Um estudo publicado na revista científica Geoarchaeology sugere que algumas das antigas sondas enviadas a Vênus pela União Soviética e pela NASA podem ainda existir na superfície do planeta, contrariando décadas de suposições de que as condições extremas do ambiente venusiano as teriam destruído por completo. A pesquisa, conduzida por cientistas que analisaram o histórico e as características das missões, aponta que partes metálicas e até estruturas inteiras podem estar preservadas, esperando para serem redescobertas por futuras expedições.
O clima infernal de Vênus e o destino das primeiras sondas
A superfície de Vênus é um dos ambientes mais hostis do Sistema Solar. As temperaturas chegam a impressionantes 467 °C, superando até as de Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol. A pressão atmosférica é cerca de 92 vezes maior que a pressão ao nível do mar na Terra. Essas condições levaram a comunidade científica a acreditar, por décadas, que qualquer objeto artificial enviado ao planeta seria rapidamente deformado, corroído ou soterrado. Acreditava-se que os restos das missões não passariam de fragmentos irreconhecíveis após poucos anos.
Entre 1961 e 1984, a União Soviética lançou 18 sondas como parte dos programas Venera e Vega. Dez delas conseguiram pousar em Vênus. Algumas operaram por apenas alguns minutos ou horas, transmitindo dados e imagens inéditas antes de sucumbirem ao calor e à pressão extremos. As primeiras sondas, como Venera 3, 4, 5, 6, 7 e 8, foram projetadas numa época em que parte dos cientistas ainda acreditava que Vênus poderia ter oceanos e condições semelhantes às da Terra. A Venera 3, por exemplo, foi construída para um eventual pouso na água. No entanto, as informações enviadas pela Venera 4 revelaram um planeta muito mais severo do que o imaginado.
Essas espaçonaves iniciais não eram reforçadas o suficiente para suportar o calor e a pressão venusianos. Elas acabaram despressurizadas, deformadas e literalmente cozidas pelas condições extremas. Ainda assim, os autores do novo estudo argumentam que seus restos metálicos podem continuar presentes na superfície.

Por que as sondas podem ter sobrevivido
O principal argumento dos pesquisadores está na dinâmica da descida atmosférica em Vênus. A atmosfera extremamente densa do planeta reduz significativamente a velocidade de impacto dos objetos. Mesmo que as sondas tenham sido deformadas ao tocar o solo, as partes metálicas podem ter permanecido relativamente intactas, em vez de se desintegrarem. Além disso, a atividade geológica de Vênus, que inclui vulcanismo, sismos e movimentações de massa, não é tão intensa em todas as regiões. Em áreas de planícies baixas, os processos de sedimentação são lentos e fracos, favorecendo a preservação de materiais artificiais.
Os cientistas também destacam que o dióxido de carbono em estado supercrítico, presente na atmosfera venusiana a partir de cerca de 12 quilômetros de altitude, pode atuar como solvente. Esse gás, que se comporta como um líquido, poderia penetrar pequenas aberturas das sondas, causando corrosão química. No entanto, os pesquisadores acreditam que os materiais metálicos mais robustos podem ter resistido a esse ataque por décadas.
Sete sondas com maior chance de ainda existirem
O estudo aponta que algumas missões posteriores, construídas com conhecimento mais detalhado sobre Vênus, têm maior probabilidade de terem resistido ao tempo. As sondas consideradas mais promissoras são: Venera 5, Venera 6, Venera 7, Venera 10, VeGa 1, VeGa 2 e a Pioneer Venus Night Probe, da NASA. Essas espaçonaves foram projetadas com materiais e estruturas mais resistentes, capazes de suportar por mais tempo as condições adversas.
A Venera 7, por exemplo, foi a primeira sonda a transmitir dados diretamente da superfície de outro planeta. Ela operou por cerca de 23 minutos após o pouso, enviando informações sobre temperatura e pressão. Já a Pioneer Venus Night Probe foi uma das poucas missões americanas a atingir a superfície venusiana, em 1978. Ela foi projetada para operar brevemente, mas seus restos podem estar relativamente preservados.
O papel do CO₂ supercrítico e da sedimentação
Um dos fatores mais interessantes do estudo é a análise do CO₂ supercrítico. Esse estado da matéria ocorre quando o gás é submetido a temperaturas e pressões extremas, adquirindo propriedades de líquido e gás simultaneamente. Em Vênus, a partir de 12 km de altitude, o CO₂ supercrítico pode infiltrar-se em fissuras e cavidades das sondas, agindo como um solvente poderoso. No entanto, os autores ressaltam que a taxa de corrosão depende da composição dos metais e do tempo de exposição. Em alguns casos, a camada externa pode ter sido danificada, mas o interior metálico pode permanecer.
Outro ponto importante é a sedimentação. Embora Vênus tenha atividade geológica, os cientistas afirmam que as regiões de planícies baixas apresentam baixas taxas de deposição de material. Isso significa que as sondas não seriam soterradas rapidamente, ao contrário do que ocorreria em áreas vulcânicas ativas. Portanto, é possível que muitas delas ainda estejam expostas na superfície, embora deformadas.

O que as futuras missões podem descobrir
Os pesquisadores acreditam que futuras missões a Vênus poderão confirmar se essas estruturas ainda permanecem identificáveis. Décadas após o fim das operações, a possibilidade de encontrar restos de sondas históricas abre uma nova fronteira para a arqueologia espacial. Missões como a DAVINCI+ e a VERITAS, da NASA, assim como a EnVision, da ESA, estão planejadas para estudar Vênus com detalhes sem precedentes. Se conseguirem imagear a superfície com alta resolução, poderão localizar os locais de pouso e verificar o estado das antigas espaçonaves.
Esse cenário não apenas forneceria informações valiosas sobre a durabilidade de materiais em ambientes extremos, mas também ajudaria a entender melhor os processos geológicos e atmosféricos de Vênus. Além disso, a descoberta de sondas preservadas teria um enorme valor histórico e cultural, como testemunhos da primeira era da exploração espacial.
O estudo, portanto, desafia a visão tradicional de que nada sobrevive em Vênus. Em vez disso, sugere que, sob as nuvens ácidas e o calor escaldante, podem existir verdadeiros monumentos da engenhosidade humana, esperando para serem redescobertos.
