Um incidente grave envolvendo vazamento de gás tóxico na fábrica da SK Hynix em Cheongju, Coreia do Sul, mobilizou cerca de 3.600 funcionários para evacuação imediata nesta segunda-feira, 1º de junho. O acidente ocorreu por volta das 10h32 (horário local) em uma sala de gases localizada no sexto andar, conectando as fábricas M15 e M15X do quarto campus da empresa. O sistema de sprinklers extinguiu rapidamente as chamas, mas o processo de combate ao fogo acabou liberando ácido fluorídrico no ambiente, expondo trabalhadores ao gato altamente tóxico.
Fogo em sala de gases e evacuação em massa no complexo de Cheongju
Dez operários estavam no local no momento da ignição. Cinco deles relataram irritação ocular severa, enquanto outros dois, mesmo sem sintomas aparentes, foram levados a hospitais como medida preventiva. No total, sete pessoas receberam atendimento médico. As autoridades de bombeiros coreanas não descartam que o número de feridos possa aumentar nas próximas horas, conforme novas avaliações forem concluídas. A SK Hynix ativou seu protocolo de emergência e ordenou a saída de todos os funcionários das duas unidades fabris, somando aproximadamente 3.600 pessoas. Trinta e quatro bombeiros e doze viaturas foram enviados ao local para conter a situação e investigar as causas exatas do vazamento.
Os riscos do ácido fluorídrico na fabricação de semicondutores
O ácido fluorídrico é um dos produtos químicos mais perigosos utilizados na indústria de chips. Essencial nos processos de gravação (etching) e limpeza de wafers, sua toxicidade aguda pode causar queimaduras profundas na pele, danos oculares irreversíveis e, quando inalado, provocar edema pulmonar. O fato de cinco dos feridos apresentarem irritação nos olhos é consistente com a exposição ao gás. Embora a concentração exata do vazamento ainda não tenha sido divulgada, a rápida evacuação e o atendimento médico imediato indicam que a empresa seguiu os procedimentos de segurança recomendados para evitar danos fatais. O ácido fluorídrico é manuseado rotineiramente em fábricas de semicondutores no mundo inteiro, mas incidentes como este mostram que qualquer falha na contenção pode ter consequências graves.
Produção não deve ser afetada, afirma SK Hynix
Em comunicado oficial, a SK Hynix garantiu que não houve danos diretos aos equipamentos de produção e que a operação das linhas de fabricação não será comprometida. A empresa afirma que, após a conclusão da inspeção de segurança e da medição da qualidade do ar, os funcionários poderão retornar ao trabalho normalmente. Essa declaração, no entanto, levanta desconfiança em quem acompanha o histórico da companhia. Em setembro de 2013, a fábrica de Wuxi, na China, sofreu uma explosão de grandes proporções. Na ocasião, a SK Hynix também afirmou que a recuperação seria rápida. Na prática, a unidade levou meses para retomar a capacidade total, o que provocou um salto de 36% no preço spot de DRAM em poucos dias e desencadeou uma crise no abastecimento global de memórias.
| 2013 – Wuxi (China) | 2026 – Cheongju (Coreia do Sul) | |
|---|---|---|
| Instalação | Fábrica de DRAM/NAND em Wuxi | Quarto campus de Cheongju (M15/M15X) |
| Causa | Explosão química durante instalação de equipamentos | Incêndio em sala de gases com vazamento de ácido fluorídrico |
| Vítimas | 1 ferido leve | 7 hospitalizados, 3.600 evacuados |
| Danos estruturais | Contaminação de salas limpas; recuperação levou meses | Nenhum dano a salas limpas relatado até o momento |
| Impacto na produção | Cerca de 13% da oferta global de DRAM parou por meses | Empresa afirma não haver impacto na produção |
| Preço do DRAM | Spot subiu 36% em dias | Analistas apontam possível pressão psicológica sobre preços |
Mercado de memórias já operava no limite antes do acidente
O vazamento chega em um momento crítico para o setor. Em 2026, a demanda por memórias DRAM disparou impulsionada por data centers voltados à inteligência artificial. Os contratos de DRAM registraram alta de 90% a 95% no primeiro trimestre em relação ao trimestre anterior, e o segundo trimestre já aponta novo salto de 58% a 63%. Os estoques dos fabricantes estão no limite, com praticamente toda a produção adicional sendo absorvida por operadores de nuvem, enquanto os segmentos de PC e dispositivos móveis sofrem com a escassez. O complexo de Cheongju abriga a M15, uma das maiores fábricas de semicondutores do mundo desde 2018, focada em DRAM de alto valor agregado. A adjacente M15X, construída para expandir a produção de HBM (High Bandwidth Memory), passou por uma reestruturação de investimentos em 2024 e estava prestes a iniciar a produção em massa de DRAM 1b, essencial para os módulos HBM3E destinados a aceleradores de IA. Qualquer paralisação, mesmo que de poucos dias, pode agravar o desabastecimento global e elevar ainda mais os preços.
Segurança química: uma sombra sobre a cadeia de suprimentos
Este não é o primeiro incidente com ácido fluorídrico na SK Hynix. Em abril de 2021, a fábrica M16 em Icheon já havia registrado um vazamento da mesma substância durante manutenção, deixando três funcionários feridos. A repetição de ocorrências envolvendo materiais perigosos levanta questões sobre a eficácia dos protocolos de segurança da empresa. Na indústria de semicondutores, o gerenciamento de riscos químicos é parte indissociável da capacidade produtiva. Quando uma única planta responde por uma fatia significativa da oferta global, como é o caso das unidades de Cheongju, a vulnerabilidade se torna sistêmica. Por enquanto, não há risco de morte entre os feridos e a previsão é de retorno à normalidade após as inspeções. Mas o episódio já serve como alerta: a dependência de poucas fábricas concentradas geograficamente torna o mercado de chips extremamente sensível a acidentes que, isoladamente, podem parecer locais, mas que ecoam em toda a cadeia de suprimentos mundial.

