Em uma das regiões mais remotas do planeta, a meio caminho entre a Austrália e a América do Sul, o navio de pesquisa Rainier, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), conduz uma ambiciosa missão de mapeamento. O objetivo é cobrir mais de 8 mil milhas náuticas quadradas do fundo do Oceano Pacífico em busca de depósitos de minerais considerados críticos para a tecnologia global. Para isso, a embarcação conta com dois aliados incomuns: submersíveis autônomos de cor neon, construídos sob uma filosofia de custo radicalmente baixo, que serão lançados a quase seis quilômetros de profundidade para “saltar” pelo leito oceânico durante um mês inteiro.
A nova geração de exploradores das profundezas
Os veículos foram projetados e construídos pela Orpheus Ocean, uma jovem empresa que se desmembrou da renomada Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI) em 2024. Diferente dos submarinos robóticos tradicionais, que podem custar entre cinco e dez milhões de dólares, cada unidade da Orpheus sai por algumas centenas de milhares de dólares. A redução drástica de custo não veio acompanhada de sacrifícios na capacidade operacional. Pelo contrário: os robôs foram concebidos especificamente para o ambiente em que atuam, um substrato lamacento e encharcado, repleto de vida microscópica, vermes, caracóis e os cobiçados nódulos metálicos do tamanho de ovos, ricos em cobre, cobalto, níquel e manganês.
O cofundador e CEO da Orpheus, Jake Russell, resume a estratégia da empresa como “ao fundo, gastando pouco”. Essa abordagem representa uma ruptura com o modelo atual de exploração oceânica, em que cientistas dependem de uma frota limitada e extremamente cara de submersíveis pertencentes a agências governamentais e institutos de pesquisa. A competição por tempo de uso desses equipamentos é intensa e, muitas vezes, inviabiliza estudos de longo prazo ou a coleta de dados em larga escala.
Engenharia inspirada em recordes e doações
A construção dos submersíveis da Orpheus bebe de fontes históricas. Seus corpos são feitos principalmente de espuma sintática, um material flutuante que utiliza microesferas ocas de vidro para resistir à pressão esmagadora das grandes profundezas. O mesmo tipo de espuma foi usado no Deepsea Challenger, o veículo que levou o cineasta James Cameron até a Fossa das Marianas, em 2012. O próprio Cameron doou o material excedente para os protótipos iniciais da Orpheus, um gesto que ajudou a viabilizar a tecnologia.
Com menos de dois metros de comprimento e pesando 270 quilos, os robôs são os menores veículos oceânicos do mercado capazes de alcançar seis quilômetros de profundidade. Essa compacidade é intencional: eles foram desenhados para operar em frotas, funcionando como exploradores robóticos de baixo custo. Atualmente, os protótipos já foram certificados para mergulhos de até 11 quilômetros, o que os torna aptos a atingir o ponto mais profundo do planeta, na Fossa das Marianas.
Saltos no assoalho oceânico: como funcionam os robôs
A principal inovação dos veículos da Orpheus reside no seu modo de locomoção. Classificados como veículos submarinos autônomos (AUVs), eles não são presos por cabos ao navio, operando com comandos pré-programados e tomada de decisão em tempo real. Entretanto, ao contrário dos AUVs tradicionais, que planam em alta velocidade por longas distâncias, os robôs da Orpheus são curtos e robustos, equipados com pequenas “pernas”. Essa configuração permite que eles pousem suavemente no fundo do mar, avancem alguns metros sobre a lama e, então, se erguam novamente para um novo “salto”.
Esse movimento peculiar é a chave para sua função principal: coletar testemunhos de sedimento. Ao pousar, o veículo suga amostras do substrato, incluindo os organismos que ali vivem, e as armazena para análise. Quando não está amostrando, o robô captura uma imagem de alta resolução por segundo, gerando um volume gigantesco de dados visuais de áreas nunca antes detalhadas. Na expedição atual, cada veículo pode nadar até 10 quilômetros por mergulho e coletar até oito amostras físicas.
