O ChatGPT está prestes a se tornar muito mais pessoal — e consideravelmente mais barato de operar. A OpenAI anunciou no dia 4 de junho o Dreaming V3, uma nova arquitetura de memória que substitui por completo o sistema de “notas avulsas” usado desde 2024. A mudança é profunda: a nova tecnologia não apenas melhora a capacidade do assistente de lembrar informações factuais e preferências dos usuários, mas também reduz o custo computacional em aproximadamente 80%, abrindo caminho para que a funcionalidade chegue a todos os usuários gratuitos nas próximas semanas.
Dois anos de um problema de memória mal resolvido
A funcionalidade de memória do ChatGPT sempre foi um ponto de tensão. A primeira versão, lançada em abril de 2024 com o nome de “Memória Salva”, funcionava como um bloco de notas rudimentar: o usuário precisava dizer explicitamente “grave isso” para que uma informação fosse armazenada. Qualquer informação fora desse registro era perdida entre sessões. Com o tempo, o conteúdo da memória ficava obsoleto, criando um descompasso entre o que o sistema lembrava e o estado real das coisas.
Em abril de 2025, a OpenAI lançou o Dreaming V0, que passou a usar o histórico completo de conversas como referência em segundo plano. Era um avanço na personalização, mas a própria empresa reconhecia que o sistema ainda estava longe de ser uma solução unificada — funcionava mais como um complemento superficial à memória original.
O Dreaming V3 muda radicalmente essa premissa. Ele deixa de ser um coadjuvante e se torna o núcleo do sistema de memória. A OpenAI divulgou números de uma avaliação interna com três eixos — e os ganhos são impressionantes. No quesito Memória Factual (capacidade de usar informações passadas em conversas futuras), o desempenho saltou de 41,5% em 2024 para 67,9% com o V0 e chegou a 82,8% com o V3. Na Reflexão de Preferências (se o usuário se identifica como vegetariano, por exemplo, as sugestões de restaurantes refletirem isso), os números foram de 31,4% para 55,3% e agora 71,3%. O avanço mais expressivo, porém, está na Atualidade da Informação: a capacidade de entender que uma viagem já terminou e o usuário voltou para casa subiu de apenas 9,4% em 2024 para 52,2% em 2025 e atingiu 75,1% com o V3.
Como funciona a memória “que sonha” do ChatGPT
Se a memória antiga do ChatGPT era uma lista de itens soltos — “oceanógrafo”, “mora no Maine”, “gosta de observação de pássaros” —, o Dreaming V3 transforma esse conjunto de fragmentos em um perfil estruturado e dinâmico. O sistema examina o histórico completo de conversas em segundo plano, extrai informações relevantes, cruza dados e organiza tudo em categorias como trabalho, hobbies, viagens e preferências de comunicação. O resultado é exibido em uma página de resumo de memória, onde o usuário pode visualizar, editar ou instruir o ChatGPT a evitar determinados tópicos.
A OpenAI ilustrou a diferença com um exemplo prático de consulta sobre equipamentos de fotografia subaquática. Sem a memória ativada, o ChatGPT devolve uma lista genérica de câmeras e acessórios. Com o Dreaming V3 ativo, o assistente lembra que o usuário já possui uma Sony A1 II, um housing Nauticam NA-A1II e flashes Backscatter Mini Flash 3 e Inon Z-330 — e sugere modelos compatíveis e peças de reposição com base nesse equipamento real.
Vale uma ressalva importante: mesmo com 82,8% de precisão factual, o sistema ainda erra em cerca de uma em cada cinco tentativas. A taxa de acerto para informações temporais, embora tenha disparado, significa que uma em cada quatro atualizações ainda pode falhar. A melhoria é real, mas a confiança cega ainda não é recomendada.
Custo cai para um quinto e acesso gratuito se aproxima
O salto de qualidade já seria notícia, mas o que realmente chama a atenção é a eficiência computacional. A OpenAI conseguiu reduzir o custo de processamento do Dreaming para cerca de um quinto do valor anterior. Isso tem um impacto direto na disponibilidade: até agora, a memória baseada no Dreaming estava restrita aos assinantes Plus (US$ 20/mês) e Pro (US$ 200/mês) justamente porque o custo de operação impedia que o recurso fosse oferecido sem degradar a experiência dos usuários gratuitos. Com a otimização, essa barreira caiu.
O plano, segundo a OpenAI, é começar a liberar o Dreaming V3 primeiro para assinantes Plus e Pro nos Estados Unidos, com expansão para outros países e para a base gratuita “nas próximas semanas”. Ainda não há um cronograma detalhado por região, mas a promessa é de que a funcionalidade chegará a todos os usuários. Para quem paga, a empresa também planeja aumentar a capacidade de armazenamento da memória.
Memória mais esperta, perguntas mais incômodas
Quanto mais o ChatGPT se lembra, mais urgentes se tornam as questões sobre o que exatamente está sendo registrado e como esse registro é feito. Um estudo publicado em fevereiro de 2026 e aceito no ACM Web Conference analisou 2.050 entradas de memória fornecidas por 80 usuários do ChatGPT e revelou um dado preocupante: 96% delas foram geradas unilateralmente pelo sistema, sem que o usuário tivesse dado uma instrução explícita como “grave isso”. O modelo extraía e registrava informações por conta própria a partir das conversas. Desse total, 28% continham dados pessoais conforme a definição do GDPR, e 52% incluíam inferências psicológicas — estado de saúde, composição familiar, crenças políticas —, tudo sem que o usuário tivesse solicitado ou, muitas vezes, percebido.
O estudo foi feito sobre o sistema de memória anterior, não o Dreaming V3. Mas a preocupação se mantém: a nova arquitetura, que analisa o histórico de conversas para sintetizar memórias, pode amplificar essa tendência. Informações reveladas casualmente em uma conversa podem acabar incorporadas ao perfil do usuário sem que ele tenha consciência disso. A OpenAI afirma que o sistema permite controle total: o usuário pode acessar a página de resumo para revisar e editar o conteúdo, desativar a memória nas configurações ou usar o modo de chat temporário. O problema é que controle disponível não é o mesmo que controle exercido — e o pleno funcionamento da regulação de IA na Europa, que entrou em vigor em fases desde agosto de 2024 e terá sua aplicação completa em agosto de 2026, promete colocar esse tipo de funcionalidade sob escrutínio.
A corrida pelo direito de “te conhecer” está só começando
O Dreaming V3 sinaliza uma mudança importante no eixo da concorrência entre assistentes de IA. Até agora, a briga era centrada na qualidade da resposta pontual — qual modelo dá a melhor explicação ou o código mais limpo em uma única interação. Com a memória de longo prazo se tornando viável e barata, a disputa migra para a qualidade do relacionamento contínuo com o usuário. Não ter que repetir informações básicas em toda nova conversa é um ganho real de produtividade e uma das funcionalidades mais pedidas desde o lançamento do ChatGPT.
Ao mesmo tempo, o avanço abre uma nova camada de complexidade. A precisão de 82,8% ainda deixa margem para erros que podem gerar constrangimentos ou decisões baseadas em informações desatualizadas. E a automatização da coleta de dados coloca na mão do usuário uma responsabilidade que muitos ainda não sabem que têm: a de monitorar ativamente o que a máquina está “aprendendo” sobre eles. A OpenAI deu um passo técnico importante, mas os próximos capítulos dessa história serão escritos na tensão entre conveniência e consentimento.

