticas, orientação sexual ou qualquer outra categoria.
3. O poder concedido não tem prazo de validade
O comunicado do Signal adverte que mesmo com as melhores intenções do governo atual, a capacidade de vigilância e escrutínio construída agora permanecerá para governos futuros. A crítica não é ao partido no poder, mas ao desenho institucional: uma vez que o mecanismo esteja embutido no sistema operacional, qualquer mudança de governo pode redirecionar seu uso. “Isso não é segurança infantil — é a construção de uma infraestrutura de vigilância permanente”, diz o texto.
O dilema “primeiro o Reino Unido, depois o mundo”
Starmer usou a expressão “primeiro país do mundo onde crianças não podem tirar fotos nuas” — uma frase que funciona tanto como propaganda doméstica quanto como sinalização para outras nações. Se Apple e Google cederem à pressão britânica, o precedente estará aberto: qualquer governo que deseje impor escaneamento similar poderá exigir que as mesmas funcionalidades já codificadas no sistema operacional sejam ativadas. O Signal adverte explicitamente que a infraestrutura se tornará “uma ferramenta perigosa para governos ao redor do mundo examinarem e monitorarem o que consideram ameaçador ou nocivo”.
Há, no entanto, um forte apelo emocional a favor da medida. Organizações de proteção à infância como NSPCC e Barnardo’s apoiam a política, argumentando que a intervenção no nível do dispositivo pode interromper a cadeia de abuso sexual infantil no primeiro estágio. Quem se opõe ao escaneamento enfrenta a difícil posição de ser rotulado como contrário à proteção de crianças — um terreno politicamente minado.
O que significa esse prazo de três meses?
O governo britânico deu a Apple e Google 90 dias para apresentarem um plano de implementação. Caso recusem, Starmer prometeu avançar com legislação que não apenas multará as empresas, mas também criminalizará seus executivos. O Signal, por sua vez, já deixou claro que não cumprirá qualquer exigência de backdoor ou escaneamento, e que prefere encerrar suas operações no Reino Unido a comprometer a criptografia de ponta a ponta.
Nos próximos meses, o mundo observará se a pressão política conseguirá forçar as fabricantes de sistemas operacionais a abrirem mão do princípio de que o dispositivo do usuário não deve ser uma ferramenta de vigilância estatal. O que está em jogo não é apenas a privacidade de adultos, mas o modelo de como a segurança infantil será tratada na era digital: com educação e regulação ou com escaneamento em massa.

