Resistem seguradoras de nicho a exclusões de IA com análise caso a caso

Enquanto o mercado segurador tradicional debate a aplicação de exclusões de inteligência artificial (IA) nas apólices, as seguradoras de nicho do segmento de excedentes e especialidades (E&S) resistem a essa abordagem generalizada, optando por uma análise caso a caso. Para executivos do setor, a IA acelera tarefas como análise de submissões e construção de carteiras, tornando inviável uma exclusão total — mas as incertezas quanto às responsabilidades legais ainda são um grande ponto de interrogação. A postura das seguradoras de especialidades revela tanto uma oportunidade de negócio quanto um desafio de subscrição em um terreno praticamente sem jurisprudência.

“Não dizemos aos nossos segurados como fazer o trabalho deles. Nem deveríamos, certo?” Essa afirmação de Nir Gabay, head de responsabilidade profissional da Admiral Insurance, resume a filosofia que rege a abordagem de muitas seguradoras de nicho diante dos riscos de IA. Em vez de impor cláusulas de exclusão genéricas, os subscritores estão mudando o foco para perguntas mais profundas: como o profissional está usando a ferramenta, se há substituição do julgamento humano por decisões automatizadas e se a IA está sendo empregada no lugar de especialistas qualificados, como advogados ou engenheiros.

Por que seguradoras de nicho resistem a excluir a IA de suas apólices

A resistência não é fruto de desatenção, mas de uma visão estratégica. No mercado E&S, a liberdade para definir taxas e condições é maior do que nas seguradoras admitidas (reguladas), o que permite às especialidades “incubar” novas formas de cobertura. Lynanne St. Denis, head de propriedade e responsabilidade civil no atacado da Navigators, marca da The Hartford, defende que é justamente esse poder de customização que posiciona o segmento como o mais apto a lidar com riscos emergentes como a IA. “Continuamos subscrevendo o risco individual, e é isso que nos define no E&S”, afirmou.

Anurag Batta, presidente da Bridge Specialty Group, unidade da Brown & Brown, reforça o argumento: “É preciso criatividade, soluções mais sob medida. E o E&S está bem posicionado para capturar esse tipo de risco.” Em um mercado competitivo onde as seguradoras tradicionais tentam reconquistar negócios perdidos para as de nicho, manter a responsabilidade por IA como um risco a ser avaliado individualmente se torna uma vantagem competitiva.

Os sinais de alerta na subscrição de riscos de IA

A Admiral Insurance já começou a incorporar perguntas específicas no processo de subscrição para entender como os profissionais utilizam a inteligência artificial. Entre os principais sinais de alerta estão a dependência excessiva da IA em substituição ao julgamento próprio e a delegação de tarefas que exigem expertise humana qualificada, como pareceres jurídicos. “Se eles dependem demais dela e não fazem de fato o que deveriam fazer, isso é muito ruim”, observou Gabay.

Na CFC, uma agência de subscrição focada em cibersegurança e tecnologia, a estratégia foi diferente: a empresa incluiu cobertura afirmativa de IA em muitas de suas apólices. Justin Camara, CEO da CFC USA, explica que a medida visa dar confiança a clientes e corretores em situações ambíguas. No entanto, ele reconhece que “há muita incerteza” sobre os danos que o uso de IA pode causar, especialmente com o avanço de agentes autônomos. Para gerenciar o risco, os subscritores perguntam ao proponente quais proteções ou controles existem para governar o uso da ferramenta.

A falta de dados e o dilema da jurisprudência

Um dos maiores obstáculos para a criação de produtos de cobertura de IA é a total falta de informações sobre perdas reais. Erich Bublitz, vice-presidente executivo de E&S da AmTrust, alerta que a maioria das apólices tradicionais é silenciosa quanto ao tema, o que significa que muitas seguradoras podem estar assumindo riscos sem saber. “Ninguém entende completamente qual é a exposição real. Se você subscreve qualquer coisa com cauda longa ligada a IA, não faz ideia do que está subscrevendo neste momento”, afirmou.

A ISO, organização de padrões do setor de seguros dos EUA, registrou no ano passado exclusões opcionais de responsabilidade civil geral para riscos de IA generativa, mas os executivos presentes na conferência anual da Wholesale & Specialty Insurance Association deixaram claro que não pretendem adotá-las. A razão é simples: sem precedentes judiciais claros, qualquer exclusão pode ser prematura ou malfeita.

Os tribunais como balizadores do futuro da cobertura

Ania Caruso, presidente nacional de casualty da Risk Placement Services, unidade de atacado da Arthur J. Gallagher & Co., lembra que os primeiros casos envolvendo responsabilidade ligada à IA apenas começaram a tramitar nos tribunais. “É aí que costuma surgir a solução”, disse ela, referindo-se ao fato de que decisões judiciais ajudam a esclarecer a exposição jurídica e orientam as seguradoras na criação de produtos adequados. Até lá, segundo Caruso, “é o dilema do ovo e da galinha”.

Enquanto os tribunais não definem parâmetros, as seguradoras de nicho seguem apostando na análise individualizada como ferramenta para evitar tanto a subcobertura quanto a exclusão indevida. A abordagem caso a caso não é apenas uma estratégia comercial — é uma resposta pragmática a um cenário onde a tecnologia corre mais rápido do que a regulamentação e a jurisprudência. Para o mercado segurador brasileiro, que observa de perto as movimentações nos Estados Unidos, o exemplo reforça a importância de manter flexibilidade na subscrição e de investir em conhecimento técnico sobre inteligência artificial, sob risco de ficar para trás em um dos segmentos de maior potencial de crescimento nos próximos anos.

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