TAP e LATAM Ampliam Aliança: O Que Significa a Expansão do Codeshare no Brasil

A TAP Air Portugal anunciou nesta semana a expansão significativa do seu acordo de codeshare com a LATAM Airlines Brasil, ampliando substancialmente a oferta de destinos domésticos brasileiros acessíveis a partir do hub da companhia chilena no Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU), em São Paulo. O movimento, que ocorre em um momento de recuperação do tráfego aéreo pós-pandemia e de intensa competição por passageiros de conexão entre Europa e América do Sul, visa fortalecer a posição de ambas as companhias em um dos mercados mais estratégicos e disputados do mundo.

O Peso do Momento

À primeira vista, a notícia parece mais um ajuste técnico na complexa teia de parcerias que sustenta a aviação comercial global. Um acordo de codeshare, onde uma companhia vende assentos em voos operados por outra sob seu próprio código de voo, é ferramenta comum. No entanto, a expansão entre TAP e LATAM não é um mero incremento operacional. Ela representa o ponto de convergência de três forças distintas que vinham moldando silenciosamente o cenário da aviação no Atlântico Sul.

A primeira força é a reconfiguração geopolítica das alianças aéreas na América do Sul. Com a saída da LATAM da oneworld em 2020 e sua subsequente estratégia de parcerias bilaterais ágeis, a companhia abriu mão da fidelidade a um bloco para tecer uma rede de acordos sob medida. Paralelamente, a TAP, após sua reestruturação, dobrou a aposta no Brasil não apenas como destino final, mas como plataforma de conexão para todo o continente, uma estratégia que depende criticamente de um parceiro doméstico robusto. Essas duas trajetórias, de busca por flexibilidade por um lado e de aprofundamento em um hub por outro, evoluíam em paralelo.

A segunda força é a mudança no comportamento do passageiro pós-pandemia. A demanda por rotas point-to-point (ponto a ponto) cedeu espaço, em certos mercados, a uma maior tolerância a conexões, desde que ofereçam preços competitivos e uma rede ampla de destinos finais. O passageiro que viaja do Porto a Belém do Pará, ou de Lisboa a Cuiabá, prioriza a conveniência de uma única reserva e a fluidez da conexão. A pressão por essa experiência integrada vinha crescendo, impulsionada por plataformas de busca que rankeiam opções com base na simplicidade do itinerário.

A convergência acontece agora. A expansão do codeshare é o mecanismo concreto que materializa essas tendências. Não se trata de coincidência, mas do encontro calculado entre a necessidade estratégica de duas companhias e a demanda evoluída do mercado. O acordo transforma potenciais de rota em assentos vendáveis, conectando pontos no mapa que, até ontem, exigiam duas reservas separadas e um salto de fé logístico no meio do caminho.

Desvendando a Malha Ampliada

O cerne da expansão está no acesso a dezenas de novos destinos dentro do Brasil a partir de Guarulhos, que funciona como principal hub da LATAM no país. Antes limitado a um punhado de cidades, o acordo agora estende a rede da TAP virtualmente para onde a LATAM voa domesticamente a partir de São Paulo. Isso inclui capitais regionais e cidades do interior com forte demanda econômica, mas sem voos diretos internacionais.

Destinos em Destaque e a Conexão Portuguesa

Cidades como Belo Horizonte (CNF), Brasília (BSB), Curitiba (CWB), Fortaleza (FOR), Salvador (SSA) e Recife (REC) já eram acessíveis via códigos compartilhados. A novidade está na inclusão de destinos como Porto Alegre (POA), Florianópolis (FLN), Goiânia (GYN), Campinas (VCP) e até mesmo rotas para destinos turísticos ou de negócios no Nordeste e Centro-Oeste. Para a TAP, que tem em Portugal uma forte comunidade de imigrantes brasileiros espalhada por todo o território luso, essa malha ampliada é um ativo poderoso. Um familiar em Bragança, no interior de Portugal, pode agora comprar uma passagem única da TAP para visitar familiares em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, com a conexão suave em GRU.

A Engrenagem Operacional e os Benefícios ao Passageiro

Na prática, como funciona? Um passageiro que compre um voo da TAP com código “TP” para, digamos, Manaus (MAO), embarcará em Lisboa em uma aeronave da TAP com destino a São Paulo-Guarulhos. Em GRU, fará a conexão para um voo operado pela LATAM (com aeronave e tripulação da LATAM), mas que terá também o código de voo da TAP (por exemplo, TP 5XXX). Sua bagagem será despachada até o destino final desde a origem, e ele receberá cartões de embarque para todos os trechos no check-in inicial. A receita é dividida entre as companhias conforme acordos comerciais complexos, mas o cliente experiencia uma única jornada.

