A AWS Startups está organizando uma imersão estratégica em Londres para oito healthtechs brasileiras, com o objetivo central de acelerar a internacionalização dessas empresas e aprofundar a adoção de inteligência artificial generativa no setor de saúde. A iniciativa, intitulada Brazilian HealthTech Immersion: London Edition, ocorrerá entre os dias 8 e 12 de junho, paralelamente à London Tech Week, e contará com a participação de 23 executivos de startups como Beep Saúde, Conexa, Intuitive Care, GestãoDS, StaryaAI, Nuria, Livance e Doutor-AI. A escolha de Londres como destino não é aleatória: a cidade é um dos principais hubs globais de tecnologia em saúde, e o sistema público de saúde britânico, o NHS, é referência mundial em digitalização e uso de dados.
O amadurecimento das healthtechs brasileiras como combustível para a expansão global
De acordo com Karina Lima, head de Startups da AWS Brasil, o segmento de saúde foi selecionado para esta missão justamente por ter atingido um nível de maturidade que viabiliza a ambição de escalar para novos mercados. “As healthtechs amadureceram muito nos últimos anos. A inteligência artificial generativa acelerou significativamente esse movimento, principalmente em um setor altamente regulado e com grande volume de dados. Hoje, essas empresas estão olhando para escalabilidade, eficiência operacional e expansão de mercado”, afirma a executiva. Essa análise reflete uma tendência observada no ecossistema brasileiro, onde startups de saúde deixaram de ser vistas apenas como soluções pontuais para se tornarem plataformas robustas, capazes de competir globalmente.
A AWS, nesse contexto, busca atuar como um parceiro de negócios além da infraestrutura de nuvem. “O nosso papel é ser um parceiro de negócio. Não é apenas fornecer tecnologia, mas ajudar os fundadores a entenderem como escalar suas empresas, acessar novos mercados e utilizar as ferramentas disponíveis para resolver problemas reais dos seus clientes”, diz Karina. A programação foi estruturada para combinar discussões sobre tecnologia, modelos de negócio e as particularidades do sistema de saúde britânico. Os empreendedores participarão de workshops baseados na metodologia “Working Backwards”, usada pela Amazon para desenvolver produtos a partir das necessidades dos clientes, um contraponto interessante ao desenvolvimento orientado por tecnologia.
IA generativa e dados: o verdadeiro combustível da transformação na saúde
Um dos pilares da imersão é justamente explorar como a inteligência artificial generativa pode ser aplicada em um setor que lida com volumes imensos de dados sensíveis e processos altamente regulados. Karina Lima destaca que a tecnologia para estruturar e processar essas informações já está disponível, mas o gargalo continua sendo a qualidade e a organização dos dados. “Os dados continuam sendo um dos maiores ativos do setor. A tecnologia atual permite estruturar essas informações de forma muito mais rápida e eficiente, mas é preciso investir nessa base para que a inteligência artificial gere resultados consistentes. Sem dados organizados, não existe aplicação eficiente de IA”, afirma a executiva.
Essa observação é crucial para o mercado. Enquanto muitas empresas correm para implementar soluções de IA generativa, a AWS está sinalizando que o verdadeiro diferencial competitivo virá de quem conseguir estruturar, limpar e governar seus dados de forma eficaz. Durante a missão, os participantes terão a oportunidade de compreender como o Reino Unido utiliza tecnologia e dados para aprimorar os serviços de saúde, desde a gestão de prontuários até a análise preditiva de surtos e a personalização de tratamentos.
O que é a metodologia “Working Backwards” e como ela se aplica às healthtechs?
A metodologia “Working Backwards” é um framework de desenvolvimento de produtos utilizado pela Amazon que inverte a lógica tradicional de criação. Em vez de começar pela tecnologia ou por uma ideia de produto, o processo parte da definição da experiência do cliente. Primeiro, escreve-se um comunicado à imprensa fictício anunciando o produto final, descrevendo o problema que ele resolve e como ele transforma a vida do cliente. A partir daí, são criadas as “FAQ” (perguntas frequentes) hipotéticas e, finalmente, um documento de especificação detalhado. Para as healthtechs brasileiras, a aplicação desse método pode significar o desenvolvimento de soluções mais aderentes às dores reais dos pacientes e profissionais de saúde, tanto no Brasil quanto em novos mercados como o Reino Unido.
O sistema de saúde britânico como laboratório de inovação
A agenda da Brazilian HealthTech Immersion vai além dos workshops e mentorias técnicas. A programação inclui visitas para conhecer o funcionamento do sistema de saúde britânico, com foco em entender como a inovação é incorporada, como os dados são tratados e quais são as demandas da população local. “Queremos que eles entendam não apenas as tecnologias utilizadas, mas também como funciona o ecossistema de saúde local, quais são as demandas da população, como os dados são tratados e de que forma a inovação é incorporada ao sistema”, explica Karina.
Para startups que buscam internacionalização, compreender o ambiente regulatório e as particularidades culturais do sistema de saúde de um país é tão importante quanto a tecnologia em si. O NHS, por exemplo, possui um ecossistema de inovação aberto, mas com regras rigorosas de privacidade e segurança de dados, algo que as healthtechs brasileiras já enfrentam no mercado nacional devido à LGPD. Esse paralelo pode facilitar a adaptação das soluções brasileiras ao ambiente britânico.
Multiplicação do conhecimento e o futuro do ecossistema
Após o retorno ao Brasil, a AWS pretende promover um encontro para compartilhar os aprendizados da missão com outros empreendedores e agentes do ecossistema. A ideia é que os participantes não sejam apenas beneficiários da experiência, mas atuem como multiplicadores do conhecimento adquirido durante a imersão. Essa estratégia visa amplificar o impacto da iniciativa, permitindo que as práticas observadas em Londres inspirem uma parcela maior do ecossistema de healthtechs brasileiro.
Para Karina Lima, o momento é especialmente oportuno para as startups brasileiras de saúde. “O Brasil construiu um ecossistema de healthtechs bastante relevante. Nosso objetivo é ajudar essas empresas a transformar conhecimento, tecnologia e inovação em impacto para pacientes, profissionais de saúde e para o próprio sistema”, conclui. A mensagem é clara: a internacionalização e a adoção de inteligência artificial generativa não são mais opções distantes, mas sim movimentos estratégicos imediatos para as healthtechs que desejam escalar e competir em um mercado global cada vez mais orientado por dados e eficiência operacional.
