Com uma dívida de US$ 10,9 bilhões travando a recuperação extrajudicial, a Braskem (BRKM5) vive um impasse que se arrasta desde agosto. O pedido foi protocolado em 24 de agosto e, desde então, as negociações avançaram pouco: houve reuniões presenciais com acionistas e credores financeiros, troca de propostas e a prorrogação do protocolo de negociação para 30 de outubro de 2026. Nenhuma oferta foi aceita.
No sábado (24), a petroquímica tornou públicas informações não públicas que estavam protegidas por acordos de confidencialidade assinados em setembro. Os documentos, entregues entre agosto e outubro a titulares e gestores de notas seniores e debêntures, incluem o plano de negócios atualizado, projeções financeiras até 2035, preços, volumes, custos, consumo e fornecimento de matéria-prima e a taxa de utilização esperada. A divulgação cumpre a obrigação prevista nos próprios acordos e expõe o tamanho do fosso entre as partes.
Por que a dívida de US$ 10,9 bilhões trava a recuperação extrajudicial da Braskem?
A resposta curta: falta acordo sobre o preço da conversão da dívida em ações, o montante da injeção de capital e as garantias da dívida remanescente. A Braskem quer converter parte dos créditos ao preço de mercado e preservar a estrutura acionária; os credores exigem mais capital no fechamento e um desconto maior na subscrição. Sem essa equação fechada, não há como aprovar o plano.
Os números das duas principais propostas ajudam a entender o impasse.
Proposta da Braskem: preservar a estrutura acionária
No plano da companhia, a oferta de direitos de subscrição soma US$ 2,25 bilhões, com desconto de 20aaaa% sobre o preço de mercado. Acionistas ou terceiros garantiriam US$ 1,2 bilhão, sendo metade desembolsada no fechamento e o restante 12 meses depois. Há ainda um aporte contingente de até US$ 0,5 bilhão em junho de 2029, condicionado à alavancagem líquida ficar acima de 4,0 vezes.
A conversão de dívida em ações ficaria entre US$ 3,3 bilhões e US$ 3,8 bilhões, com até US$ 2,8 bilhões convertidos no fechamento. Os cerca de US$ 6,8 bilhões restantes — 71% dos créditos — virariam dívida garantida, com remuneração de 125 pontos-base acima da taxa média atual e opção de pagamento integral em espécie (PIK) por três anos.
Proposta dos credores: mais capital e mais garantias
O grupo ad hoc de credores mantém a oferta de US$ 2,25 bilhões em subscrição, mas com US$ 1,85 bilhão garantido e integralmente desembolsado no fechamento. O preço seria de R$ 1,60 por ação, um desconto de 20% sobre o preço de conversão da dívida, fixado em R$ 2,00. Não há aporte contingente.
Na conversão, US$ 1,85 bilhão viraria ação no fechamento a R$ 2,00; outros US$ 450 milhões se transformariam em dívida conversível, com preço inicial de R$ 2,00 e redução de 4% ao ano. Em junho de 2029, o montante necessário para levar a alavancagem a 4,0 vezes seria convertido obrigatoriamente em ações. Na soma, até US$ 2,3 bilhões em dívida virariam patrimônio. A dívida remanescente ficaria em cerca de US$ 7,3 bilhões, com custo médio de 8,5% ao ano, PIK de 50% até dezembro de 2027 e um pacote mais amplo de garantias.
As diferenças em uma tabela
| Item | Proposta da Braskem | Proposta do grupo ad hoc |
|---|---|---|
| Injeção de capital | US$ 2,25 bilhões em direitos de subscrição; 20% de desconto sobre o preço de mercado. Garantia de US$ 1,2 bilhão por acionistas ou terceiros, metade no fechamento e o restante em 12 meses. Até US$ 0,5 bilhão adicional em junho de 2029, se a alavancagem ficar acima de 4,0 vezes. | US$ 2,25 bilhões em direitos de subscrição; US$ 1,85 bilhão garantido e integralmente desembolsado no fechamento. Preço de R$ 1,60 por ação. Sem aporte contingente. |
| Conversão da dívida em ações | US$ 3,3 bilhões a US$ 3,8 bilhões ao preço de mercado; até US$ 2,8 bilhões no fechamento e US$ 0,5 bilhão a US$ 1,0 bilhão em junho de 2029. | US$ 1,85 bilhão no fechamento a R$ 2,00 por ação; US$ 450 milhões em dívida conversível com preço inicial de R$ 2,00 e redução de 4% ao ano. Conversão obrigatória em junho de 2029 para alavancagem de 4,0 vezes. |
| Dívida remanescente | Cerca de US$ 6,8 bilhões (71% dos créditos) em dívida garantida; remuneração de 125 pontos-base acima da taxa média atual; PIK por três anos. | Cerca de US$ 7,3 bilhões em dívida garantida; custo médio de 8,5% ao ano; PIK de 50% até dezembro de 2027; pacote mais amplo de garantias. |
XP coloca a Braskem sob revisão
Diante do cenário, a XP Investimentos colocou a petroquímica sob revisão. Recomendação, preço-alvo e estimativas anteriores deixaram de ser válidos até que os termos da reestruturação estejam claros. A análise ressalta que as conversas seguem ativas, mas as divergências — montante e cronograma da injeção de capital, preço de conversão e takeback debt — continuam grandes.
No calendário, o prazo para o desfecho é curto. A Braskem tem até 22 de novembro, 90 dias após o protocolo, para obter o apoio necessário à aprovação judicial. As partes tentam definir os principais termos até 30 de outubro, data que já foi prorrogada em relação ao 9 de outubro. A companhia afirma que seguirá negociando dentro do protocolo vigente.
O desfecho da recuperação extrajudicial será decisivo para o valor de mercado da Braskem. Uma solução alinhada com os credores tende a destravar a companhia para um novo ciclo de investimentos; um acordo imposto ou uma judicialização prolongada pode aprofundar a diluição e aumentar o custo da dívida. Para o investidor, acompanhar os próximos lances dessa negociação é mais relevante do que qualquer projeção de curto prazo para a ação.

