Indústria de games da Nova Zelândia ultrapassa US$ 1 bilhão em receita

Marco histórico foi alcançado dois anos antes do previsto, impulsionado pelo incentivo fiscal GDSR e crescimento anual de 28% a 35%.

Por Gaming Central - Equipe Editorial de Games
A indústria de games da Nova Zelândia superou a marca de US$ 1 bilhão em receita em 2024, graças ao GDSR e CODE.
Destaques
  • A indústria de games neozelandesa atingiu US$ 1 bilhão em receita em 2024, dois anos antes da projeção inicial de 2028.
  • O GDSR proporciona um retorno de oito dólares ao governo para cada dólar investido em incentivos fiscais.
  • Pela primeira vez, o setor criativo e digital deve superar o primário na participação do PIB neozelandês.

A indústria de desenvolvimento de jogos da Nova Zelândia acaba de atingir a marca histórica de US$ 1 bilhão em receita, batendo em dois anos a projeção inicial que apontava 2028 como o ano do marco. O resultado, impulsionado pelo rebate fiscal setorial introduzido em 2023 e por um crescimento anual superior a 20 vezes a média global, consolida o país como um polo relevante e em franca aceleração no mercado internacional de games.

Crescimento acelerado e o papel do GDSR

O marco de US$ 1 bilhão foi alcançado com base em dados consolidados de 2024. No ano anterior, a indústria neozelandesa de games havia registrado US$ 270,9 milhões, um crescimento de 7% em relação a 2022. Já em 2024, a receita saltou para US$ 758,9 milhões, acompanhada por um aumento de 29% na força de trabalho do setor. Esse salto expressivo está diretamente ligado à introdução do Game Development Sector Rebate (GDSR), um incentivo fiscal que devolve parte dos custos elegíveis de produção para estúdios locais, e ao financiamento complementar do Centre of Digital Excellence (CODE).

O GDSR, equivalente a um cashback de 20% sobre despesas qualificadas de desenvolvimento, foi desenhado para tornar a Nova Zelândia mais competitiva frente a outros hubs de produção, como Canadá, Austrália e Reino Unido. A expectativa inicial da New Zealand Game Developers Association (NZGDA) era de que a barreira de US$ 1 bilhão fosse ultrapassada apenas em 2028, mas a trajetória de crescimento mostrou-se mais íngreme do que o previsto.

Retorno sobre investimento oito vezes maior que o custo

Um dos dados mais contundentes divulgados pela NZGDA é o retorno sobre o investimento público: para cada dólar neozelandês aplicado via GDSR e CODE, o governo recupera aproximadamente oito dólares em receitas diretas e indiretas. Esse multiplicador reflete não apenas o aumento na arrecadação de impostos corporativos e pessoais, mas também a capilaridade do setor em gerar empregos de alta qualificação e movimentar a economia de serviços associados, como coworkings, fornecedores de tecnologia e agências de recrutamento especializado.

Pela primeira vez na história econômica do país, os setores criativo, digital e tecnológico — nos quais os games ocupam posição central — devem superar o setor primário em participação no PIB nacional. A virada é simbólica e estrutural: a Nova Zelândia, historicamente conhecida por suas exportações de lã, carne e laticínios, agora vê o desenvolvimento de jogos como um motor econômico tão ou mais relevante quanto suas atividades agropecuárias tradicionais.

Como destacou a ex-presidente da NZGDA, Chelsea Rapp, após a implementação do GDSR em 2023, a indústria de games do país já superava a indústria da lã em valor — “que é aquilo pelo qual somos conhecidos”. Na ocasião, ela projetava: “Adoramos dizer que vamos ser uma indústria de US$ 1 bilhão até 2026. Temos entre 28% e 35% de crescimento anual, então se mantivermos esse ritmo, será entre 2025 e 2026.” A previsão se concretizou antes mesmo do limite inferior da janela estimada.

Fatores que explicam o salto além do esperado

Vários elementos conjunturais e estruturais contribuíram para a antecipação do marco. O GDSR trouxe previsibilidade fiscal para estúdios locais e atraiu empresas estrangeiras que buscavam estabelecer uma base de operações na região Ásia-Pacífico com custos competitivos e fuso horário favorável para colaborações com América do Norte e Europa. Além disso, o CODE fomentou clusters regionais de desenvolvimento fora dos grandes centros, descentralizando a produção e ampliando a base de talentos disponível.

A força de trabalho do setor cresceu 29% em 2024, sinal de que a demanda por profissionais qualificados — programadores, artistas técnicos, designers narrativos, produtores — superou a oferta local, forçando estúdios a buscarem talentos no exterior e a investirem em programas de treinamento interno. Esse movimento, por sua vez, pressiona o sistema educacional do país a criar trilhas vocacionais específicas para o mercado de jogos, um desafio que a NZGDA já identifica como prioritário para sustentar o ritmo de expansão.

Desafios e perspectivas para o futuro próximo

A executiva diretora da NZGDA, Joy Keene, classificou os números como “uma história de sucesso industrial verdadeiramente inspiradora”, mas já aponta o próximo gargalo: “Nosso foco agora é garantir que as trilhas educacionais e vocacionais estejam no lugar para que o setor possa continuar crescendo. Crescimento significa empregos e, como uma indústria de exportação intangível, o desenvolvimento de jogos representa uma oportunidade real para a Nova Zelândia se proteger contra disrupções na economia mundial mais ampla.”

A expressão “indústria de exportação intangível” (weightless export industry) é central para entender a lógica do investimento público no setor. Jogos digitais não enfrentam barreiras alfandegárias, não dependem de cadeias logísticas físicas e podem ser distribuídos globalmente com custo marginal próximo de zero. Para um país insular e relativamente distante dos mercados consumidores centrais, essa característica representa uma vantagem comparativa decisiva — e o governo neozelandês parece ter compreendido isso com clareza ao desenhar o GDSR.

O que a indústria brasileira pode aprender com o caso neozilandês

Embora Brasil e Nova Zelândia tenham escalas econômicas muito distintas, o caso neozelandês oferece um estudo de caso replicável em seus princípios básicos: um incentivo fiscal bem calibrado, combinado com um fundo de fomento à excelência, gerou um efeito multiplicador que ultrapassou todas as metas originais em menos de dois anos. Para o ecossistema brasileiro de games, que há anos discute a necessidade de marcos regulatórios e incentivos específicos, o modelo do GDSR mostra que a combinação de redução de custos para estúdios e investimento direto em centros de excelência pode desbloquear um crescimento acelerado mesmo partindo de uma base modesta.

Com a indústria neozelandesa agora consolidada na casa do bilhão de dólares, o foco se volta para a sustentabilidade do crescimento. A manutenção do GDSR, a expansão das vagas em cursos superiores técnicos e a retenção de talentos formados localmente serão os fatores críticos para que o país não apenas mantenha o ritmo, mas se estableça como um hub perene de desenvolvimento de jogos. O marco de US$ 1 bilhão, alcançado dois anos antes do previsto, é ao mesmo tempo uma celebração e um alerta: a infraestrutura de suporte precisa crescer tão rápido quanto a própria indústria.

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Equipe Editorial de Games
Equipe de especialistas da Overcentral dedicada à análise técnica e cobertura jornalística da indústria de games. Unimos anos de experiência no mercado e rigor editorial para entregar informações precisas sobre hardware, lançamentos e tendências globais.