Você já prometeu a si mesmo que desta vez seria diferente? Criou planos detalhados, comprou a agenda nova, organizou tudo perfeitamente – e então, quando chegou a hora de agir, algo dentro de você simplesmente travou. Não foi preguiça. Não foi falta de capacidade. Foi uma sabotagem silenciosa que parece vir de dentro, como se uma parte de você realmente não quisesse que você tivesse sucesso.
Albert Ellis e a revolução que começou no divã
Na década de 1950, enquanto a psicanálise dominava os consultórios, um psicólogo nova-iorquino chamado Albert Ellis começou a perceber algo fascinante: não eram os eventos em si que causavam o sofrimento humano, mas sim o que as pessoas diziam a si mesmas sobre esses eventos. Ellis, que inicialmente se formou em negócios antes de migrar para a psicologia, trazia uma mentalidade prática que irritava a academia tradicional. Ele não queria apenas entender a mente humana – queria oferecer ferramentas que funcionassem na vida real.
Ellis desenvolveu a Terapia Racional Emotiva Comportamental (TREC) baseado em uma observação simples mas poderosa: nós criamos nossa própria infelicidade através das crenças irracionais que alimentamos. Enquanto Freud mergulhava nas profundezas do inconsciente, Ellis olhava para os pensamentos conscientes que repetimos como mantras até que se tornam nossa realidade.
O ABC da sabotagem emocional
O conceito central de Ellis é tão elegante que cabe em três letras: ABC. Acontecimento ativador (A) → Crenças (B) → Consequências emocionais e comportamentais (C). A grande sacada de Ellis foi mostrar que pulamos direto de A para C, ignorando completamente o B – as crenças que determinam tudo.
Imagine esta cena: você recebe um feedback construtivo no trabalho (A). Imediatamente sente ansiedade, vontade de chorar e pensa em pedir demissão (C). O que aconteceu no meio? Suas crenças (B) entraram em ação: “Se eu não sou perfeito, sou um fracasso”, “Meu chefe deve gostar de tudo que eu faço”, “Errar é inadmissível”.
Ellis identificou onze crenças irracionais básicas que nos sabotam. A mais comum? “Eu preciso ser amado e aprovado por todas as pessoas importantes na minha vida”. Soa familiar? Quantas vezes você deixou de falar sua opinião, de defender seu limite, de perseguir seu sonho porque temia desagradar alguém?
Como reconhecer sua própria sabotagem
A autossabotagem raramente aparece como um monstro óbvio. Ela se disfarça de racionalidade, de precaução, até mesmo de virtude. Você não está procrastinando – está “esperando o momento certo”. Não está evitando desafios – está “sendo realista”. Não está desistindo dos seus sonhos – está “amadurecendo”.
Alguns sinais sutis da sabotagem ellisiana: perfeccionismo que paralisa (“se não posso fazer perfeito, não faço”), procrastinação crônica (adiar para evitar a possibilidade de falha), autocrítica excessiva (tratar-se pior do que trataria um inimigo), e o clássico “deixar para amanhã” o que seria importante hoje.
As três crenças que mais nos travam
Depois de décadas de prática clínica, Ellis percebeu que três crenças eram responsáveis pela maior parte do sofrimento humano:
1. “Eu DEVO fazer tudo perfeitamente” – A tirania do “deveria” que transforma metas em obrigações torturantes. O segredo? Trocar “devo” por “prefiro” ou “escolho”.
2. “Os outros DEVEM me tratar com justiça e bondade” – A expectativa irreal de que o mundo será justo. Ellis lembrava: “O mundo não te deve nada, e nem eu”.
3. “A vida DEVE ser fácil e sem sofrimento” – A ilusão de que desconforto é sinal de que algo está errado, quando na verdade é sinal de que você está vivo.
Como desafiar essas crenças no dia a dia
A técnica de Ellis é deliberadamente simples – quase rude em sua objetividade. Quando perceber uma emoção negativa intensa, faça três perguntas:
1. “Que evidência real eu tenho de que essa crença é verdadeira?” – Se você acredita que “vai falhar miseravelmente”, que dados concretos sustentam isso?
2. “Essa crença me ajuda ou me atrapalha?” – Mesmo que fosse verdade, pensar assim te fortalece ou te paralisa?
