O senador Flávio Bolsonaro (PL) movimentou as redes sociais neste fim de semana ao publicar um vídeo nos stories do Instagram que mescla campanha política com a estética de um dos jogos mais aguardados da década: Grand Theft Auto VI. A peça, gerada por inteligência artificial, mostra o candidato de sunga branca em um cenário que replica elementos da arte oficial do jogo da Rockstar Games — incluindo palmeiras, o nome “Atol” e o letreiro neon “Good Vibes”. A publicação, que chega a pouco mais de dois meses das eleições presidenciais de outubro, gerou debates acalorados sobre os limites do uso de IA em conteúdo político e sobre a adequação do tom para um candidato ao cargo mais alto do Executivo brasileiro.
A estética de GTA VI como pano de fundo político
A imagem criada por IA não é apenas uma brincadeira de fã: a referência direta à capa de GTA VI, ainda sem data de lançamento confirmada, demonstra como a cultura pop e os games invadiram o marketing político. O vídeo de Flávio Bolsonaro utiliza exatamente os mesmos elementos visuais do material promocional do jogo — fundo tropical, palmeiras, tons pastel e o clima de praia. Na arte oficial da Rockstar, a cena remete à ambientação de Vice City, a Miami fictícia que retorna no sexto título da franquia. No caso do senador, o cenário é usado para transmitir uma imagem descontraída, mas que para muitos críticos soa incompatível com a seriedade exigida de um presidenciável.
O uso de inteligência artificial generativa para criar esse tipo de conteúdo é cada vez mais comum, seja em iniciativas de fãs, seja em campanhas reais. Ferramentas baseadas em modelos de difusão, como as que alimentam geradores de imagem e vídeo, permitem produzir material fotorrealista a partir de descrições textuais, e a evolução recente para vídeos curtos, como o publicado nos stories, mostra que a barreira técnica está cada vez mais baixa. No entanto, a mesma tecnologia levanta questões éticas e legais quando aplicada ao contexto eleitoral.
O que diz a lei brasileira sobre inteligência artificial em campanhas
Conteúdos gerados por IA são permitidos em campanhas eleitorais brasileiras, desde que acompanhados de um aviso explícito e destacado informando que a imagem ou som foi manipulado tecnologicamente. Além disso, é proibida a veiculação de novos conteúdos com IA nas 72 horas anteriores ao pleito e nas 24 horas seguintes. Essa exigência visa coibir a disseminação de deepfakes e impedir que o eleitor seja enganado por informações falsas ou montagens realistas.
No caso específico do vídeo de Flávio Bolsonaro, a publicação foi feita nos stories do Instagram — formato efêmero que desaparece em 24 horas — e não como uma peça oficial de campanha ou com pedido explícito de voto. Por esse motivo, o candidato não descumpriu a legislação eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também exige que candidatos e partidos informem os endereços de seus perfis e sites oficiais, e permite que eleitores se manifestem livremente nas redes sociais, desde que não estejam anônimos. A regra visa equilibrar a liberdade de expressão com a responsabilidade pela veracidade das informações compartilhadas.
Por que o vídeo gerou controvérsia
Embora legalmente dentro das normas, a postagem de Flávio Bolsonaro foi criticada por ser considerada inapropriada para o momento da campanha. Faltam pouco mais de dois meses para as eleições, período em que candidatos costumam reforçar a seriedade de suas propostas e evitar exposições que possam ser interpretadas como frívolas. A imagem de um presidenciável de sunga branca, em um cenário que remete a um jogo eletrônico, contrasta com a expectativa de postura institucional que o cargo exige.
Do ponto de vista técnico, o vídeo ilustra como a IA generativa pode ser usada para criar conteúdo visualmente impactante com baixo custo e rapidez. No entanto, a ausência de um aviso explícito de que o conteúdo foi gerado por IA — mesmo que não obrigatório em stories — levanta questionamentos sobre transparência. A legislação atual ainda engatinha para acompanhar o ritmo das inovações tecnológicas, e casos como este servem de termômetro para futuras revisões das regras.
O futuro da IA na propaganda eleitoral brasileira
O uso de inteligência artificial em campanhas políticas não é uma novidade, mas a popularização de ferramentas acessíveis ao grande público torna o fenômeno mais frequente e complexo. A capacidade de gerar vídeos, imagens e até mesmo áudios sintéticos com alto grau de realismo abre portas para criatividade, mas também para desinformação. O caso de Flávio Bolsonaro com o vídeo inspirado em GTA VI é um exemplo de como a cultura gaming e a política podem se cruzar, mas também de como é necessário um debate maduro sobre os limites éticos dessa interseção.
Com as eleições se aproximando, é provável que novos conteúdos gerados por IA apareçam nas redes. Cabe ao eleitorado estar atento às origens das informações e aos avisos de manipulação, enquanto o TSE e o Congresso precisam ajustar a legislação para equilibrar inovação, liberdade de expressão e proteção do processo democrático. A tecnologia, como sempre, corre na frente da lei — e o desafio é garantir que a corrida não deixe a ética para trás.