Os benefícios são tangíveis: maior oferta de horários de conexão, potencial de tarifas mais integradas (e por vezes competitivas), e o acúmulo de milhas nos programas de fidelidade de qualquer uma das companhias (TAP Miles&Go ou LATAM Pass), dependendo do tipo de tarifa e da regra do acordo. Em um mercado onde a Air France-KLM (com a GOL) e a Lufthansa Group (com parceiros variados) também disputam o passageiro de conexão, essa facilidade se torna um diferencial decisivo.

Números e Cenários Competitivos

O Brasil é, historicamente, o mercado internacional mais importante para a TAP. Antes da pandemia, o país respondia por cerca de 20% da capacidade total oferecida pela companhia portuguesa. Dados da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) mostram que a rota Lisboa-São Paulo está perenemente entre as mais movimentadas do Atlântico Sul. A LATAM, por sua vez, mantém em Guarulhos sua maior operação doméstica no Brasil, com centenas de voos diários para mais de 30 destinos.

A expansão deste codeshare coloca pressão direta em outras parcerias. O acordo da GOL com a Air France-KLM (SkyTeam) e o da Azul com a United Airlines (Star Alliance) e com a Turkish Airlines, por exemplo, agora enfrentam uma oferta mais ampla e integrada no eixo Europa-Brasil-interior. A própria LATAM mantém outros acordos de codeshare relevantes, como com a Delta Air Lines nos EUA. A arte, para a LATAM, será gerenciar essas múltiplas parcerias sem criar conflitos, garantindo que cada uma agregue valor a uma fatia específica do mercado.

Um cenário que especialistas observam é o potencial de crescimento do tráfego de “sexta liberdade”. Este é o direito de uma companhia aérea de transportar passageiros entre dois países estrangeiros via seu próprio país. No caso, a TAP pode usar Lisboa como hub para conectar passageiros de toda a Europa a todo o Brasil via GRU, utilizando o codeshare. Essa capacidade transforma a TAP em uma competidora mais forte até mesmo para voos diretos operados por companhias europeias e brasileiras, oferecendo uma gama de destinos finais muito maior.

O Efeito em Cascata

O anúncio está feito e os sistemas estão sendo integrados. Mas o jogo agora se desloca para a reação dos demais atores e para a materialização das oportunidades criadas. A primeira resposta virá do mercado, medível em load factor (índice de ocupação) e receita nos novos códigos compartilhados. A TAP e a LATAM monitorarão de perto a performance de cada nova rota virtual, prontas para ajustar frequências ou promover destinos específicos.

Em seguida, observe-se a reação dos concorrentes diretos. A GOL, em aliança comercial profunda com a Air France-KLM, pode responder ampliando sua própria oferta de conexões domésticas a partir do Rio de Janeiro (GIG) ou de São Paulo (GRU e CGH), ou intensificando campanhas promocionais. A Azul, com seu forte hub em Campinas (VCP) e acordos com a United, pode destacar a vantagem de usar um aeroporto menos congestionado que Guarulhos para as conexões. A resposta não será necessariamente um novo acordo, mas uma otimização agressiva dos já existentes.

O movimento também joga luz sobre um ativo estratégico subutilizado: a malha doméstica brasileira como plataforma de exportação de tráfego internacional. Companhias aéreas de outros continentes, observando a jogada da TAP, podem acelerar conversas para estabelecer ou ampliar suas próprias parcerias com as brasileiras. O foco da disputa deixa de ser apenas quem tem o voo direto mais barato para São Paulo ou Rio, e passa a ser quem oferece a melhor solução de viagem para o destino final do passageiro, seja ele uma capital ou uma cidade do interior. Nesse novo tabuleiro, a qualidade da conexão doméstica, a pontualidade e a experiência no hub brasileiro tornam-se variáveis críticas de sucesso, um desafio operacional que tanto LATAM quanto seus concorrentes terão que gerenciar com excelência.

No fim, para o passageiro, seja o empresário europeu com uma reunião em Joinville ou a família brasileira visitando parentes no Algarve, o horizonte de possibilidades se alarga. A aviação comercial, em sua essência, é sobre encurtar distâncias e conectar comunidades. Esta expansão de códigos compartilhados, mais do que um detalhe técnico, é um passo concreto nessa direção, revelando que as rotas mais importantes nem sempre são as que aparecem pintadas no mapa-múndi da sala de embarque, mas sim as que se formam na interseção entre estratégia corporativa, tecnologia e a necessidade humana simples de chegar.

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