O diagnóstico precoce do câncer continua sendo um dos maiores desafios da oncologia moderna. A maioria dos tumores só é descoberta quando já apresentam sintomas, muitas vezes em estágios avançados, o que reduz as chances de cura. Uma nova ferramenta, chamada teste Galleri, promete mudar esse cenário ao detectar cerca de 50 tipos diferentes de câncer a partir de uma simples amostra de sangue, antes mesmo de qualquer sinal da doença. Essa tecnologia, baseada em biópsia líquida, acaba de chegar ao Brasil por meio de uma parceria entre o Hospital Israelita Albert Einstein, o Grupo Fleury e a empresa norte-americana Grail.
Como funciona a biópsia líquida Galleri?
A biópsia líquida não é exatamente uma novidade no consultório do oncologista. Ela já é usada para identificar mutações específicas em tumores já diagnosticados ou para monitorar a resposta ao tratamento. O Galleri, porém, vai além: ele busca fragmentos de DNA tumoral circulante no sangue de pessoas que não têm qualquer suspeita de câncer. Esses fragmentos, conhecidos como cfDNA, apresentam padrões de metilação que variam conforme o tecido de origem. Com isso, o teste não apenas indica a presença de material genético alterado, mas também estima em qual órgão ou região do corpo o tumor provavelmente está localizado.
Na prática, o paciente coleta uma amostra de sangue, que é enviada ao laboratório. O exame analisa a metilação do DNA e, com base em algoritmos treinados em milhares de amostras, gera um resultado positivo ou negativo para a presença de sinais de câncer. Se positivo, o laudo ainda aponta a provável origem do tumor – pulmão, pâncreas, fígado, mama, entre outros. Isso direciona os exames complementares, como tomografia, endoscopia ou biópsia convencional, para a região suspeita.
O que os estudos científicos revelaram sobre o Galleri?
O grande estudo clínico do Galleri foi o NHS-Galleri, conduzido no Reino Unido com mais de 70 mil participantes assintomáticos com 50 anos ou mais. Os resultados foram publicados em setembro de 2026 em duas revistas de alto impacto: The New England Journal of Medicine e Nature Medicine. Na primeira rodada de rastreamento, 722 pessoas (cerca de 1% do total) tiveram resultado positivo. Entre os que foram posteriormente diagnosticados com câncer, o teste acertou a provável origem do tumor em 91,9% dos casos.
No entanto, a capacidade de detecção do Galleri varia muito conforme o estágio da doença. O estudo mostrou que o teste encontra cerca de 40% dos cânceres em estágio 1 e 70% daqueles em estágio 3. Isso significa que tumores muito pequenos, que mais se beneficiariam de uma descoberta precoce, podem passar despercebidos. O motivo é simples: tumores maiores liberam mais fragmentos de DNA na corrente sanguínea, facilitando a identificação.
| Estágio do tumor | Taxa de detecção do Galleri |
|---|---|
| Estágio 1 | ≈ 40% |
| Estágio 3 | ≈ 70% |
| Estágios avançados (3 e 4 combinados) | não reduziu significativamente no estudo |
Além disso, a sensibilidade também depende do tipo de câncer. Tumores de pâncreas, melanoma e estômago tendem a liberar mais DNA tumoral, enquanto cânceres de tireoide e rim têm menor chance de serem detectados. Um resultado negativo, portanto, não descarta a presença da doença. Já um resultado positivo não confirma o câncer – ele apenas indica que foram encontrados sinais que exigem investigação adicional.
Limitações que não podem ser ignoradas
O artigo publicado no New England Journal of Medicine tinha como objetivo principal verificar se o uso do Galleri reduziria o número de diagnósticos de câncer em estágios 3 e 4, considerados avançados. O resultado foi frustrante: não houve redução estatisticamente significativa desse desfecho no grupo que fez o exame em comparação com o grupo que seguiu o rastreamento convencional. Isso coloca em dúvida o benefício real da tecnologia em termos de mortalidade.
Por outro lado, dados secundários do estudo trouxeram sinais positivos. O grupo que realizou a biópsia líquida apresentou mais diagnósticos de câncer nos estágios 1 e 2, além de uma redução no número de diagnósticos urgentes – aqueles feitos durante atendimentos hospitalares por complicações da doença. Os tumores para os quais já existem métodos de rastreamento estabelecidos, como mama e cólon, foram detectados em uma proporção quatro vezes maior com o Galleri. Isso sugere que o teste pode funcionar como um complemento, não como substituto.
Para quem o teste é indicado no Brasil?
Atualmente, o Galleri é voltado para pessoas com 50 anos ou mais, sem sintomas de câncer. Não é indicado para gestantes, pessoas com menos de 22 anos ou aquelas que tiveram câncer nos últimos três anos. O exame custa aproximadamente R$ 6.900 no Brasil, valor que ainda o torna inacessível para a maioria da população. O oncologista Fernando Moura, do Einstein, explica que a expectativa é de que, com a adoção em larga escala, os custos possam cair, mas ainda não há garantias.
É fundamental entender que o Galleri não substitui os exames preventivos tradicionais: mamografia, papanicolau, PSA, colonoscopia e tomografia de tórax para fumantes continuam sendo as ferramentas recomendadas. A biópsia líquida entra como uma camada extra de rastreamento, especialmente para tipos de câncer que não têm triagem estabelecida, como pâncreas e fígado.
O futuro do rastreamento oncológico no Brasil
A chegada do Galleri representa uma mudança de paradigma, mas ainda é uma tecnologia em fase de consolidação. A capacidade de detectar múltiplos tumores com uma única coleta de sangue é impressionante, mas os dados de redução de mortalidade ainda não foram comprovados. O equilíbrio entre sensibilidade e especificidade é delicado: o teste priorizou a especificidade para evitar falsos positivos, mas isso custa sensibilidade nos estágios iniciais.
Nos próximos anos, novas rodadas do estudo NHS-Galleri e outras pesquisas em andamento devem fornecer respostas mais claras sobre o impacto real na sobrevida dos pacientes. Enquanto isso, o exame já está disponível no Brasil como um exame de rastreio opcional para quem pode arcar com o custo. A tecnologia, embora promissora, ainda precisa demonstrar que, mais do que detectar tumores, ela salva vidas. Até lá, a melhor estratégia continua sendo seguir os exames preventivos já recomendados e manter um diálogo aberto com o médico sobre os riscos individuais.

