A Nintendo construiu uma reputação que poucas empresas no mundo dos games conseguem ostentar: décadas de inovação, franquias icônicas e um carinho quase unânime do público. No entanto, essa trajetória também é pontuada por momentos controversos que vão de estratégias de negócio agressivas a decisões de design questionáveis. Reunimos oito polêmicas históricas que marcaram a Big N de forma inesperada, mostrando que mesmo a empresa mais querida já colecionou episódios dignos de memes e debates acalorados.
As 8 polêmicas históricas que todo fã da Nintendo precisa conhecer
1. O acordo desfeito com a Sony que gerou o PlayStation
Pouca gente sabe, mas o PlayStation original quase foi um produto Nintendo. Em 1988, as duas empresas firmaram um acordo para desenvolver um add-on de CD-ROM para o Super Nintendo. A Sony criaria o hardware, e a Nintendo ficaria com os jogos. Pouco antes do anúncio oficial, a Nintendo rompeu o contrato e fechou com a Philips — movimento que enfureceu a Sony, que decidiu seguir sozinha. Resultado? O console que domina o mercado há três gerações nasceu diretamente de uma traição de bastidores. A ironia é que esse episódio também deu origem ao CD-i da Philips, outro fracasso memorável.
2. A censura interna e a “Nintendo Seal of Quality”
Durante os anos 80 e 90, a Nintendo exercia controle absoluto sobre o que era publicado em seus consoles. Cada cartucho precisava passar por um processo de aprovação rigoroso — e eles não hesitavam em censurar conteúdo. Sangue, violência explícita, referências religiosas e até palavras de baixo calão eram cortados. Jogos como Mortal Kombat chegaram ao SNES sem os famosos “fatalities” sangrentos, enquanto a versão de Mega Drive mantinha tudo. Essa política criou uma percepção de que a Nintendo era “infantil”, mas também garantiu a padronização de qualidade que virou sua marca registrada.
3. Virtual Boy: a aposta que causou dores de cabeça
Lançado em 1995, o Virtual Boy foi o primeiro console da Nintendo a usar realidade virtual — de forma extremamente primitiva. O display monocromático vermelho, os gráficos em 3D estereoscópico e a posição fixa do headset forçavam o jogador a ficar imóvel, apoiando o rosto no aparelho. Relatos de enjoo, dor de cabeça e cansaço visual foram generalizados. A Nintendo vendeu míseras 770 mil unidades e o console foi descontinuado em menos de um ano. O fracasso foi tão grande que a empresa demorou mais de duas décadas para tentar VR novamente.
4. O episódio que derrubou Pokémon no Japão
Em 1997, um episódio de Pokémon (“Dennō Senshi Porygon”) exibiu uma sequência de flashes vermelhos e azuis em alta frequência. Mais de 600 crianças japonesas foram hospitalizadas com convulsões, náusea e dores de cabeça — um caso que entrou para a história como o “incidente do Pokémon”. A Nintendo e a TV Tokyo suspenderam a exibição do anime por quatro meses, e o episódio nunca mais foi ao ar. O personagem Porygon, que não tinha culpa nenhuma (os flashes foram causados por um ataque de Pikachu), foi banido permanentemente da série. Até hoje ele não reaparece no anime.
5. A briga judicial com a Universal sobre Donkey Kong
Em 1982, a Universal Studios processou a Nintendo, alegando que Donkey Kong infringia os direitos do personagem King Kong. A Nintendo, então uma pequena empresa de jogos, contratou o advogado John Kirby (sim, o nome que depois batizaria o personagem da HAL Laboratory) e venceu a causa. Durante o julgamento, ficou provado que King Kong já era domínio público, e a Universal nem sequer detinha os direitos sobre o filme clássico. A vitória foi tão emblemática que a Nintendo batizou o personagem rosa de “Kirby” em homenagem ao advogado.
6. Os jogos “não oficiais” da Philips CD-i
Como consequência do acordo rompido com a Sony, a Nintendo licenciou seus personagens para a Philips produzir jogos para o CD-i. O resultado foram três títulos infames: Hotel Mario e os dois jogos de The Legend of Zelda — todos com animações toscas, gameplay sofrível e cutscenes que pareciam desenhos animados de quinta categoria. Por anos, a Nintendo se recusou a admitir que esses jogos existiam, mas eles se tornaram piada entre os fãs. Em 2023, a empresa finalmente incluiu Link: The Faces of Evil e Zelda: The Wand of Gamelon em sua lista de títulos licenciados, mas sem orgulho.
7. A guerra contra fãs e criadores de conteúdo
A Nintendo sempre foi conhecida por sua postura agressiva em relação a direitos autorais. Em 2015, a empresa começou a derrubar vídeos de Let’s Play no YouTube, monetizando eles próprios todo o conteúdo que usava seus jogos. Criadores de conteúdo brasileiros e internacionais sofreram com strikes e desmonetização. Mais recentemente, em 2024, a Nintendo processou o desenvolvedor de um emulador de Switch, o Yuzu, levando ao fechamento do projeto e a um acordo milionário. A comunidade de fãs muitas vezes vê essa postura como exagerada, especialmente quando contrasta com a atitude mais aberta de concorrentes como a Valve.
8. O drift eterno dos Joy-Con
Lançado em 2017, o Nintendo Switch foi um sucesso estrondoso, mas os Joy-Con logo começaram a apresentar um problema conhecido como “drift”: o analógico registra movimento mesmo quando o jogador não está tocando nele. O defeito foi tão recorrente que gerou ações coletivas em vários países, incluindo Brasil. A Nintendo chegou a oferecer reparos gratuitos, mas nunca admitiu oficialmente um erro de design. Para muitos, esse caso simboliza a dualidade da empresa: inovação técnica ao mesmo tempo que subestima a durabilidade de seus componentes.
O mais curioso é que, mesmo com essas controvérsias, a Nintendo mantém uma base de fãs extremamente leal. Cada polêmica, por mais estranha que seja, acaba virando parte da mitologia da empresa — e, de certa forma, humaniza uma gigante que, no fundo, sempre agiu como uma pequena guardiã de suas próprias regras. Para o mercado brasileiro, onde a Nintendo teve presença tímida por décadas (com consoles vendidos por importadores e games traduzidos de forma amadora), essas histórias ganham um tempero extra: o sentimento de que, apesar de tudo, a empresa sempre fez parte da infância de quem cresceu com um Super Nintendo ou um Game Boy na estante. O legado da Nintendo é feito tanto de acertos quanto de tropeços — e são esses tropeços que tornam sua história ainda mais fascinante.

