A disputa em torno do conceito de soberania digital na Europa ganhou um novo capítulo. A The Document Foundation (TDF), mantenedora do LibreOffice, publicou uma carta aberta endereçada diretamente aos usuários de suítes de escritório, às vésperas do lançamento do Euro-Office. O alvo da crítica não é a tecnologia empregada pelo concorrente, mas a apropriação do discurso de “primeiro software de escritório open source europeu” e, principalmente, a escolha do formato de arquivo padrão do Euro-Office: o OOXML, da Microsoft. Para a TDF, a iniciativa representa um retrocesso na luta pela independência digital do continente.
A alegação de “primeiro da Europa” é factualmente imprecisa
No dia 8 de junho, o membro do conselho da TDF, Italo Vignoli, tornou pública uma carta aberta. O documento foi divulgado na véspera do lançamento do Euro-Office, que se apresenta como “o primeiro software de escritório open source desenvolvido na Europa”. A TDF rebate afirmando que essa primazia já pertence a projetos anteriores: o OpenOffice.org, lançado em 2001, e o próprio LibreOffice, que surgiu em 2010 a partir de um fork do OpenOffice.org. Ambos foram criados e são mantidos por comunidades europeias.
Se o assunto é soberania digital na Europa, essa conquista é fruto do trabalho da The Document Foundation e da comunidade LibreOffice. Enquanto muitos previam o colapso do software de escritório livre, fomos nós que mantivemos a bandeira erguida e continuamos a desenvolver o único formato verdadeiramente aberto e padronizado.
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A carta questiona ainda o que os now defensores da soberania digital estavam fazendo em 2006, quando o formato ODF (Open Document Format) foi padronizado como ISO/IEC 26300 — um marco que, para a TDF, representa a base real da independência em relação a fornecedores.
O cerne do problema: o formato OOXML como padrão do Euro-Office
O Euro-Office é uma suíte baseada no OnlyOffice, desenvolvida por uma coalizão de empresas europeias como Nextcloud, IONOS, Proton e Tuta. A proposta é oferecer uma alternativa ao Microsoft 365 e ao Google Workspace, com edição colaborativa em tempo real via navegador. No entanto, a TDF aponta uma contradição fundamental: o formato de arquivo nativo do Euro-Office é o OOXML (.docx, .xlsx, .pptx), desenvolvido e controlado pela Microsoft.
A TDF argumenta que, mesmo que os servidores estejam na Europa, o poder de decisão sobre a estrutura dos arquivos continua nas mãos de uma empresa americana. “É como trocar a cadeia, mas manter o dono da chave”, resume a carta. Enquanto isso, o LibreOffice adota como formato nativo o ODF, que é um padrão aberto e independente de qualquer fornecedor, gerenciado pelo OASIS e pela ISO. O LibreOffice também oferece suporte a OOXML para leitura e escrita, mas sem depender dele como formato principal.
| Euro-Office | LibreOffice | Microsoft 365 | |
|---|---|---|---|
| Formato nativo | OOXML | ODF | OOXML |
| Suporte a ODF | Importação/exportação apenas | Nativo e completo | Importação/exportação apenas |
| Suporte a OOXML | Nativo e completo | Importação/exportação | Nativo e completo |
| Controle do formato | Microsoft | OASIS / ISO | Microsoft |
| Sede do desenvolvedor | Europa (Alemanha e outros) | Europa (Alemanha) | Estados Unidos |
| Licença do código | AGPLv3 (fork do OnlyOffice) | MPL 2.0 | Proprietária |
Uma rivalidade que começou antes do lançamento
A troca de farpas entre a TDF e o Euro-Office não é recente. Logo após o anúncio do projeto, em março, em Berlim, a TDF pediu publicamente que o Euro-Office adotasse o ODF como formato padrão. O pedido não foi atendido. Em abril, a TDF publicou outra carta aberta classificando o Euro-Office como “um aliado de fato da Microsoft”. A situação se agravou quando a Ascensio System, desenvolvedora original do OnlyOffice, rompeu a parceria de oito anos com o Nextcloud, alegando que a remoção de logotipos e atribuições violava os termos da AGPLv3. Em maio, o CEO do Nextcloud, Frank Karlitschek, afirmou que um acordo havia sido alcançado, mas a Ascensio negou, deixando o impasse em aberto. O Euro-Office foi lançado mesmo assim, em versão 1.0, no dia 9 de junho.
Soberania de fachada ou soberania real?
O Euro-Office aposta na familiaridade com o ecossistema Microsoft para facilitar a migração de organizações que já utilizam OOXML. A proposta é prática: reduzir o atrito da transição. Já a TDF defende que a verdadeira soberania só é alcançada quando o formato de arquivo também é independente. Para a fundação, manter o OOXML como padrão significa perpetuar a dependência de uma empresa que dita as regras do formato — mesmo que o software seja executado em servidores europeus.
A decisão sobre qual caminho faz mais sentido para governos e empresas do continente será testada na prática. O Euro-Office está disponível no GitHub e promete aplicativos desktop e mobile para o segundo semestre. O debate, no entanto, já expõe uma fratura no movimento europeu por soberania digital: a diferença entre trocar o invólucro e mudar o conteúdo.

