A Canonical divulgou o roteiro oficial do Ubuntu 26.10, codinome “Stonking Stingray”, com lançamento previsto para outubro de 2026. O documento vai além de uma simples lista de novidades para a versão interim: ele estabelece as bases arquitetônicas para o Ubuntu 28.04 LTS, com destaque para um conceito ambicioso chamado “desktop consciente de contexto” (context-aware desktop). A ideia é que o sistema operacional não apenas execute tarefas, mas entenda o que o usuário está tentando fazer e ofereça suporte proativo, tudo isso com processamento local e respeito à privacidade.
O roteiro para o Ubuntu 28.04 LTS começa agora
Lançado em abril, o Ubuntu 26.04 LTS “Resolute Raccoon” ainda está sendo adotado, mas a equipe de engenharia de desktop já está de olho no próximo grande marco. O roteiro, publicado em 5 de junho pelo diretor de engenharia de desktop da Canonical, Jean-Baptiste Lallement, não é uma lista de funcionalidades para o 26.10. É um documento de design que aponta para abril de 2028.
Quatro pilares sustentam a visão: uma plataforma robusta baseada em GNOME, design simples e flexível, um desktop que entende o contexto do usuário e uma plataforma de confiança e integração. Nenhum desses pontos será concluído no 26.10. Eles representam o ponto de partida de um plano de longo prazo que se estenderá por vários ciclos de lançamento.
Ubuntu 26.10: cronograma de lançamento e suporte
O Ubuntu 26.10 será uma versão interim, com nove meses de suporte. O cronograma já está definido, com marcos importantes para desenvolvedores e testadores.
| Data | Marco |
| 20 de agosto | Feature Freeze — Congelamento de novas funcionalidades, foco em correção de bugs. |
| 10 de setembro | UI Freeze — Data limite para alterações em arte e temas. |
| 16 de setembro | Lançamento do GNOME 51 — Ambiente desktop que será integrado ao Ubuntu 26.10. |
| 24 de setembro | Versão Beta — Início dos testes públicos. |
| 8 de outubro | Final Freeze — Apenas correções de bugs críticos são permitidas. |
| 15 de outubro | Lançamento oficial do Ubuntu 26.10 “Stonking Stingray”. |
GNOME 51 e o fim de uma era: o adeus ao EGLStreams
O Ubuntu 26.10 virá com o GNOME 51, previsto para 16 de setembro. Esta versão representa um passo adiante na jornada de especialização do Wayland, iniciada no GNOME 50. A mudança mais significativa, no entanto, é invisível para o usuário, mas crucial para a saúde do código: a remoção completa do suporte a EGLStreams.
EGLStreams foi uma abordagem proprietária que a NVIDIA desenvolveu para oferecer suporte ao Wayland em suas GPUs. O código foi mantido no Mutter, o gerenciador de janelas do GNOME, por anos. Com a própria NVIDIA migrando para os padrões abertos da comunidade (GBM, DMA-BUF e KMS), o desenvolvedor do GNOME Jonas Ådahl removeu todo o código legado do EGLStreams/EGLDevice do Mutter. Isso não é apenas uma limpeza técnica: simboliza o fim de um período de fragmentação no suporte ao Wayland no Linux desktop.
Paralelamente, o Ubuntu 26.10 completará a migração do D-Bus do antigo dbus-daemon para o dbus-broker. A troca é invisível, mas melhora a confiabilidade, a segurança e o desempenho de toda a pilha de desktop.
RISC-V: a promessa de uma experiência desktop completa
O Ubuntu 26.10 dará um passo concreto em direção ao RISC-V como plataforma desktop. A Canonical afirma que a versão oferecerá uma “experiência desktop completa” em hardware compatível com o perfil RVA23.
O RVA23 é um perfil definido pela RISC-V International que especifica o conjunto de instruções necessário para rodar sistemas operacionais de propósito geral com compatibilidade binária, incluindo extensões para vetores e virtualização. A declaração da Canonical é um sinal claro de que a empresa leva a sério o RISC-V como uma terceira arquitetura para desktops, e não apenas para servidores e IoT.
Instalador e onboarding repensados para simplicidade e escala
Sob o pilar “simples e flexível”, o roteiro detalha uma reformulação profunda na experiência de instalação e primeira configuração do Ubuntu. O App Center se tornará independente de formato de pacote, e o gerenciamento de drivers será melhorado.
O foco principal, no entanto, é um novo instalador que reduz drasticamente a complexidade do particionamento e da configuração de armazenamento. A ideia é oferecer valores padrão seguros e um fluxo guiado. Além disso, a personalização do sistema será movida para uma tela de onboarding dedicada, que aparece após a primeira inicialização, e não durante a instalação. Embora pareça uma mudança voltada para iniciantes, a Canonical afirma que o novo instalador também será preparado para automação em implantações empresariais em larga escala. Este é um trabalho de design que terá sua forma final no Ubuntu 28.04 LTS.
