A corrida por uma suíte de escritório europeia, independente dos gigantes americanos, ganhou um marco concreto: o Euro-Office, um fork do OnlyOffice mantido por um consórcio de empresas do continente, terá sua versão 1.0 estável lançada em 9 de junho de 2026 no GitHub. Mais do que um software, o projeto personifica a tensão entre soberania digital, dependência tecnológica e os desafios práticos de substituir ecossistemas consolidados como Microsoft 365 e Google Workspace em governos e setores regulados.
Euro-Office: o que é e quem está por trás do projeto
O Euro-Office nasceu da união de dezenas de empresas e entidades europeias, tendo como núcleo a IONOS (gigante alemã de cloud hosting) e a plataforma de colaboração Nextcloud. O consórcio inclui ainda EuroStack, XWiki, OpenProject, Soverin, Abilian, BTactic, Open-Xchange e Office.eu, entre outros. O anúncio oficial foi feito em Berlim em 27 de março de 2026, com uma prévia técnica liberada no mesmo dia. A versão 1.0 chega em 9 de junho, integrada ao Nextcloud Hub 26 Spring – clientes da IONOS Managed Nextcloud poderão instalá-la imediatamente. A implantação no Nextcloud Workspace está prevista para o verão europeu, enquanto parceiros como XWiki (França) e Office.eu (Holanda) devem adotar a solução ao longo de 2026.
A suíte oferece editores web para documentos, planilhas e apresentações com suporte a edição colaborativa em tempo real. A compatibilidade com formatos Microsoft (DOCX, XLSX, PPTX) é um dos principais argumentos de venda, e a interface foi desenhada para que usuários do Microsoft 365 não estranhem o visual. Versões para desktop e mobile estão prometidas para o verão europeu, com suporte a salvamento local e sincronização com armazenamento em nuvem, segundo o CEO da Nextcloud, Frank Karlitschek.
Por que a Europa se mexeu agora: o contexto geopolítico da soberania digital
O Euro-Office não surgiu no vácuo. Desde 2025, acelerou-se na Europa um movimento de “desvinculação da dependência tecnológica americana”, impulsionado por preocupações com segurança de dados e riscos geopolíticos, especialmente após mudanças no cenário político dos Estados Unidos. A França anunciou em abril de 2026 a migração dos sistemas operacionais de seus órgãos governamentais de Windows para Linux, e já substituiu Teams e Zoom pela plataforma nacional Visio, com conclusão prevista para 2027. O estado alemão de Schleswig-Holstein está trocando Microsoft Office por LibreOffice, e a Dinamarca anunciou plano similar. A cidade de Lyon também avança na substituição de Windows + Office por Linux + soluções open source.
O termo que unifica essas ações é “soberania digital” – a preocupação em não deixar dados sensíveis nas mãos de empresas estrangeiras sob jurisdição de outros países. A Nextcloud reportou que 2025 foi um ano de virada: os leads para suas soluções cresceram 3 vezes em relação ao ano anterior, e mais de 2 milhões de novos usuários foram registrados.
Movimentos de migração na Europa: uma visão geral
| País/Região | Escopo | Substituto | Prazo |
|---|---|---|---|
| França | SO governamental | Linux | Plano em 2026 |
| França | Videoconferência (Teams/Zoom) | Visio (nacional) | 2027 |
| Alemanha (Schleswig-Holstein) | Microsoft Office | LibreOffice | Em andamento |
| Dinamarca | Microsoft Office/365 | LibreOffice | Anunciado |
| Lyon (França) | Windows + Office | Linux + OnlyOffice etc. | Em andamento |
É nesse caldo de insatisfação e movimento concreto que o Euro-Office surge como uma tentativa de oferecer uma alternativa única, coordenada e mantida por um consórcio empresarial europeu, em vez de cada governo escolher sua própria substituição de forma isolada.
O fork do OnlyOffice: problemas de licenciamento e transparência
O Euro-Office não foi escrito do zero. Ele é um fork do OnlyOffice, software mantido pela Ascensio System SIA (registrada na Letônia, mas com equipe de desenvolvimento majoritariamente na Rússia, segundo o próprio repositório do Euro-Office). A decisão de bifurcar o código foi motivada por uma insatisfação crescente com a governança do OnlyOffice: contribuições externas eram “impossíveis ou extremamente difíceis”, os processos de build eram “não confiáveis, antigos ou quebrados”, e mudanças de funcionalidades (como limitação da edição mobile e remoção de painéis de administração) eram feitas sem comunicação com a comunidade.
