O mercado de seguros de vida enfrenta um paradoxo: nunca tantas pessoas consideraram contratar uma apólice — 68%, segundo estudo da Capgemini —, mas ao mesmo tempo os consumidores com menos de 40 anos resistem em assinar o contrato. A razão não está apenas no preço, mas na desconexão entre o produto tradicional e as prioridades reais de uma geração que adia casamento, filhos e a compra da casa própria. Enquanto isso, o aumento da longevidade cria outro desafio: como atender uma população acima de 50 anos que continua economicamente ativa, com poder de consumo e nenhuma intenção de se aposentar passivamente. Essas duas forças estão redesenhando o mapa do seguro de vida no Brasil e no mundo.
Por que os jovens não compram seguro de vida?
Os números ajudam a entender a lacuna entre intenção e contratação. Entre os menores de 40 anos, 32% acham que o seguro de vida não se ajusta à sua etapa de vida, 28% consideram os prêmios caros demais e 25% apontam a falta de um benefício imediato. Atrasos em eventos tradicionais agravam o quadro: 63% dos jovens pesquisados não planejam casar em breve e 84% também não pretendem ter o primeiro filho em um futuro próximo. Como historicamente o seguro de vida era atrelado à proteção da família, o produto perdeu o gatilho emocional que impulsionava a venda.
“Hoje as pessoas têm à disposição uma variedade de investimentos maior do que tinham em outros anos. Os seguros de vida já não competem apenas com outros seguros de vida”, explicou Gustavo Leança, diretor de Seguros da Capgemini Brasil e professor da escola de negócios e seguros. “As necessidades mudaram, a capacidade das pessoas de tomar decisões também mudou, e a forma como elas buscam dados e informações também mudou.”
O que os jovens realmente desejam em um seguro
Para tornar o produto relevante, as seguradoras precisam oferecer benefícios imediatos e tangíveis. O estudo da Capgemini revela as prioridades dos menores de 40 anos:
| Benefício desejado | Seguro individual | Seguro coletivo |
|---|---|---|
| Resgates em dinheiro para eventos da vida | 48% | — |
| Benefícios de saúde e bem-estar | 41% | — |
| Cobertura para doenças terminais e cuidados de longo prazo | 39% | 82% |
| Relação mais direta com a empresa | — | 59% |
| Cobertura para dispositivos como notebooks | — | 44% |
Os dados mostram uma clara preferência por produtos que se conectem com o dia a dia — seja um resgate em dinheiro para um imprevisto, seja a proteção do equipamento de trabalho para quem tem uma carreira mais móvel. “É preciso tentar apresentar o seguro de vida como uma ferramenta de planejamento financeiro, o seguro para o dia a dia. Passar do seguro de vida para os seguros em vida. É preciso estar no dia a dia do cliente”, reforçou Leança.
Geração Silver: longevidade como oportunidade
No extremo oposto do espectro etário, a chamada Geração Silver (pessoas com 50 anos ou mais) também pressiona o modelo tradicional de seguros. Liliana Parodi, diretora de mídia e referência do segmento, critica os rótulos de passividade e vulnerabilidade que historicamente acompanham essa faixa etária. “Aos 50+, já não nos representam os rótulos de passividade, vulnerabilidade e dependência. Somos uma geração ativa, vital e em movimento”, afirmou.
Essa parcela da população acumula experiência, recursos financeiros e, principalmente, energia para continuar trabalhando, consumindo e projetando novos objetivos. Parodi citou o Centro de Longevidade da Universidade Stanford para falar de um “novo mapa da vida”, que inclui reinvenção profissional, talento sênior e aprendizado permanente. Para as seguradoras, ignorar esse público significa perder um motor de consumo robusto e crescente.
A mudança de narrativa é essencial: em vez de associar a velhice a dependência e aposentadoria, o setor precisa enxergar os 50+ como um grupo que busca produtos de proteção atrelados a benefícios em vida, como planos de saúde preventivos, coberturas para doenças crônicas e serviços de bem-estar. A longevidade amplia o horizonte de consumo, mas também exige uma nova lógica de financiamento.
Financiamento da vida longa: o papel da confiança
O analista econômico Damián Di Pace apresentou argumentos para reposicionar o seguro de vida diante de alternativas como fundos de investimento. “O seguro de vida oferece proteção imediata e garante disciplina nos aportes mensais. 80% do fracasso da poupança argentina não é a taxa, é deixar de aportar”, destacou. Além disso, o seguro proporciona benefícios fiscais, evita disputas de herdeiros e assegura a continuidade de pequenas e médias empresas.
Para Di Pace, a confiança é um ativo mais poderoso do que a promessa de determinada taxa de retorno. “Quem tem o dado tem a venda, tem o seguro e tem a capitalização. Esse dado pode ser conquistado com confiança.” Em sintonia com Leança, ele apontou a virada discursiva que o mercado está vivendo: “Está mudando o discurso de ‘proteção da família’ para o discurso de ‘autonomia financeira + benefícios em vida’.”
Redes sociais e distribuição híbrida: o novo canal
A transformação não se limita ao produto: o canal de venda também precisa se adaptar. Nos Estados Unidos, 62% dos consumidores usam redes sociais para buscar informações sobre produtos financeiros ou seguros. No Brasil, uma seguradora já lançou um programa de “Produtor Influenciador” para aproximar corretores das plataformas digitais e dos novos públicos. “Seguradoras e corretores assessores devem se aproximar das redes sociais para alcançar os novos públicos. É importante desenvolver plataformas digitais e híbridas, que combinem tecnologia e atendimento pessoal”, enfatizou Leança.
Combinar a capilaridade digital com a confiança do contato humano parece ser o caminho para converter a intenção de 68% em contratos reais. A indústria de seguros de vida, antes ancorada em ritos de passagem previsíveis, agora precisa dialogar com consumidores que redefinem o que é uma vida — e quando cada etapa deve acontecer. Quem conseguir traduzir essa nova realidade em produtos flexíveis, benefícios imediatos e canais modernos terá a chance de não apenas vender mais apólices, mas de construir relações de longo prazo com clientes que, afinal, viverão por mais tempo.

