Parlamento britânico recomenda cancelamento de contrato da Palantir com NHS

Comissão do parlamento britânico classifica a dependência do NHS em relação à Palantir como um ponto de fraqueza inaceitável e recomenda a rescisão do contrato.

Relatório do parlamento britânico pede o fim do contrato de £330 milhões entre Palantir e NHS até fevereiro de 2027.
Destaques
  • O relatório da comissão de Ciência, Inovação e Tecnologia recomendou o cancelamento do contrato de £330 milhões da Palantir com o NHS.
  • A Palantir entrou no NHS durante a pandemia de Covid-19 com um contrato simbólico de £1.
  • A decisão final sobre a rescisão do contrato será tomada pelo governo britânico até o fim de 2026.

O parlamento britânico deu um passo concreto em direção ao rompimento de um dos contratos de tecnologia mais controversos da atualidade. Um relatório da comissão de Ciência, Inovação e Tecnologia da Câmara dos Comuns, publicado em 3 de junho, classifica a presença crescente da Palantir no setor público do Reino Unido como um “ponto de fraqueza inaceitável” e recomenda que o governo rescinda o acordo de £330 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões) com a gigante americana de análise de dados. O alvo central é o contrato com o NHS (Serviço Nacional de Saúde britânico), mas a crítica se estende a uma teia de negócios que envolve o Ministério da Defesa e forças policiais, revelando uma dependência estrutural que, para os parlamentares, representa um risco à soberania nacional.

“Ponto de fraqueza inaceitável”: a crítica da comissão

A comissão parlamentar não ataca a qualidade técnica do software da Palantir, mas sim o modelo de dependência criado. O relatório alerta que a infraestrutura de dados do NHS, a maior base de informações médicas do mundo, está nas mãos de uma única empresa estrangeira cujos principais clientes são o Exército dos EUA, a CIA e o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos). O formato do contrato agrava a situação: trata-se de um modelo de “subscription” (assinatura) no qual, ao final do acordo, nem o software nem a propriedade intelectual ficam com o governo britânico. Tudo sai, e o NHS fica sem linha de código.

A presidente da comissão, a deputada Dame Chi Onwurah, foi direta: “O vendor lock-in não é inevitável. O Reino Unido deve buscar soberania tecnológica em áreas críticas do setor público.” O relatório recomenda que o governo exerça a cláusula de rescisão intermediária do contrato, prevista para fevereiro de 2027, e migre para um sistema desenvolvido por empresas britânicas ou para uma solução interna (in-house).

Como a Palantir entrou no NHS – e por que o contrato é tão crítico

A relação entre a Palantir e o NHS começou durante a pandemia de Covid-19, em 2020. A empresa ofereceu suas ferramentas de análise de dados por um valor simbólico de £1 (cerca de R$ 7,50), abrindo as portas do sistema de saúde britânico. A partir daí, sem qualquer licitação competitiva, a Palantir acumulou mais de £60 milhões (aproximadamente R$ 455 milhões) em contratos relacionados à pandemia.

O grande prêmio, porém, veio em novembro de 2023: o contrato de £330 milhões para a Plataforma Federada de Dados (Federated Data Platform, ou FDP). O acordo tem duração de 7 anos, estruturado no formato 3+2+1+1, com a primeira janela de rescisão em fevereiro de 2027. A FDP foi concebida para integrar e analisar dados médicos de todo o país, cruzando informações de hospitais, clínicas e centros de saúde. O consórcio vencedor é liderado pela Palantir, com participação da Accenture e da PwC.

Desde o início, o contrato gerou forte oposição. A Associação Médica Britânica (BMA) e especialistas em segurança cibernética levantaram bandeiras vermelhas sobre a privacidade dos dados dos pacientes e a falta de transparência no processo de licitação. O NHS England defende o acordo, afirmando que a plataforma já trouxe benefícios mensuráveis, como redução de filas de espera e otimização de leitos. Mas a comissão parlamentar não se convenceu.

Para entender o tamanho da encrenca, vale a pena ver a cronologia dos eventos:

Linha do tempo: Palantir no Reino Unido
Março de 2020
Entrada no NHS por £1
Ferramentas de análise de dados oferecidas a preço simbólico durante a pandemia.
2020 a 2023
Contratos de pandemia: £60 mi+
Múltiplos contratos sem licitação para análise de dados da Covid-19.
Novembro de 2023
Contrato FDP: £330 mi
Plataforma Federada de Dados do NHS, 7 anos em consórcio.
Fevereiro de 2025
Primeiro-ministro visita sede da Palantir
Keir Starmer se reúne com CEO Alex Karp em Washington; encontro não constou da agenda oficial.
Dezembro de 2025
Min. Defesa contrata £240,6 mi
Contrato direto sem licitação para análise de dados de defesa.
Maio de 2026
Prefeito de Londres barra contrato policial
Sadiq Khan rejeita acordo de até £50 mi da Polícia Metropolitana com a Palantir.
Comissão parlamentar recomenda rescisão
Relatório pede uso da cláusula de saída em fevereiro de 2027 e transição para fornecedores nacionais.