Três dias após o anúncio do Euro-Office, a OnlyOffice reagiu, alegando violação de licença. O código do OnlyOffice é distribuído sob AGPL v3, mas desde maio de 2021 inclui condições adicionais na seção 7, que exigem a manutenção da marca e atribuição. O Euro-Office removeu essas cláusulas, argumentando que não têm validade jurídica por não serem parte integrante da AGPL. A OnlyOffice classificou a remoção como “legalmente infundada” e suspendeu a parceria de 8 anos com a Nextcloud, que integrava o OnlyOffice como editor padrão. A briga só foi “resolvida” no fim de maio, com a adição de atribuição no Euro-Office, mas o restabelecimento total da parceria não foi confirmado.
Críticas da LibreOffice: a guerra dos formatos
Se a briga com a OnlyOffice foi sobre licenciamento, a crítica mais incisiva veio de outro quartel: a The Document Foundation (TDF), mantenedora do LibreOffice. Em carta aberta, a TDF questionou a soberania real do Euro-Office, apontando que ao priorizar a compatibilidade com os formatos Microsoft (OOXML – .docx, .xlsx), o projeto continua refém de uma especificação controlada por uma empresa americana. “O servidor pode estar na Europa, mas o lock-in permanece em Redmond”, argumenta a fundação.
Para a TDF, verdadeira soberania digital exige o uso do formato ISO padrão ODF (Open Document Format). Embora o repositório do Euro-Office mencione suporte a ODF, o FAQ e a comunicação oficial focam quase exclusivamente na compatibilidade com Microsoft. O CEO da Nextcloud, Frank Karlitschek, afirmou no fim de maio que o suporte completo a ODF é “prioridade máxima no próximo release”, mas não se comprometeu a torná-lo o formato nativo.
A Collabora, que mantém o Collabora Online (baseado no LibreOffice), também questionou a “europeidade” do código, lembrando que grande parte dos comentários no código-fonte do OnlyOffice está em russo. A equipe do Euro-Office tem trabalhado para traduzir centenas de milhares de linhas, mas o processo é lento.
Euro-Office 1.0: o que esperar e os próximos desafios
A versão 1.0 que chega em 9 de junho é ainda um produto embrionário. Não há aplicativos desktop ou mobile – apenas os editores web integrados ao Nextcloud. A contratação de uma equipe dedicada começou apenas em abril. O consórcio promete versões nativas para desktop e mobile ainda neste verão, mas o caminho para se tornar uma alternativa robusta ao Microsoft 365 é longo.
O Euro-Office representa, contudo, a tentativa mais concreta de construir uma suíte de escritório europeia sob governança europeia, unindo capital privado, expertise técnica e a pressão de governos que buscam autonomia digital. Se o projeto conseguirá evoluir o código de forma independente da OnlyOffice, estabelecer governança transparente e conquistar a confiança de administrações públicas – ou se ficará apenas como uma bandeira política com pouca substância técnica – é a verdadeira questão que se impõe.
O lançamento de 9 de junho é apenas o primeiro passo de uma longa jornada que testará se a Europa é capaz de, de fato, reduzir sua dependência do ecossistema americano sem abrir mão da usabilidade que os usuários esperam.
Linha do tempo do Euro-Office
| Data | Evento |
|---|---|
| 2 de março de 2026 | OnlyOffice Workspace Cloud é encerrado; usuários são direcionados para DocSpace ou self-hosted. |
| 27 de março de 2026 | Euro-Office é anunciado em Berlim; prévia técnica liberada. |
| 30 de março de 2026 | OnlyOffice alega violação de licença e suspende parceria com Nextcloud. |
| 1º de abril de 2026 | The Document Foundation publica carta criticando foco em OOXML. |
| Final de maio de 2026 | Conflito de licenciamento é “resolvido” com adição de atribuição; parceria não é totalmente restaurada. |
| 9 de junho de 2026 | Lançamento da versão 1.0 estável no GitHub; integração com Nextcloud Hub 26 Spring. |

