Degeneração macular tira Judi Dench do cinema e teatro

Judi Dench, de 91 anos, revela como a degeneração macular a afastou dos palcos e destaca avanços com o implante PRIMA.

Destaques
  • Judi Dench deixou os palcos em 2015 e reduziu participações em filmes devido à degeneração macular.
  • O implante PRIMA, aprovado na Europa, promete restaurar parte da visão central perdida pela DMRI seca.
  • A degeneração macular atinge milhões de idosos e não tem cura, mas diagnóstico precoce retarda a progressão.

Aos 91 anos, a atriz britânica Judi Dench revelou que precisou abandonar os palcos e reduzir drasticamente sua participação em filmes devido a uma condição oftalmológica progressiva: a degeneração macular relacionada à idade (DMRI). Em entrevista à BBC Radio, Dench afirmou que já não consegue ler roteiros nem reconhecer amigos, um relato que trouxe visibilidade a uma doença que atinge milhões de idosos em todo o mundo e que, até recentemente, não tinha perspectivas de reversão. O caso da atriz, que coleciona prêmios Oscar, Tony e BAFTA, acende um alerta sobre a importância do diagnóstico precoce e ilumina os avanços tecnológicos que começam a mudar o prognóstico da doença, como o implante de chip retinal PRIMA, recentemente aprovado na Europa.

O que é a degeneração macular relacionada à idade?

A degeneração macular relacionada à idade (DMRI) é uma doença que afeta a mácula, a região central da retina responsável pela visão de detalhes, leitura e reconhecimento facial. Ela se manifesta em duas formas principais: a seca (ou atrófica), responsável por cerca de 90% dos casos, e a úmida (ou exsudativa), mais agressiva e de progressão rápida. Na forma seca, depósitos amarelados chamados drusas acumulam-se sob a retina, afinando a mácula e reduzindo sua espessura. Já na forma úmida, vasos sanguíneos anormais crescem sob a mácula e vazam fluido ou sangue, levando à perda súbita da visão central.

Diferentemente da catarata, que pode ser corrigida cirurgicamente, a DMRI ainda não tem cura definitiva. O envelhecimento é o principal fator de risco, com incidência crescente a partir dos 60 anos, mas outros elementos aceleram o quadro: tabagismo, obesidade, hipertensão arterial e histórico familiar. A doença é assintomática nos estágios iniciais, o que torna os exames oftalmológicos regulares a ferramenta mais eficaz para detecção precoce e intervenção capaz de retardar a perda visual.

Entendendo a progressão no caso de Judi Dench

A atriz convive com o diagnóstico há mais de uma década, período em que conseguiu manter certa funcionalidade visual — característica típica da forma seca da doença. Ela deixou os palcos em 2015 e vem reduzindo gradualmente suas aparições no cinema. Segundo relato, hoje ela não consegue mais ler nem reconhecer pessoas em ambientes com pouca iluminação. Esse perfil de evolução lenta, mas implacável, é o que marca a maioria dos pacientes com DMRI seca, que podem levar anos até perder completamente a visão central.

Fatores de risco e prevenção

  • Idade: acima de 60 anos, o risco aumenta significativamente.
  • Tabagismo: dobra o risco de desenvolver DMRI.
  • Obesidade e hipertensão: comprometem a circulação sanguínea na retina.
  • Histórico familiar: predisposição genética é um fator relevante.
  • Exposição excessiva à luz solar: radiação UV pode acelerar danos à mácula.

A tecnologia como esperança: o implante PRIMA

Em julho de 2026, a Europa aprovou o primeiro dispositivo capaz de restaurar parcialmente a visão em pacientes com degeneração macular: o implante PRIMA. Trata-se de um chip de 2 milímetros de diâmetro, implantado cirurgicamente sob a retina, na região da mácula danificada. O chip funciona como um conversor fotoelétrico: ele capta luz infravermelha projetada por óculos especiais equipados com uma câmera e a transforma em sinais elétricos que estimulam as células bipolares remanescentes da retina, enviando informações visuais ao cérebro.

Diferentemente de implantes oculares anteriores, que exigiam fios externos ou baterias, o PRIMA é totalmente sem fio e não contém componentes ativos que gerem calor excessivo. Os óculos com câmera processam a imagem em tempo real e projetam o padrão de luz infravermelha diretamente sobre o chip. O cérebro, então, interpreta esses estímulos como padrões visuais, permitindo ao paciente reconhecer letras grandes, objetos e rostos em situações controladas.

Limitações e ganhos reais

O estágio atual da tecnologia ainda não permite recriar imagens de alta resolução ou restaurar a visão a níveis normais. Nos testes clínicos, pacientes passaram de uma acuidade visual inferior a 20/400 (considerada cegueira legal) para cerca de 20a/200 — o suficiente para ler caracteres maiores, identificar portas e distinguir formas. Apesar de modesta na escala oftalmológica, essa melhora representa um ganho significativo em qualidade de vida, permitindo maior independência em tarefas cotidianas.

Diagnóstico precoce e tratamentos convencionais

Por ser assintomática em fases iniciais, a DMRI costuma ser descoberta em exames de rotina. O principal método é a retinografia e a tomografia de coerência óptica (OCT), que detectam drusas e alterações na espessura macular. Para a forma seca, o tratamento padrão inclui suplementação com vitaminas antioxidantes (vitaminas C, E, zinco e luteína), além de mudanças no estilo de vida. Para a forma úmida, são aplicadas injeções intravítreas de antiangiogênicos, que inibem o crescimento dos vasos anormais, reduzindo o edema e preservando a visão central por períodos prolongados.

Terapias com laser e fotodinâmica também são utilizadas, mas nenhuma delas reverte os danos já instalados — apenas retardam a progressão. O implante PRIMA, por sua vez, é o primeiro recurso que promete restaurar parte da função perdida, abrindo uma nova frente no tratamento da DMRI seca avançada, exatamente o perfil de pacientes como Judi Dench.

A trajetória da atriz, que atravessou sete décadas de carreira, serve como um lembrete de que mesmo condições degenerativas podem encontrar limites na engenharia biomédica. Com o PRIMA já aprovado na Europa e em fase de estudos nos Estados Unidos, a perspectiva para os próximos anos é que mais pessoas tenham acesso a esse tipo de tecnologia. A visão central, perdida gradualmente pela degeneração macular, pode não retornar por completo, mas os primeiros sinais indicam que o futuro da oftalmologia será cada vez mais elétrico e programável.

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