Não é só o NHS: Palantir no Ministério da Defesa e na polícia

A presença da Palantir no governo britânico vai muito além da saúde. Em dezembro de 2025, o Ministério da Defesa (MoD) concedeu à empresa um contrato de £240,6 milhões (cerca de R$ 1,8 bilhão) para análise de dados, também sem licitação, usando a exceção de segurança nacional. O valor é próximo ao do próprio NHS, e o processo está sendo questionado no parlamento.

Na esfera local, o prefeito de Londres, Sadiq Khan, interveio pessoalmente em maio de 2026 para barrar um contrato de até £50 milhões (aproximadamente R$ 380 milhões) entre a Polícia Metropolitana de Londres e a Palantir. A justificativa foi a “falta de transparência no processo de aquisição” – a polícia teria negociado exclusivamente com a Palantir, sem considerar outras empresas.

A situação dos contratos públicos com a Palantir no Reino Unido pode ser resumida em um gráfico de magnitude:

Contratos da Palantir no setor público britânico (valores em £)
NHS (FDP) – £330 miDefesa – £240,6 miPolícia – £50 mi (barrado)svgsvgsvg
* Conversão aproximada: £1 ≈ R$ 7,60. Contrato da Polícia Metropolitana barrado em maio de 2026.

Por que o contrato do NHS é considerado um risco à segurança nacional

O relatório da comissão não mede palavras: “A ambição do governo em relação à digitalização está sempre sujeita a ser prejudicada por decisões tomadas no exterior, com base nos interesses comerciais ou nacionais de entidades estrangeiras.” O problema não é a Palantir em si, mas a estrutura de dependência criada. Com uma base de dados médicos de 65 milhões de cidadãos sob uma plataforma de propriedade de uma empresa americana com estreitos laços com o complexo de inteligência dos EUA, o governo britânico perde o controle sobre uma infraestrutura crítica.

Para o leitor brasileiro, a situação oferece um paralelo relevante. O Brasil também discute a digitalização do SUS e a gestão de dados de saúde. A diferença é que o Reino Unido já viveu na prática os riscos de terceirizar essa infraestrutura para uma empresa estrangeira com perfil político explícito. O cofundador da Palantir, Peter Thiel, chamou o apego dos britânicos ao NHS de “síndrome de Estocolmo” e disse que o serviço “deixa as pessoas doentes” e deveria ser “arrancado do solo”. As declarações foram feitas em 2023, exatamente durante a disputa pelo contrato milionário.

Alex Karp, CEO da Palantir, também não esconde suas posições. A empresa já foi acusada de violações de privacidade e de fornecer tecnologia para operações de imigração controversas nos EUA. A combinação de um serviço público essencial com uma empresa de perfil ideológico agressivo e vínculos com a defesa americana acendeu todos os alertas no parlamento britânico.

O papel de Peter Mandelson e o lobby político

O relatório da comissão também menciona o papel de Peter Mandelson, ex-embaixador do Reino Unido nos EUA. Mandelson cofundou a Global Counsel, uma empresa de consultoria que teve a Palantir como cliente. Em fevereiro de 2025, durante uma viagem a Washington, o primeiro-ministro Keir Starmer visitou a sede da Palantir e se reuniu com Alex Karp. O encontro não constou da agenda oficial do premiê, o que gerou críticas no parlamento sobre a influência do lobby na política britânica.

Em fevereiro de 2026, a Global Counsel entrou em colapso após um escândalo envolvendo a relação de Mandelson com Jeffrey Epstein. Mas a rede de contatos e contratos já estava consolidada. A comissão parlamentar deixou claro que a “teia de relacionamentos entre a Palantir e antigos altos funcionários do governo” é um fator que compromete a transparência das decisões.

O que vem por aí: decisão sobre rescisão sai até o fim do ano

Apesar da dureza do relatório, a recomendação da comissão não tem força de lei. O governo britânico tem a obrigação de responder formalmente em até 60 dias, mas não é obrigado a segui-la. O Ministro da Saúde e Previdência Social, Zubir Ahmed, declarou que a decisão sobre renovar ou rescindir o contrato será tomada “até o fim deste ano”. Com a primeira janela de rescisão em fevereiro de 2027, 2026 é, na prática, o ano decisivo.

A Palantir, por meio de seu diretor para o Reino Unido, Louis Mosley, reagiu ao relatório classificando-o como “política colocada acima do serviço público” e defendeu que sua tecnologia já trouxe melhorias concretas ao NHS. O NHS England também saiu em defesa do contrato, afirmando que a FDP “trouxe benefícios significativos aos pacientes”.

Mas a maré política parece estar mudando. O comboio de contratos – NHS, Defesa, Polícia de Londres barrada, e o caso Mandelson – deixou de ser tratado como uma série de episódios isolados e passou a ser visto como um problema estrutural. O relatório da comissão de Ciência, Inovação e Tecnologia é o primeiro documento oficial a dar nome e sobrenome a essa percepção. A decisão sobre a rescisão do contrato do NHS será um teste decisivo para a soberania digital britânica – e um sinal para outros países que observam de perto o caso.

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