3. “O que eu diria para um amigo que pensasse assim?” – Geralmente somos mais compassivos com os outros do que conosco.
Quando a sabotagem vem disfarçada de virtude
Algumas das formas mais sorrateiras de autossabotagem aparecem como qualidades admiráveis. O excesso de responsabilidade (“tenho que resolver tudo para todos”), a modéstia exagerada (“não sou bom o suficiente para tentar”) e até a prudência (“é melhor não arriscar”) podem ser mecanismos de proteção que nos impedem de crescer.
Ellis chamava isso de “thinking errors” – erros de pensamento que parecem lógicos mas são fundamentalmente irracionais. O mais comum? Catastrofização: transformar um contratempo em catástrofe. Chegar cinco minutos atrasado vira “meu chefe vai me demitir”, um erro pequeno vira “sou incompetente”, uma discussão vira “meu relacionamento acabou”.
O que fazer quando você se pega no ciclo da sabotagem
Aqui está um protocolo prático baseado na TREC para momentos de autossabotagem aguda:
Passo 1: Pare e nomeie a emoção. “Estou sentindo ansiedade” em vez de “estou ansioso”. Isso cria distância.
Passo 2: Identifique o pensamento automático. “O que estou dizendo para mim mesmo agora?”
Passo 3: Questionamento socrático. “Isso é realmente verdade? É útil? É baseado em fatos ou em medo?”
Passo 4: Reformulação. Troque a crença irracional por uma alternativa mais flexível. De “preciso ser perfeito” para “vou fazer o melhor que posso”.
Passo 5: Ação comportamental. Faça algo – mesmo que pequeno – que contradiga a crença antiga.
As críticas à abordagem de Ellis
Nenhuma teoria psicológica é perfeita, e a TREC recebeu suas críticas. Alguns terapeutas acham que Ellis era muito racional, ignorando a importância das emoções e do inconsciente. Outros questionam se é realmente possível mudar crenças profundas apenas com questionamento lógico.
O próprio Ellis reconhecia limitações. Ele admitia que algumas pessoas precisavam de mais tempo e que traumas profundos exigiam abordagens complementares. Mas mantinha sua convicção: “A melhor época para plantar uma árvore era há vinte anos. A segunda melhor é agora”.
Como a TREC difere de outras abordagens
Enquanto a psicanálise busca entender as origens infantis dos problemas, Ellis focava no aqui-e-agora. Diferente da abordagem humanista de Rogers, que enfatiza a aceitação incondicional, Ellis era deliberadamente confrontador – ele desafiava as crenças de frente. E ao contrário da terapia comportamental pura, que ignora pensamentos, Ellis via as crenças como o elo central entre evento e emoção.
Exercício prático: Diário das Crenças Irracionais
Durante uma semana, carregue um pequeno caderno. Toda vez que sentir uma emoção negativa intensa (ansiedade, raiva, vergonha), anote:
– Situação: O que aconteceu?
– Emoção: O que senti (escala de 0-10)?
– Pensamento automático: O que passou pela minha mente?
– Crença por trás: Qual regra rígida estava operando?
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– Reformulação: Como posso pensar isso de forma mais flexível?
No final da semana, você terá um mapa das suas principais formas de autossabotagem.
Quando essa abordagem não é suficiente
Se você tentou essas técnicas por algumas semanas e a autossabotagem continua paralisante, pode ser hora de buscar ajuda profissional. Especialmente se vier acompanhada de sintomas depressivos, ataques de pânico ou ideação suicida. A TREC é poderosa, mas não substitui terapia quando questões mais profundas estão em jogo.
O que Albert Ellis diria sobre sua história
Ellis, conhecido por seu estilo direto até a rudeza, provavelmente diria: “Pare de ficar remoendo o passado e se preocupando com o futuro. As crenças que te sabotam são escolhas – e você pode escolher outras. Não espere se sentir confiante para agir. Aja, e a confiança virá como consequência.”
Ele dedicou a vida a lembrar as pessoas de algo radical: você não é seus pensamentos. Você é quem observa os pensamentos. E quem observa pode questionar, pode duvidar, pode escolher acreditar em algo diferente. A próxima vez que sentir aquela vozinha sabotadora, lembre-se: é apenas uma crença. E crenças podem ser mudadas.

