Curador do Lollapalooza Brasil revela método antigo para ouvir música em meio à era do streaming

Em um cenário dominado por algoritmos e playlists infinitas, o diretor e curador musical do Lollapalooza Brasil, Marcelo Beraldo, defende uma abordagem quase arqueológica para o consumo musical. Em participação no videocast Música Que Não Toca Por Aí, apresentado por Monique Dardenne, Beraldo detalhou como mantém viva uma prática que muitos consideram extinta: ouvir discografias completas, em ordem cronológica, como se estivesse diante de uma pilha de vinis. Essa escolha, segundo ele, não é uma rejeição à tecnologia, mas uma busca por profundidade em um oceano de superficialidade sonora.

Os três pilares da experiência musical contemporânea

Beraldo estruturou sua visão sobre como nos relacionamos com a música atualmente em três categorias distintas. A primeira é o consumo cotidiano via streaming, onde as faixas funcionam como trilha sonora para atividades do dia a dia – uma experiência muitas vezes passiva e fragmentada. A segunda é a escuta dedicada, um momento de imersão total em um fonograma, seja um álbum, EP ou single, com a atenção voltada exclusivamente para a obra. A terceira, e talvez a mais poderosa na visão do curador, é a experiência ao vivo. “Os shows representam um momento coletivo único”, afirmou Beraldo, “em que público e artistas compartilham uma energia que transcende a simples audição. É uma troca que acontece no presente, irrepetível”.

Do mercado financeiro à curadoria de um dos maiores festivais do país

A trajetória de Marcelo Beraldo até se tornar uma das vozes mais influentes da cena festival brasileira é marcada por reviravoltas. Aos 22 anos, ele trabalhava no mercado financeiro, um universo distante dos palcos e estúdios. A insatisfação com a carreira o levou a uma jornada de autoconhecimento por países como Austrália, Indonésia e África do Sul. De volta ao Brasil, abriu o restaurante japonês JAM, que se tornou não apenas um ponto gastronômico, mas um polo cultural onde projetos de música ao vivo começaram a germinar. Foi nesse caldeirão de experiências que nasceu sua conexão profissional com a indústria musical, um caminho que o levou direto para o coração do Lollapalooza Brasil.

A meticulosa engrenagem por trás do line-up do Lollapalooza

Montar a programação de um festival da magnitude do Lollapalooza é um trabalho de estratégia, paciência e visão de longo prazo. Beraldo revelou que o planejamento começa com uma antecedência de dois a três anos. Diversos fatores críticos entram na equação: as turnês internacionais planejadas pelas gravadoras, a disponibilidade dos artistas – que muitas vezes têm agendas lotadas anos à frente – e, claro, o orçamento disponível, que precisa ser negociado e alocado com precisão. A sinergia com outros festivais da América do Sul é uma peça-chave nesse quebra-cabeça, pois permite criar rotas viáveis e economicamente interessantes para que artistas internacionais incluam o continente em seus roteiros globais.

Autonomia e responsabilidade na escolha dos artistas nacionais

Um dos aspectos mais destacados por Beraldo é a autonomia que possui para moldar a parte nacional da programação. Essa liberdade, no entanto, vem acompanhada de uma grande responsabilidade. O curador enxerga o Lollapalooza não apenas como um palco para consagrados, mas como uma vitrine essencial para a nova geração da música brasileira. “É fundamental abrir espaço para novos nomes”, afirmou. Essa missão vai além do simples preenchimento de slots no line-up; trata-se de curar um momento representativo da diversidade e da potência criativa atual do país, oferecendo a artistas emergentes uma visibilidade que pode ser transformadora para suas carreiras.

A filosofia musical herdada: a régua dos cem anos

A relação de Beraldo com a música tem raízes profundas na infância, cultivadas por seu pai. Ele relembra com afeto as manhãs de fim de semana em casa, onde obras como a Nona Sinfonia de Beethoven ecoavam pelos cômodos. Foi nessas sessões de escuta que ele recebeu um ensinamento que carrega até hoje: a provocação simples, porém profunda, de seu pai. A ideia era que, se uma composição permanecesse relevante e tocante após um século, ela poderia, então, ser considerada verdadeiramente boa. Esse conceito atemporal moldou sua percepção de qualidade, ensinando-o a buscar nas obras não apenas o impacto imediato, mas a ressonância duradoura, a capacidade de dialogar com diferentes gerações.

O consumo atento como antídoto para a saturação digital

Em meio à facilidade e à velocidade do streaming, o método de Beraldo surge como um contraponto deliberado. Ouvir uma discografia completa, na sequência em que foi lançada, é, para ele, um ato de resistência e de respeito à narrativa do artista. Essa prática transforma a escuta em uma jornada, permitindo observar a evolução de um som, o amadurecimento de letras e a construção de uma identidade musical ao longo do tempo. É uma forma de engajamento que exige pausa e concentração, qualidades escassas em um mundo de estímulos constantes, mas que recompensa o ouvinte com uma compreensão muito mais rica e contextualizada da obra.

O legado do videocast Música Que Não Toca Por Aí

A participação de Marcelo Beraldo integra a primeira temporada do videocast Música Que Não Toca Por Aí, um projeto vinculado à iniciativa M_AI. O programa, com apresentação de Monique Dardenne, se propõe a ir além dos hits do momento, explorando as histórias, os processos e as reflexões de profissionais que moldam o cenário musical por trás dos holofotes. O episódio com o curador do Lollapalooza já está disponível, oferecendo uma janela rara para os pensamentos de um dos principais arquitetos da experiência festival no Brasil.

A narrativa de Marcelo Beraldo vai muito além dos bastidores de um festival; é um testemunho sobre a busca por significado em um ecossistema cultural em constante aceleração. Sua defesa de uma escuta atenta e profunda, seu percurso não linear na indústria e sua visão estratégica para a curadoria revelam que, mesmo nos palcos maiores e mais luminosos, a qualidade ainda depende de escolhas humanas, de paciência e de um diálogo constante entre o novo e o atemporal. Num mundo onde a música nunca foi tão acessível, sua maior lição talvez seja a de que o verdadeiro acesso não está na quantidade, mas na profundidade com que nos permitimos mergulhar nela.

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