O plano ambicioso das big techs para expandir a infraestrutura de inteligência artificial esbarra em um gargalo físico: a construção de data centers não está acompanhando o ritmo dos anúncios de investimento. Dados recentes de mercado indicam que, para 2026, apenas um terço da capacidade projetada de data centers de IA está efetivamente em obras, enquanto os projetos para 2027 apresentam um cenário ainda mais crítico. O problema não é a demanda, mas a disponibilidade de componentes elétricos essenciais e a lenta tramitação de licenças e conexão à rede elétrica.
Apenas um terço da capacidade de IA prevista para 2026 está em construção
De acordo com a consultoria Sightline Climate, dos cerca de 16 GW de capacidade de data centers programados para entrar em operação em 2026, apenas aproximadamente 5 GW estão realmente em construção — o equivalente a pouco mais de 30% do total. O restante permanece na fase de “anunciado”, sem qualquer movimentação de terra. O cenário para 2027 é ainda mais preocupante: dos 21,5 GW projetados, somente 6,3 GW tiveram as obras iniciadas. Ou seja, a grande maioria da capacidade que deveria estar disponível daqui a dois anos ainda não saiu do papel.
O gargalo não está na construção civil dos galpões — erguer a estrutura física de um data center é relativamente rápido. O ponto crítico é a infraestrutura elétrica: transformadores, subestações, disjuntores e baterias. Esses componentes representam menos de 10aaa% do custo total de um data center, mas sem eles a instalação simplesmente não funciona. A demanda por esses mesmos equipamentos também cresce com a expansão de veículos elétricos e bombas de calor, o que alongou os prazos de entrega de transformadores de cerca de 2 anos para até 5 anos. Em 2025, 26% dos projetos com capacidade anunciada sofreram atrasos, e outros 10% tiveram suas datas de conclusão adiadas sem aviso prévio.
Investimentos recorde das big techs esbarram em limites físicos
A disparidade entre o dinheiro comprometido e a capacidade real de construção fica evidente nos números de investimento das quatro maiores hiperescaladoras. Alphabet (Google), Amazon, Microsoft e Meta preveem juntas cerca de US$ 725 bilhões em investimentos de capital (CapEx) para 2026 — um salto de 77% em relação aos US$ 410 bilhões do ano anterior. A divisão por empresa é a seguinte:
- Amazon: US$ 200 bilhões
- Alphabet (Google): US$ 190 bilhões (limite superior)
- Microsoft: US$ 190 bilhões
- Meta: US$ 135 bilhões (valor médio)
No entanto, mesmo com essa enxurrada de capital, as empresas não conseguem acelerar a construção porque a oferta de equipamentos elétricos e a capacidade de conexão à rede são limitadas. O dinheiro não substitui transformadores que levam anos para ser fabricados e instalados.
A estratégia da Alphabet: integração vertical e energia própria
Para contornar o gargalo energético, a Alphabet adotou uma abordagem agressiva e incomum para uma empresa de tecnologia. Em 1º de junho, anunciou uma captação de US$ 847,5 bilhões por meio de uma oferta de ações, inicialmente prevista em US$ 800 bilhões, que incluiu um investimento de US$ 100 bilhões da Berkshire Hathaway — uma quantia excepcional para um único investimento em tech. A medida gerou reação negativa no mercado, com as ações caindo cerca de 3,5% no dia seguinte, em meio a questionamentos sobre por que uma empresa com fluxo de caixa de US$ 174 bilhões precisaria levantar recursos externos. A resposta está no volume de investimento previsto: entre US$ 180 bilhões e US$ 190 bilhões apenas em 2026, com projeções ainda maiores para 2027. Nenhuma empresa, por mais lucrativa que seja, consegue financiar uma escalada dessas apenas com caixa operacional e dívida.
O movimento mais significativo, no entanto, é a compra da empresa de infraestrutura energética Intersect Power por US$ 4,75 bilhões, concluída em março. A Intersect desenvolve projetos de energia solar, baterias e gás natural na escala de múltiplos GW, e já estava construindo o primeiro data center do tipo “colocation energética” no condado de Haskell, Texas — onde a usina de geração fica no mesmo terreno do data center, eliminando a dependência da rede elétrica. Se esse modelo se provar viável, pode se tornar um template para outros projetos que hoje estão parados por falta de conexão.
Além disso, a Alphabet firmou um contrato inédito de três anos com a operadora de usinas virtuais (VPP) Voltus. A Voltus agrega baterias domésticas, termostatos inteligentes e outros recursos distribuídos na área de concessão da PJM, a maior operadora de rede dos EUA, e fornecerá até 100 MW de capacidade flexível para o Google. É a primeira vez que um operador de data center investe diretamente em uma VPP. Embora 100 MW seja pequeno diante da demanda de uma hiperescaladora, o modelo de pagar para consumidores residenciais e comerciais aliviarem a rede em horários de pico, enquanto contribuem para a estabilidade do sistema, pode se tornar referência para o setor.
A empresa também já firmou contratos de resposta à demanda de cerca de 1 GW com concessionárias de energia, permitindo reduzir a carga dos data centers em momentos críticos. Na prática, o Google está migrando de uma postura de “consumidor passivo de energia” para “participante ativo na gestão da rede”.
Energia nuclear e os custos ocultos que já afetam o consumidor
A busca por fontes de energia firme também reacende o interesse por usinas nucleares. A FERC (Comissão Reguladora de Energia Federal dos EUA) aprovou em 2 de junho a transferência de direitos de transmissão para a usina de Three Mile Island (agora chamada Crane Clean Energy Center), que está sendo reativada para fornecer energia para a Microsoft. Se tudo correr como planejado, será a primeira usina nuclear comercial dos EUA a retomar operação após desligamento, com início de operação previsto para 2028.
O pano de fundo desses movimentos é a estimativa do JP Morgan de que os investimentos globais em data centers e infraestrutura de IA ultrapassarão US$ 5 trilhões nos próximos cinco anos, com 122 GW de nova capacidade prevista entre 2026 e 2030. O número poderia ser ainda maior se não houvesse restrições de energia.
E esses custos já estão chegando ao consumidor. O CFO da Microsoft revelou que, dos US$ 190 bilhões de CapEx previstos para o ano, US$ 25 bilhões são atribuíveis exclusivamente ao aumento de preços de componentes como memória e armazenamento. A Meta elevou sua previsão de investimento em US$ 10 bilhões pelo mesmo motivo. Desde o primeiro trimestre de 2025, os preços de memória RAM subiram cerca de 5 vezes, e os de armazenamento SSD, cerca de 3 vezes, segundo análises do setor. A competição das big techs por esses componentes está desviando oferta que antes era destinada a PCs, notebooks e smartphones — e o reflexo já aparece no aumento de preços desses dispositivos no varejo.
Para o Brasil, o cenário é de alerta indireto. Embora os data centers das big techs estejam majoritariamente nos EUA e na Europa, o encarecimento de componentes como DRAM e SSDs impacta diretamente os preços de eletrônicos importados. Além disso, a lentidão na construção de data centers no exterior pode adiar a chegada de novos serviços de IA ao mercado brasileiro, já que a capacidade computacional disponível globalmente continuará apertada.