Teste de fogo no Pacífico e desafios reais
A expedição a bordo do Rainier representa o maior teste já realizado para os submersíveis da Orpheus. Pela primeira vez, eles operarão por várias semanas consecutivas, cobrindo grandes áreas com múltiplos instrumentos em funcionamento. Se for bem-sucedido, o teste consolidará os veículos como ferramentas práticas não apenas para cientistas, mas também para agências governamentais e empresas interessadas em investigar os recursos do oceano profundo.
Apesar do otimismo, a tecnologia já enfrentou desafios reais. Na primavera de 2024, a geobióloga Victoria Orphan, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), liderou uma expedição com um dos veículos para estudar exsudações de metano nas Ilhas Aleutas, no Alasca. As condições adversas — temperaturas gélidas e topografia íngreme — exigiram três semanas para que o robô conseguisse capturar as primeiras imagens de alta resolução. “Sempre há dores de crescimento”, lembra Orphan. O contratempo, no entanto, não diminuiu seu entusiasmo. Para ela, a classe de instrumentos como os da Orpheus representa “uma ferramenta muito capacitadora” para investigar a interface entre o sedimento e a superfície do oceano, uma zona de grande atividade biológica e biogeoquímica ainda pouco compreendida.
Democratização da ciência e o interesse da indústria
O baixo custo e o tamanho reduzido dos submersíveis trazem uma vantagem adicional: eles não exigem um grande navio de pesquisa para serem transportados. Como observa o ecólogo Andrew Sweetman, da Associação Escocesa de Ciências Marinhas, isso pode democratizar o acesso à ciência de águas profundas. Países menores ou com menos recursos financeiros, que não possuem embarcações oceanográficas de grande porte, poderão, pela primeira vez, realizar estudos de ponta no assoalho oceânico. Sweetman imagina usar as amostras de sedimento para investigar como os organismos bentônicos fazem a ciclagem de nutrientes, um processo crucial para entender o papel do oceano como sumidouro de carbono.
Paralelamente, a tecnologia despertou o interesse de setores bem diferentes da academia. Russell afirma que sua empresa recebe consultas semanais de empresas de mineração em águas profundas, defesa, energia eólica offshore, telecomunicações e petróleo e gás. A Orpheus, no entanto, se posiciona como uma prestadora de serviços de coleta de dados, sem tomar partido sobre o uso final do fundo do mar. Ainda assim, a mesma tecnologia que pode ajudar a mapear ecossistemas frágeis também pode acelerar a exploração mineral, um tema que gera profunda controvérsia.
A pressão pela mineração e o alerta dos cientistas
A corrida por minerais como cobalto, níquel e manganês, essenciais para baterias e tecnologias de energia limpa, intensificou a pressão sobre o leito marinho. Recentemente, uma ordem executiva do presidente dos Estados Unidos determinou o desenvolvimento acelerado da exploração e processamento desses minerais, e o governo anunciou a criação da Administração de Minerais Marinhos (Marine Minerals Administration). Para muitos cientistas, essa movimentação acontece rápido demais. “Os organismos que vivem ali realmente não são adaptados a muita perturbação, e leva muito, muito tempo para que se recuperem, se é que se recuperam”, alerta Victoria Orphan.
O método de mineração proposto por governos e empresas envolve máquinas que agem como tratores-bulldozers gigantes, arrastando-se pelo fundo, sugando material e deixando cicatrizes e plumas de sedimento. Brett Hobson, engenheiro oceânico do Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterey (MBARI), sugere que uma tecnologia cirúrgica como a da Orpheus poderia, paradoxalmente, ser usada para tornar a extração mais seletiva e menos destrutiva. Ainda assim, o próprio Hobson ressalta que o mundo precisa de mais sistemas de exploração, e não de menos. Empresas e agências da Noruega, França, Japão, China e Reino Unido já desenvolvem veículos similares.
Enquanto os robôs neon da Orpheus mergulham nas próximas semanas, cada missão trará um pouco mais de dados sobre um planeta que, em grande parte, ainda é desconhecido. Como resume Orphan, cada mergulho revela “apenas o menor dos selos postais do nosso planeta. Ainda há muito a aprender.”