O que é um “desktop consciente de contexto”?
Este é o ponto mais polêmico e visionário do roteiro. O conceito de “context-aware desktop” é a materialização da visão de IA da Canonical para o Ubuntu, apresentada em abril pelo VP de engenharia Jon Seager.
A ideia não é simplesmente adicionar um chatbot ao desktop. O objetivo é que o sistema operacional, os aplicativos e os serviços combinem informações para entender a intenção do usuário e ajudá-lo a concluir tarefas. O primeiro produto concreto desse esforço será um motor de reconhecimento de voz onboard, que funcionará offline e sem enviar dados para a nuvem. A escolha pelo processamento local é uma decisão de design alinhada aos valores de privacidade da comunidade Linux.
Na prática, a Canonical divide a IA em dois tipos: implícita, que melhora funcionalidades existentes do sistema (como acessibilidade por voz), e explícita, que o usuário invoca conscientemente (como um agente para automatizar tarefas de arquivos).
IA no Ubuntu: a aposta no processamento local e o debate na comunidade
A reação da comunidade à estratégia de IA da Canonical é mista. Desde abril, há tópicos no Ubuntu Discourse pedindo que a IA seja mantida fora do sistema. O receio é que o Ubuntu siga o caminho do Windows com o Copilot, que gerou forte rejeição entre usuários de Linux.
A Canonical, no entanto, aposta em diferenciais técnicos. O motor de inferência será distribuído como um Snap, rodará localmente e será otimizado para o hardware do usuário. Nenhum dado será enviado à nuvem sem consentimento explícito. A segurança será reforçada pelo isolamento do container Snap, com escopos que limitam as ações do agente e geram logs de auditoria.
Um ponto que gerou debate foi a declaração de Seager de que um “kill-switch” único para desligar todas as funções de IA é “complexo demais para ser implementado com precisão”. Como os modelos de IA virão como Snaps, removê-los desativa a funcionalidade, mas não haverá um botão de desativação com um clique. Essa decisão contrasta com a filosofia de controle total do usuário que é central no Linux.
É crucial entender que, no Ubuntu 26.10, essas são decisões arquiteturais iniciais. O roteiro deixa claro que esta é uma versão onde as fundações começam a ser lançadas, não um produto finalizado.
Segurança empresarial: autenticação moderna e hardware tokens
O pilar “confiança e integração” traz melhorias significativas para ambientes corporativos. O authd, daemon de autenticação do Ubuntu, ganhará suporte a Microsoft Entra ID (Azure AD) com autenticação por senha e MFA (autenticação multifator). Isso permitirá que solicitações de aprovação do Microsoft Authenticator sejam recebidas diretamente no desktop. Administradores poderão desabilitar a autenticação por senha local para contas gerenciadas remotamente, forçando o uso do provedor de identidade.
Na parte de rede, o NetworkManager passará a suportar autenticação PKCS#11 e smart card. Isso significa que tokens de hardware como YubiKey poderão ser usados para autenticação em VPNs diretamente pela interface padrão do desktop.
Outra adição útil será a exibição de informações de hardware certificado pelo Ubuntu dentro das configurações do GNOME. Embora voltada para OEMs, a funcionalidade permitirá que qualquer usuário verifique se seu dispositivo possui a certificação oficial da Canonical.
Multimídia e acessibilidade: GStreamer 1.30 e conformidade com leis europeias
O Ubuntu 26.10 incluirá o GStreamer 1.30, com suporte a parsing de metadados HDR10+ e novos plugins baseados em Rust. A detecção e instalação de codecs também será aprimorada.
Em acessibilidade, a Canonical continua seus esforços para atingir a conformidade com a norma WCAG 2.2 AA, exigida pelo Ato Europeu de Acessibilidade. As correções apontadas por auditorias externas serão aplicadas não apenas ao 26.10, mas também backportadas para o 26.04 LTS. A empresa também está contribuindo com melhorias de acessibilidade para o ecossistema Flutter, o que beneficiará toda a comunidade de desenvolvimento Linux.
O Ubuntu 26.10 “Stonking Stingray” não será uma revolução imediata. As mudanças mais profundas, como o desktop consciente de contexto e o novo instalador, são promessas para o Ubuntu 28.04 LTS. No entanto, o roteiro serve como uma declaração de intenções poderosa. A Canonical está definindo publicamente o que acredita ser o futuro do Linux desktop, equilibrando inovação com IA local, segurança empresarial e abertura para novas arquiteturas como o RISC-V. Resta saber se a implementação será capaz de unir uma comunidade historicamente cética em torno dessa visão.

