A Amazon adicionou ao seu aplicativo de compras uma funcionalidade que, no mínimo, levanta sobrancelhas: a exibição de imagens geradas por inteligência artificial de produtos que simplesmente não existem. Chamada de Visual Suggestions, a novidade entra na categoria de ferramentas que tentam adivinhar o que o consumidor quer antes mesmo que ele saiba descrever – mas, neste caso, a ponte entre o desejo e a realidade é construída com dados sintéticos. A partir de agora, ao digitar termos na barra de busca do app nos Estados Unidos, o usuário pode se deparar com sugestões visuais de artigos fictícios, criados em tempo real por IA, que servem como atalho para produtos reais similares. A decisão representa um dos passos mais ousados e controversos da empresa em sua estratégia de incorporar inteligência artificial a todos os pontos de contato com o cliente.
O que é o Visual Suggestions e como ele funciona na prática
No dia 3 de junho de 2025, a Amazon atualizou seu aplicativo de compras com o recurso Visual Suggestions – ou Sugestões Visuais, em tradução livre. A mecânica é direta: o usuário começa a digitar um termo na barra de busca, e abaixo das sugestões de preenchimento automático, surgem imagens geradas por inteligência artificial em tempo real. A cada caractere adicionado, a imagem se altera para refletir a nova consulta. Ao tocar em uma dessas imagens, o sistema redireciona o consumidor para os resultados de busca de produtos reais que mais se aproximam visualmente da sugestão apresentada.
A explicação oficial da empresa é que o recurso foi pensado para situações em que o cliente tem uma ideia visual clara do que quer, mas não sabe o nome técnico do produto. Um exemplo clássico: um consumidor quer uma blusa com gola alta e detalhes em babado, mas não encontra as palavras certas para descrever o modelo. Em vez de ficar tentando combinações genéricas, ele vê uma imagem gerada por IA que materializa seu desejo abstrato e, a partir dela, navega para ofertas reais.
Por enquanto, o recurso está limitado a duas categorias – Moda e Casa – e disponível apenas na versão americana do aplicativo para iOS e Android. A Amazon não informou previsão para expandir a funcionalidade para outros mercados, incluindo o Brasil.
Por que a Amazon está mostrando imagens de produtos que não existem
A decisão de inserir imagens fictícias na jornada de compra carrega uma contradição estrutural. O catálogo da Amazon conta com bilhões de produtos reais, cada um acompanhado de fotos legítimas. Tecnicamente, não seria impossível usar essas imagens reais como sugestões visuais – a empresa dispõe de dados e infraestrutura para mapear o estoque e sugerir fotos autênticas. Em vez disso, optou por criar algo que não existe para guiar o cliente até algo que existe.
Esse caminho gera dois problemas imediatos. O primeiro é o risco de confusão. Nem todo usuário vai entender que aquela imagem estilizada na barra de busca não é um produto real à venda, mas uma ilustração gerada por algoritmo. Tocar na imagem esperando encontrar exatamente o que viu e deparar com “itens similares” pode gerar frustração, não satisfação. Em um ambiente onde a confiança visual sempre foi um pilar da decisão de compra, introduzir imagens que não correspondem a nenhum SKU concreto é um desvio significativo.
O segundo problema é de ordem conceitual: a Amazon está usando a expectativa gerada por uma imagem falsa para direcionar o tráfego para produtos reais. Durante décadas, as fotos em um e-commerce funcionaram como uma promessa – “isto é o que você vai receber”. As imagens geradas por IA quebram essa promessa. O aviso de que a imagem é “apenas uma sugestão e não um produto real” pouco faz para reparar a dissonância cognitiva de ver algo belo e descobrir que não está à venda.
A ofensiva de IA da Amazon: de Rufus a Alexa for Shopping
O Visual Suggestions não é uma iniciativa isolada, mas parte de uma ofensiva coordenada da Amazon para integrar inteligência artificial em cada etapa da experiência de compra. A empresa vem remodelando seu aplicativo em ritmo acelerado, e o histórico recente deixa clara a direção.
| Data | Funcionalidade | Descrição |
|---|---|---|
| Agosto de 2023 | Resumo de reviews com IA | IA resume avaliações de produtos, destacando prós e contras |
| Fevereiro de 2024 | Rufus (versão beta) | Chatbot generativo para auxiliar na busca e comparação de produtos |
| Outubro de 2024 | Visual Suggestions (primeira versão) | Sugestões visuais com imagens de produtos reais na busca |
| Maio de 2025 | Resumo de produtos em áudio com IA | Highlights de produtos narrados em formato de podcast curto |
| Setembro de 2025 | Amazon Lens Live | Câmera ao vivo identifica produtos em tempo real |
| 13 de maio de 2026 | Alexa for Shopping | Rufus é descontinuado e integrado ao Alexa+ |
| 3 de junho de 2026 | Visual Suggestions com IA generativa | Sugestões visuais passam a usar imagens de produtos fictícios |
O movimento mais recente antes do Visual Suggestions foi a integração do chatbot Rufus ao novo Alexa for Shopping, em maio de 2026. O Rufus, antes um assistente separado dentro do app, foi absorvido pela própria barra de busca, permitindo que o usuário fizesse perguntas complexas, consultasse histórico de preços, comparasse produtos e até configurasse compras automáticas. A diferença entre o chatbot e a novidade das imagens sintéticas é que o primeiro operava no campo das sugestões textuais e análises, enquanto o segundo mexe diretamente na representação visual do catálogo.
Outras funcionalidades visuais também foram reforçadas nesta mesma atualização, como o Amazon Lens Live, que permite apontar a câmera do celular para um objeto e encontrar produtos similares em tempo real; a possibilidade de iniciar o Lens diretamente da tela de bloqueio do iPhone; e a reprodução de vídeos de produtos nos resultados de busca. Segundo a empresa, o volume de buscas visuais no aplicativo cresceu 70% ano a ano, o que justifica o investimento pesado nessa frente.
O que significa colocar imagens fictícias na jornada de compra
Dentre todas as funções de IA que a Amazon implementou nos últimos três anos, o Visual Suggestions com imagens geradas por inteligência artificial é a que mais mexe com a confiança do consumidor. Resumos de reviews, comparações automáticas e assistentes de voz são ferramentas que economizam tempo e agregam informação. Já a criação de imagens de produtos que não existem toca em um nervo sensível: a relação entre o que se vê e o que se compra.
A Amazon argumenta que o recurso amplia as possibilidades de descoberta, especialmente para quem não domina o vocabulário técnico de moda ou decoração. É um argumento válido – quantas vezes um consumidor já procurou por “aquele vestido com um detalhe diferente na manga” sem sucesso? O problema é que a solução encontrada substitui a realidade por uma simulação. Em vez de ensinar o cliente a encontrar o que existe, a empresa cria o que não existe para ver se ele se interessa.
Não há data para a chegada da funcionalidade ao Brasil, mas o histórico sugere que é questão de tempo. Quando isso acontecer, caberá ao consumidor brasileiro aprender a distinguir, em milissegundos, se a imagem que apareceu na tela representa um produto real ou uma sugestão de IA. A linha entre inspiração e engano, no varejo online, nunca foi tão tênue.

