O setor de insurtechs vive um momento de euforia tecnológica, mas executivos experientes alertam para um equívoco recorrente: colocar a tecnologia à frente da solução real para o cliente. Em vez de resolver dores concretas do mercado segurador, muitas startups apostam em inovações pelo simples fato de serem novas. O resultado é uma desconexão que custa credibilidade e, em última instância, participação de mercado.
O maior erro das insurtechs: tecnologia sem contexto
A história do seguro é longa e cheia de ciclos, crises e aprendizados. Ignorar esse passado é o primeiro passo para repetir erros que já custaram caro ao setor. Andrew Engler, CEO e cofundador da RockRose Risk, observa que novos entrantes frequentemente reproduzem problemas idênticos aos que marcaram crises de responsabilidade civil ou eventos de mercado anteriores. A tecnologia não elimina os fundamentos do seguro: ciclos de subscrição, seleção adversa, risco de sinistros e a necessidade de precificação disciplinada. Subestimar essas bases é um risco que nenhum algoritmo pode mitigar.
O verdadeiro diferencial não é o modelo, mas o conjunto de dados que o alimenta. Paul Templar, cofundador e CEO da VIPR Solutions, argumenta que qualquer um pode construir tecnologia – e muitos já o fizeram. O que não se replica rapidamente são os dados históricos e a confiança do mercado para fornecê-los. Estar certo não basta: é preciso ser auditável. Novos entrantes têm modelos, mas carecem da rede de relacionamentos e do volume de insights que levam anos para ser construídos.
Por que liderar com o problema, não com o “agêntico”
Pablo Palafox, CEO e cofundador da HappyRobot, defende que a abordagem correta é demonstrar expertise no setor, e não apenas em tecnologia. Os clientes não se importam se uma solução é “agêntica” ou se usa inteligência artificial de ponta. Eles querem resolver um fluxo de trabalho doloroso de forma confiável, melhorar resultados e ganhar confiança para escalar. Além disso, automatizar um processo existente sem questionar seu design pode ser contraproducente. Em um setor altamente regulado e de alto risco, o caminho é começar com um problema operacional concreto, repensar o processo quando necessário, provar valor e só então expandir.
Pensar pequeno versus expandir o mercado
Ashwin Agarwal, CEO e cofundador da Advocate Technologies, critica a falta de ambição. Melhorar a forma de processar sinistros, enviar cotações ou oferecer seguros para pequenas empresas são ideias incrementais que dominaram as últimas duas décadas de inovação em insurtech. Elas não geram resultados de bilhões de dólares. Para construir algo desse porte, é necessário expandir o tamanho do mercado, não apenas extrair valor do mesmo dólar de prêmio com uma armadilha de rato ligeiramente melhor.
O riso de ser conservador na inovação
O que o leitor brasileiro deve levar dessa discussão
O mercardo de seguros no Brasil enfrenta desafios de digitalização e concorrência com grandes incumbentes. As lições desses executivos mostram que o sucesso de uma insurtech não está no brilho da tecnologia, mas na capacidade de entender a fundo as regras do jogo – incluindo regulamentação da SUSEP, comportamento do consumidor local e as dores específicas de corretores e seguradoras. Liderar com tecnologia sem solução é um atalho para o fracasso. A chave é combinar inovação com respeito pelo que veio antes, dados consistentes e uma dose de coragem para redesenhar processos quando necessário.

