O dress code corporativo sempre foi um campo minado de dúvidas: afinal, o que vestir para o trabalho sem parecer desleixado ou formal demais? No Japão, país conhecido por suas rígidas normas sociais, essa pergunta ganhou um capítulo inusitado com a flexibilização das regras de vestimenta durante o verão, liberando o uso de shorts nos escritórios. A medida, porém, expôs um debate sobre gênero e conforto que transcende fronteiras e chega com força ao Brasil, onde as empresas ainda tentam equilibrar a etiqueta profissional com a realidade do calor tropical.
O código de vestimenta vai muito além de uma simples lista de peças proibidas ou permitidas. Ele reflete a cultura organizacional, projeta a imagem corporativa e comunica valores para colaboradores, clientes e parceiros. Mas quando o termômetro sobe, as regras podem ser flexibilizadas sem comprometer o profissionalismo? A resposta, como veremos, não é tão simples quanto parece.
O Japão aderiu ao casual. Mas a que custo?
No Japão, o governo de Tóquio adota anualmente a iniciativa “Cool Biz”, que permite que funcionários públicos e de escritórios privados se vistam de forma mais casual nos meses de verão. A ideia é tornar a rotina mais confortável diante das altas temperaturas e, de quebra, economizar energia com ar-condicionado. A medida flexibiliza um dress code tradicionalmente marcado por calças sociais, camisas, paletós e gravatas, abrindo espaço para bermudas e tecidos mais leves.
Mas a casualidade trouxe uma reação inesperada. O surgimento do termo sune-hara — uma contração que pode ser traduzida como “assédio dos pelos da perna” — expôs um incômodo real entre algumas colaboradoras, que se disseram incomodadas com a visão das pernas descobertas de colegas homens. Enquanto isso, muitas mulheres ainda enfrentam pressão para usar meia-calça ou saias longas, gerando o questionamento: por que os homens não são submetidos às mesmas exigências?
O varejo japonês, por sua vez, não perdeu tempo. Lojas começaram a vender modelos específicos de shorts para o escritório, com tecidos leves, cortes formais e cores neutras — uma prova de que, até na casualidade, existem regras e padrões sutis a serem seguidos.
Dress code é motivo de demissão?
No Brasil, a discussão sobre os limites do dress code também gera dúvidas frequentes entre trabalhadores e empregadores. A CLT autoriza a empresa a estabelecer padrões de vestimenta compatíveis com o ambiente e a atividade profissional, mas esse poder não é absoluto. Segundo a advogada Juliana Roque, as regras devem ser razoáveis, proporcionais e aplicadas de maneira uniforme, sem violar direitos como dignidade, privacidade, imagem e não discriminação.
A ausência de uma política formal não dá ao trabalhador carta branca para se vestir de qualquer forma. Quando há orientações claras e o descumprimento é reiterado, a empresa pode aplicar medidas disciplinares e, em casos extremos, chegar à demissão por justa causa.
Mas a empresa também não pode expor o funcionário a constrangimentos ou impor padrões discriminatórios. Priscila Moreira, advogada trabalhista, ressalta que exigências relacionadas a religião, identidade de gênero, raça ou características pessoais devem ser analisadas com cautela para evitar abusos e potenciais passivos trabalhistas.
O que diz a lei brasileira sobre dress code?
A CLT permite que o empregador defina um padrão de vestimenta, desde que ele seja compatível com a função exercida e não fira direitos fundamentais. Regras discriminatórias ou que exponham o trabalhador ao ridículo podem gerar indenizações por danos morais. O ideal é que o dress code seja formalizado em política interna, com comunicação clara e aplicação uniforme para todos os gêneros.
O futuro do dress code corporativo
A experiência japonesa com a Cool Biz mostra que a flexibilização das regras de vestimenta não é apenas uma questão de conforto térmico, mas um reflexo de mudanças culturais mais profundas. No Brasil, onde o clima tropical convive com tradições formais, o debate promete se intensificar. Empresas que souberem equilibrar profissionalismo com bom senso — e respeitar a diversidade — estarão mais preparadas para atrair e reter talentos em um mercado de trabalho em transformação.

