Oito meses após ser adquirida pela Splash Damage Group, a Gamepires, criadora do survival game SCUM, anunciou a redução de sua equipe. Em um comunicado publicado no X, o estúdio afirmou que a decisão foi necessária para se adaptar às condições desafiadoras do mercado e garantir sustentabilidade a longo prazo. O aviso não trouxe detalhes sobre quantos funcionários foram desligados, mas a mensagem genérica ecoa dezenas de anúncios semelhantes que a indústria de games tem produzido nos últimos meses.
O ciclo de aquisições e demissões
A situação se torna ainda mais sintomática quando se observa a cronologia dos acontecimentos. A Splash Damage foi comprada por investidores de private equity no início de 2024, em um negócio apoiado pela Emona Capital. Dois meses depois, a própria Splash Damage realizou demissões em massa, justificando que precisava “manter-se ágil e adaptável em um mercado muito desafiador”. Três meses após esses cortes, a empresa anunciou a aquisição da Gamepires, dizendo que “unir as equipes em torno de SCUM daria ao grupo um trabalho significativo e imediato” e que “essa estabilidade era importante para proteger empregos e dar uma base sólida para o futuro”. Oito meses depois, a Gamepires repete o mesmo roteiro.
O presente de SCUM e o futuro do estúdio
Enquanto isso, a Splash Damage não lança um jogo desde Gears Tactics, em 2020. Seu próximo grande projeto, Transformers: Reactivate, foi cancelado em 2025. Já SCUM continua ativo no Steam, recebendo atualizações regulares de conteúdo e correções. A redução da equipe da Gamepires levanta dúvidas sobre o ritmo de desenvolvimento do game e a capacidade do estúdio de manter o suporte de longo prazo que vinha entregando. A promessa de crescimento feita no momento da aquisição — a Splash Damage Group disse que trabalharia com a Emona para expandir o grupo nos anos seguintes — parece agora distante da realidade.
Private equity e a indústria de games
O caso Gamepires ilustra um padrão que se repete com frequência cada vez maior: a entrada de capital privado em estúdios de desenvolvimento seguida por cortes de pessoal. A lógica financeira de redução de custos para aumentar o valor de revenda das empresas entra em choque com a natureza criativa e de longo prazo do desenvolvimento de jogos. O resultado é um ciclo vicioso: aquisição, demissões, nova aquisição, mais demissões. A indústria de games brasileira e global observa atenta, pois o modelo de negócios baseado em private equity pode trazer consequências semelhantes para outros estúdios independentes que, como a Gamepires, são vistos como ativos em um portfólio.
Para os jogadores de SCUM, a incerteza sobre o futuro do jogo e da equipe por trás dele é o reflexo mais imediato de uma dinâmica que tem transformado a indústria nos últimos anos. Ainda não se sabe como a redução da equipe afetará o cronograma de atualizações, mas a história recente mostra que estúdios sob pressão financeira raramente conseguem manter o mesmo nível de suporte e inovação.

