No Brasil, a desinformação científica deixou de ser um simples fenômeno de negação dos fatos para se transformar em um negócio lucrativo estruturado sobre a distorção estratégica da ciência. Um estudo do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT) revelou um padrão preocupante: grupos que antes rejeitavam abertamente a vacinação passaram a citar artigos científicos — muitos de revistas predatórias, mas também de fontes legítimas — para legitimar crenças antivacina e teorias da conspiração. O caso mais emblemático desse novo estratagema é a criação da falsa “síndrome pós-spike”, uma condição inventada para vender consultas médicas e cursos online, gerando lucro direto sobre a mentira. A seguir, entenda como a economia da desinformação opera nas plataformas digitais e por que os algoritmos das big techs são os principais aliados desse esquema.
A fábrica de incertezas: como a ciência é instrumentalizada
A nova face da desinformação não nega a ciência; ela se veste com seu jaleco. Em vez de simplesmente descartar vacinas ou tratamentos, grupos organizados manipulam elementos fundamentais do método científico, como a controvérsia, para criar uma “fábrica de incertezas”. A tática é produzir especialistas alternativos, financiar falsas polêmicas e atrasar regulações enquanto promovem produtos sem eficácia comprovada — promessas de cura do câncer, por exemplo. A estratégia se apoia no vocabulário especializado e na estrutura da comunicação científica para validar mentiras e obter ganhos políticos e econômicos.
Pesquisadores do INCT-CPCT constataram que a população brasileira é uma das que mais confia na ciência no mundo, segundo pesquisas de percepção pública. Portanto, não há uma crise de confiança, mas sim uma crise de legitimidade de quem fala em nome da ciência. Nesse vácuo, surgem falsos especialistas que ocupam o espaço deixado pela comunicação científica tradicional, transformando o debate em uma ferramenta de confusão pública. A desinformação, assim, não apenas produz crenças, mas também mercados, com uma cadeia de atores e interesses financeiros bem definidos.
Fraude da “síndrome pós-spike”: a desinformação que virou negócio
O caso concreto que ilustra esse fenômeno é a invenção da “síndrome pós-spike”. Médicos e grupos antivacina criaram uma condição falsa, sem qualquer comprovação científica, afirmando que as vacinas de RNA mensageiro (mRNA) contra a COVID-19 fariam o corpo humano produzir a proteína spike do vírus por tempo indeterminado, gerando uma suposta intoxicação com sequelas de longo prazo. Para dar credibilidade à narrativa, os envolvidos publicaram um relato de caso em uma revista científica — posteriormente retratado por falta de evidências — e usaram o estudo para validar a mentira nas redes sociais.
O objetivo era claramente o lucro. Consultas médicas custavam R$ 3,6 mil, com filas de espera de até cinco meses. Além disso, cursos pagos online prometiam revelar a “verdade oculta” por trás dos imunizantes. A desinformação, nesse caso, estava funcionando como um modelo de negócio. A população, especialmente os mais leigos, acreditou que uma nova doença havia sido descoberta, gerando receita direta para os médicos que criaram a falsa síndrome.
O algoritmo que lucra com a mentira
Por trás desse ecossistema está o modelo de negócios das plataformas digitais. A mudança do financiamento da informação, que antes passava pelos veículos de comunicação tradicionais, agora é controlada pelas big techs por meio da publicidade programática. Nesse modelo, não é mais a credibilidade do veículo que define o preço do anúncio, mas o comportamento do usuário rastreado por cookies e vigilância comercial. Os sistemas de rastreamento permitem que anunciantes atinjam o público-alvo em qualquer lugar da rede, criando um incentivo perverso para conteúdos de baixo rigor.
As plataformas identificam que é mais barato impactar um usuário em um site de entretenimento de baixa qualidade do que no portal de um grande jornal. Isso gera um viés algorítmico em que a desinformação se torna o padrão de rentabilização. Afinal, para o anunciante, o que importa é atingir o “alvo” — o consumidor —, independentemente da qualidade do conteúdo. A informação de baixíssima qualidade é mais econômica para o algoritmo, que foi projetado para lucrar com esse sistema.
Efeito “clique zero”: o Google e a asfixia do jornalismo
O cenário se agrava com a introdução da inteligência artificial generativa nos buscadores. O chamado “efeito clique zero” ocorre quando as plataformas oferecem resumos das notícias diretamente na página de busca, eliminando a necessidade de o usuário clicar no link original. Isso impede o acesso ao site do jornal, resultando em quedas de tráfego que asfixiam o modelo de negócio baseado em visualizações de página (page views). Projeções indicam que o tráfego para sites jornalísticos pode cair de 40% a 60%, com riscos de chegar a zero em breve.
Esse esgotamento cria um vácuo informacional que é rapidamente preenchido por redes de desinformação mais ágeis e menos custosas. As big techs passam a controlar ainda mais a realidade, decidindo quais informações serão apresentadas e como. A professora Nina Fernandes dos Santos, da UFBA, alertou que as redes sociais migraram para modelos baseados puramente em recomendações algorítmicas, deixando de lado as redes de sociabilidade. O poder de decisão sobre o que é visto ou ignorado está cada vez mais concentrado nas mãos de poucas plataformas.
Como reverter o jogo?
Diante desse quadro, a solução não passa apenas por fact-checking ou campanhas educativas. É necessário repensar o uso das plataformas digitais, ocupando o território digital de maneiras que não se limitem ao modelo atual de monetização baseada em vigilância e engajamento extremo. A ciência precisa retomar sua legitimidade não apenas nos laboratórios, mas também na comunicação pública, combatendo a distorção seletiva e estratégica que alimenta a economia da desinformação. Enquanto isso, o lucro fácil sobre a mentira continuará sendo um negócio viável — a menos que plataformas, reguladores e a própria sociedade civil criem alternativas que valorizem a informação de qualidade.

