A NASA confirmou que manterá a cápsula CST-100 Starliner da Boeing como plataforma de transporte de astronautas e carga para a Estação Espacial Internacional (ISS), enquanto a SpaceX reafirma a aposentadoria da Dragon até 2030. A decisão, tomada dois anos após o conturbado voo inaugural da Starliner, reflete a falta de alternativas viáveis para a agência espacial norte-americana.
Por que a NASA insiste na Starliner?
O motivo central é a escassez de opções. A SpaceX, fornecedora da Crew Dragon, deixou claro que não pretende estender a vida útil da cápsula além do limite homologado de dez anos. Com isso, a NASA passará a depender exclusivamente da Boeing para acesso à ISS a partir de 2030, o que levanta preocupações sobre um monopólio de transporte orbital tripulado. A agência, mesmo ciente dos riscos envolvidos, optou por injetar mais recursos financeiros no projeto da Starliner.
Na segunda-feira, 28 de setembro de 2026, a Boeing e a NASA apresentaram um plano conjunto que prevê ao menos dois novos lançamentos além dos quatro já agendados. O primeiro voo, não tripulado e exclusivamente de carga, está programado entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027 e servirá para testar as correções de segurança. Caso aprovado, três missões tripuladas serão realizadas posteriormente.
Os custos elevados da aposta na Boeing
A NASA vai desembolsar um adicional de US$ 359 milhões (cerca de R$ 1,86 bilhão na cotação de 30 de setembro de 2026), elevando o orçamento total do programa Starliner para US$ 4,749 bilhões (aproximadamente R$ 24,57 bilhões). Isso resulta em um custo médio de US$ 791,5 milhões por missão. Em comparação, a SpaceX recebeu US$ 4,93 bilhões para desenvolver a Dragon, mas em troca de 15 missões, o que reduz o custo unitário para US$ 328,7 milhões.
| Programa | Investimento total | Missões contratadas | Custo por missão |
|---|---|---|---|
| Boeing Starliner | US$ 4,749 bilhões (~R$ 24,57 bilhões) | 6 (incluindo as adicionais) | US$ 791,5 milhões (~R$ 4,1 bilhões) |
| SpaceX Crew Dragon | US$ 4,93 bilhões (~R$ 25,5 bilhões) | 15 | US$ 328,7 milhões (~R$ 1,7 bilhão) |
A diferença gritante se deve em parte às exigências de segurança da NASA, que limita a capacidade de cada voo a quatro astronautas, embora a Dragon possa transportar até seis. A burocracia e os atrasos da Boeing também pesaram no orçamento.
Os problemas técnicos da Starliner e as correções
O voo inaugural tripulado de 2024 foi um dos momentos mais críticos da história recente da exploração espacial. Problemas nos propulsores e no sistema de acoplagem quase resultaram em uma tragédia. A NASA classificou o incidente como uma “Falha Classe A”, mesma designação dos desastres do Challenger e do Columbia. Os astronautas Butch Wilmore e Suni Williams conseguiram acoplar a cápsula à ISS manualmente, evitando o pior.
O relatório da agência listou 61 recomendações de modificações que a Boeing deve implementar. Algumas já serão aplicadas na missão Starliner-1; a Starliner-2, primeira tripulada após o incidente, está prevista para 2028. A NASA adotou tolerância zero para novos erros, dada a quantidade de dinheiro público gasto e o risco corrido.
O risco de monopólio e a dependência americana
Com a saída da Dragon de cena, a Boeing se tornará a única fornecedora de transporte tripulado para a ISS – excluindo as cápsulas Soyuz, da Rússia. A Agência Espacial Europeia (ESA) também não possui veículo próprio e depende das empresas americanas. Esse cenário preocupa especialistas, pois a falta de concorrência pode elevar custos e reduzir a confiabilidade.
A SpaceX tem a Starship como sucessora natural da Dragon. A nave já realizou seu primeiro teste orbital bem-sucedido e tecnicamente poderia se acoplar à ISS, à semelhança dos antigos ônibus espaciais. Contudo, o cronograma de desenvolvimento da Starship é incerto, marcado pelo chamado “Elon Time” – atrasos recorrentes que dificultam previsões precisas.
Enquanto isso, a NASA terá que torcer para que a Starliner funcione corretamente. Caso contrário, restará a opção de alugar voos da Rússia, que certamente cobraria valores ainda mais altos. A aposta na Boeing, apesar de todos os perrengues, é a única saída viável a curto prazo para manter o acesso americano à ISS até que uma nova plataforma surja.

