Os Correios iniciaram uma operação inédita que permite a entrega de compras feitas em lojas de Ciudad del Este, no Paraguai, diretamente em qualquer endereço do Brasil, sem que o consumidor precise atravessar a fronteira. Batizada de Correios Packet, a modalidade utiliza transporte terrestre entre os dois países e está disponível, por enquanto, apenas para clientes de lojas habilitadas pela Receita Federal. O lançamento ocorre em um momento de aperto no bolso do brasileiro, com o aumento das regras de tributação sobre importações e a valorização do dólar frente ao real, fatores que encareceram parte das compras internacionais tradicionais. Agora, com a entrega direta, o consumidor pode comparar preços de produtos vendidos no Paraguai com os praticados no varejo nacional antes de fechar negócio.
Como funciona a compra do Paraguai com entrega no Brasil?
O processo é semelhante ao de qualquer e-commerce: o consumidor acessa o site da loja paraguaia, seleciona os produtos e informa um endereço de entrega no Brasil. Após o faturamento em Ciudad del Este, o pedido segue por via terrestre até Foz do Iguaçu (PR) e é direcionado ao Centro Internacional dos Correios, em Curitiba, onde passa pelo desembaraço aduaneiro antes de seguir para a entrega final. A partir da saída desse centro, a encomenda segue os mesmos prazos das entregas nacionais dos Correios, com rastreamento completo durante todo o trajeto.
É fundamental entender que, mesmo sendo uma compra feita em português, cotada em reais e sem sair de casa, trata-se de uma importação. O pedido está sujeito a impostos federais e estaduais, calculados e cobrados no momento da compra, e o serviço atualmente aceita encomendas de até 30 kg.
Quais lojas do Paraguai já entregam no Brasil?
Neste primeiro momento, a modalidade está disponível para duas grandes varejistas de Ciudad del Este: Cellshop e New Zone Importados, ambas conhecidas na região da fronteira pela venda de eletrônicos e importados. As duas foram homologadas no Programa Remessa Conforme, da Receita Federal, e estão autorizadas a vender diretamente para consumidores em qualquer parte do Brasil. A lista de lojas participantes ainda é restrita e só deve crescer à medida que novas empresas consigam a habilitação no programa federal.
Quais produtos podem ser comprados?
O catálogo das lojas participantes replica o que já é encontrado presencialmente em Ciudad del Este: celulares, notebooks, videogames, câmeras, acessórios de tecnologia, perfumaria, cosméticos e vestuário. Por se tratar de uma importação, o produto escolhido continua sujeito às regras brasileiras para entrada de mercadorias. Os Correios mantêm uma lista de itens proibidos ou restritos, como armas, medicamentos sem registro e determinados eletrônicos sem certificação da Anatel, que podem ter a entrega barrada ou exigir documentação adicional. Antes de finalizar a compra, é prudente verificar se o produto se enquadra em alguma dessas restrições.
Como funciona o Remessa Conforme nas compras do Paraguai?
O Remessa Conforme é o programa da Receita Federal que regula a tributação de compras internacionais feitas por pessoas físicas. Lojas homologadas, como Cellshop e New Zone, precisam informar antecipadamente os dados de cada venda ao Fisco brasileiro. Elas também devem calcular os impostos devidos já no momento da compra, garantindo que o consumidor saiba exatamente quanto vai pagar antes de finalizar o pedido, sem surpresas na entrega. Essa antecipação agiliza o desembaraço aduaneiro, já que a Receita recebe as informações da encomenda antes da chegada ao Brasil, tornando a liberação mais rápida do que em compras feitas em sites não certificados.
Quanto de imposto vou pagar?
Como as lojas paraguaias participantes estão no Remessa Conforme, a tributação segue as regras aplicadas a qualquer compra internacional em plataformas certificadas. Compras de até US$ 50 estão isentas do Imposto de Importação desde maio de 2026 e pagam apenas o ICMS do estado de destino, que varia de 17% a 20%. Já compras entre US$ 50,01 e US$ 3.000 pagam Imposto de Importação de 60% sobre o valor aduaneiro (produto mais frete), com um desconto fixo de US$ 30 sobre o imposto calculado, além do ICMS estadual, que incide “por dentro” também sobre o valor do imposto federal.
Na prática: em uma compra de US$ 40 (cerca de R$ 232, com o dólar a R$ 5,80), não há cobrança de Imposto de Importação, e o consumidor paga apenas o ICMS, algo entre R$ 40 e R$ 46, dependendo do estado. Já em uma compra de US$ 100 (R$ 580), o Imposto de Importação de 60% resulta em US$ 60, dos quais são descontados US$ 30, sobrando US$ 30 (cerca de R$ 174) de imposto federal. Sobre esse total, ainda incide o ICMS estadual, que pode acrescentar de R$ 130 a R$ 150 à conta final.
| Faixa de Valor (US$) | Imposto de Importação | ICMS (exemplo) |
|---|---|---|
| Até US$ 50 | Isento | 17% a 20% |
| US$ 50,01 a US$ 3.000 | 60% com desconto de US$ 30 | 17% a 20% sobre total |
A cota de US$ 500 vale para compras online?
Não. A cota de US$ 500, conhecida por quem viaja ao Paraguai, vale apenas para quem atravessa a fronteira terrestre carregando as próprias compras — é a chamada franquia de bagagem para viajantes. Comprar em uma loja paraguaia pela internet e receber a encomenda pelos Correios é uma operação diferente: juridicamente, é tratada como importação por remessa internacional, sujeita às regras do Regime de Tributação Simplificada, e não à cota de viajante. Ou seja, mesmo que o valor da compra fique abaixo de US$ 500, isso não garante isenção de impostos quando a compra é feita online: o que determina a tributação é a faixa de valor no Remessa Conforme.
Comprar no Paraguai pela internet vale a pena?
A resposta depende do produto e do seu preço no Brasil. Para itens mais baratos, na faixa isenta de Imposto de Importação (até US$ 50), a compra tende a compensar, já que o consumidor paga apenas o ICMS estadual. Já para eletrônicos mais caros, como celulares topo de linha, a soma do Imposto de Importação de 60% com o ICMS pode elevar bastante o preço final, tornando a compra no Paraguai potencialmente mais cara do que a mesma mercadoria vendida oficialmente no varejo brasileiro, mesmo com o preço de etiqueta mais baixo em Ciudad del Este. Antes de decidir, é essencial calcular o preço final com todos os impostos, além de considerar prazo de entrega e garantia: produtos comprados fora do Brasil costumam ter suporte e garantia mais limitados por aqui, um ponto a menos em relação à compra em uma loja nacional autorizada. A modalidade representa, acima de tudo, uma nova alternativa logística que pode beneficiar nichos específicos, mas exige do consumidor uma análise criteriosa de custo-benefício.

