Em uma conversa exclusiva, Aquiles Priester, baterista cujo nome é sinônimo de técnica e precisão no heavy metal mundial, desvendou as bases sonoras de sua trajetória. Mais do que uma lista de preferências, a seleção apresentada pelo músico, que passou por bandas como Angra e Hangar, é um mapa da sua formação artística, apontando as obras que, literalmente, moldaram seu destino profissional e sua identidade por trás do kit.
O rock nacional como ponto de partida fundamental
A primeira escolha de Priester é, na verdade, um dueto de discos que representam a semente de toda sua jornada. Ele pede para considerar como uma única entrada os álbuns ‘O Passo do Lui’, dos Paralamas do Sucesso, e ‘Nós Vamos Invadir a Sua Praia’, do Ultraje a Rigor. Para o baterista, esses trabalhos foram os responsáveis pelo despertar inicial. “Foram os dois discos que me fizeram me interessar por música e por bateria”, afirmou. Essa fase crucial mostra que, antes da complexidade técnica do metal, foi o ritmo e a energia do rock brasileiro dos anos 80 que capturou sua atenção e o colocou no caminho dos instrumentos.
O momento decisivo com o Iron Maiden
Se o rock nacional plantou a semente, foi um disco específico de heavy metal que determinou o rumo da vida de Aquiles Priester. Ao citar ‘Somewhere in Time’, do Iron Maiden, lançado em 1986, o músico não mede palavras: a obra “mudou sua vida”. Ele relembra o impacto transformador: “Eu falei: ‘É isso que eu quero fazer da minha vida. Eu quero tocar heavy metal, quero viajar o mundo inteiro com a minha banda’. E foi exatamente isso que eu fiz.” O disco, famoso pela inovação sonora e pelas linhas de baixo melódicas da banda britânica, representou mais do que inspiração musical; foi uma epifania profissional que definiu seus objetivos de forma concreta e inabalável.
A porta de entrada técnica aberta pelo Sepultura
A evolução para um nível técnico superior veio com o terceiro álbum de estúdio do Sepultura. Ao eleger ‘Beneath the Remains’, Priester faz uma homenagem direta ao baterista Iggor Cavalera, a quem credita uma influência monumental no metal global. “O Iggor é inquestionável… foi o cara que abriu as portas para todos os bateras que tocam metal. Não tem como dizer qualquer outra coisa”, declarou. O disco, um marco do thrash/death metal, apresentou uma ferocidade rítmica e uma abordagem percussiva que expandiu os limites do gênero, servindo como um manual de estudo e referência obrigatória para bateristas que buscavam agressividade e precisão.
A busca pela excelência e velocidade extrema
O caminho rumo ao virtuosismo levou Priester a discos que são verdadeiros tratados de técnica. Ele cita ‘Second Heat’, do Racer X, destacando o trabalho “absurdo” de Scott Travis. O álbum, repleto de speed metal e passagens de bateria frenéticas, estabeleceu um novo patamar para o que era considerado possível em termos de velocidade e clareza no instrumento. Para um músico em formação, ouvir aquelas performances foi como descobrir um novo universo de possibilidades técnicas, incentivando a prática obsessiva e o domínio do controle sobre o kit em altíssima velocidade.
O poder da bateria como elemento central
A última escolha revela uma lição fundamental sobre o papel da bateria numa composição. Priester cita ‘Infra-Blue’, um disco solo do guitarrista Joey Tafoya. A justificativa, porém, está toda no baterista: Deen Castronovo. “Parece que é um disco de baterista tamanha a atuação do Deen Castronovo. Um absurdo”, elogiou. Essa seleção demonstra que, para Priester, a grandeza de um baterista pode transcender o gênero e até mesmo o protagonismo nominal em um projeto. A capacidade de Castronovo de criar partes memoráveis, dinâmicas e cheias de personalidade em um álbum de guitarrista serviu como um estudo avançado em musicalidade, mostrando como o instrumento pode ser a espinha dorsal e a alma de qualquer trabalho.
A síntese de uma identidade musical
Ao final de sua lista, Aquiles Priester oferece um veredito sobre a coleção de álbuns: “Esses discos não têm erro: se você ouvir qualquer um deles, você vai entender a importância que eles têm na influência do meu trabalho como baterista.” A afirmação é um testemunho de como uma carreira é construída sobre pilares distintos. Do deslumbramento inicial com o rock brasileiro à epifania profissional com o Iron Maiden, passando pelas lições de ferocidade do Sepultura, pela busca da velocidade máxima com o Racer X e pela masterclass em musicalidade com Deen Castronovo, cada disco representou um capítulo essencial. Juntos, eles formam não apenas o gosto musical de Priester, mas o DNA de seu estilo único – uma fusão de energia visceral, precisão técnica implacável e uma profunda compreensão do papel da bateria como força motriz e narrativa dentro da música.
A trajetória de Aquiles Priester, portanto, pode ser rastreada nesta curadoria pessoal. Mais do que influências, são os marcos que o transformaram de um jovem ouvinte em um dos bateristas mais respeitados do planeta. Sua história ecoa em cada batida, uma soma complexa e poderosa de todas essas sonoridades que, um dia, mudaram não apenas sua forma de tocar, mas o curso de sua vida.

