Em 1º de junho de 2026, a Bolsa de Tóquio testemunhou uma mudança histórica: a SoftBank Group (SBG) ultrapassou a Toyota em valor de mercado e assumiu a liderança entre as empresas japonesas. A Toyota, que ocupava o posto de companhia mais valiosa do Japão havia aproximadamente 22 anos, viu o topo ser tomado pelo conglomerado de investimentos liderado por Masayoshi Son. O marco é visto como um reflexo direto da aposta agressiva da SBG em inteligência artificial e da consequente reavaliação do mercado sobre o que significa ser uma empresa de alto valor no Japão.
O dia em que a IA superou a indústria automotiva no topo do Japão
No pregão do dia 1º de junho, as ações da SBG saltaram 15% em relação ao fechamento da semana anterior, atingindo 8.626 ienes e renovando a máxima histórica. Com isso, o valor de mercado do grupo chegou a superar os 49 trilhões de ienes durante o dia. No fechamento, a SBG registrou cerca de 48,78 trilhões de ienes, contra 45,89 trilhões da Toyota — uma diferença de aproximadamente 3 trilhões de ienes.
O estopim imediato para a disparada foi o anúncio, em 31 de maio, de um megainvestimento em infraestrutura de IA na França. A SBG se comprometeu a investir até 750 bilhões de euros (cerca de 14 trilhões de ienes) para construir uma rede de data centers de IA com capacidade total de 5 GW, naquele que é o maior plano de infraestrutura de IA já anunciado na Europa. A primeira fase, de 450 bilhões de euros, prevê a implantação de 3,1 GW de capacidade computacional na região de Hauts-de-France, no norte do país, até 2031. O projeto foi revelado durante o evento “Choose France”, promovido pelo presidente Emmanuel Macron para atrair investimentos estrangeiros.
A estratégia da SoftBank: dominar o ecossistema de IA
O investimento francês é apenas uma peça de um tabuleiro muito maior. A SBG vem construindo uma posição que cobre três camadas essenciais do mercado de inteligência artificial: infraestrutura, modelos de linguagem e semicondutores.
No front dos modelos, a SoftBank é um dos maiores investidores da OpenAI. Os aportes acumulados já somam até 646 bilhões de dólares (aproximadamente 10 trilhões de ienes), o que deve render ao grupo uma participação de cerca de 13% na empresa criadora do ChatGPT. A expectativa de um IPO da OpenAI ainda em 2026 tem alimentado ainda mais a reavaliação dos ativos da SBG.
Na camada de semicondutores, a Arm — controlada pela SBG — se consolidou como peça-chave na arquitetura de chips para IA, com suas licenças de design presentes em praticamente todos os processadores móveis do mundo e em uma fatia crescente do mercado de servidores. Já nos Estados Unidos, a SBG lidera o projeto Stargate, um ambicioso programa de data centers de IA.
Essa estratégia de ocupar simultaneamente os três elos da cadeia de valor da IA — infraestrutura, modelo e silício — convenceu investidores de que a SoftBank não é apenas uma holding financeira, mas um player estrutural no novo paradigma tecnológico.
26 anos depois: o déjà-vu de Masayoshi Son
Não é a primeira vez que a SBG supera a Toyota em valor de mercado. A última vez havia sido em fevereiro de 2000, no auge da bolha da internet. Na ocasião, as ações da SoftBank chegaram a cerca de 200 mil ienes (em valores pré-agrupamento), levando o valor de mercado do grupo a ultrapassar 21 trilhões de ienes e a se aproximar da Toyota. O colapso da bolha, porém, foi brutal: o papel derreteu para menos de 1% do pico, e a SoftBank passou a ser lembrada como um símbolo do excesso especulativo.
| Fevereiro de 2000 | Junho de 2026 | |
|---|---|---|
| Contexto | Bolha da internet | Euforia da IA |
| Valor de mercado da SBG | Acima de 21 trilhões de ienes | Até 49 trilhões de ienes |
| Preço da ação da SBG | Cerca de 200 mil ienes (pré-agrupamento) | 8.626 ienes |
| Gatilho imediato | Compra especulativa de ações de internet | Investimento de 750 bilhões de euros em IA na França |
| Principais ativos da SBG | Participações em empresas pontocom | Arm, OpenAI (cerca de 13%) |
| Desfecho posterior | Queda de 99% no preço da ação | Em aberto — dependente do ciclo da IA |
Desta vez, porém, o contexto é diferente. Se no ano 2000 a SoftBank era essencialmente uma holding de participações em empresas de internet com fluxo de caixa incerto, hoje ela controla ativos tangíveis e com receita real: a Arm fatura com royalties de semicondutores, e a OpenAI já gera bilhões de dólares com assinaturas e licenças. O investimento em infraestrutura francesa também tem um plano de execução concreto, com prazos e aportes definidos.
Ainda assim, a SBG continua sendo, em sua essência, uma empresa de investimentos. Seu valor de mercado está intrinsicamente ligado à avaliação de seus ativos — e a concentração em OpenAI representa um risco considerável. Caso o ciclo de investimentos em IA entre em uma fase de correção, a correlação pode derrubar o valor da holding tão rapidamente quanto o elevou.
Toyota: o gigante industrial que perdeu o topo, mas não a força
Enquanto a SBG comemorava, as ações da Toyota recuavam no mesmo dia, ampliando a diferença no valor de mercado. A montadora vem enfrentando ventos contrários: a divulgação dos resultados do ano fiscal encerrado em março de 2026 mostrou queda no lucro, impactada pelas tarifas comerciais dos Estados Unidos. O papel acumula baixa no ano, e a companhia parece momentaneamente fora do radar dos investidores que buscam exposição ao hype da IA.
No entanto, a Toyota continua sendo a maior fabricante de automóveis do mundo em volume, com capacidade de geração de caixa imbatível entre as empresas japonesas. A perda da posição de empresa mais valiosa reflete menos uma fraqueza intrínseca da montadora e mais uma migração massiva de capital para o setor de inteligência artificial — um fenômeno global que também se manifesta nos Estados Unidos, onde as Big Techs dominam o ranking de valor de mercado.
O que a virada de 1º de junho realmente significa para o mercado japonês
A ascensão da SoftBank ao topo do valuation japonês não é apenas uma curiosidade histórica ou um feito de Masayoshi Son. Ela sinaliza uma mudança estrutural no critério de valorização adotado pelo mercado de capitais do Japão.
Por duas décadas, a resposta para “qual é a empresa mais valiosa do Japão?” era invariável: Toyota. Uma companhia que fabrica carros em escala global, emprega centenas de milhares de pessoas e sustenta uma complexa cadeia de fornecedores. Era o retrato do “Japão das manufaturas”.
Agora, a resposta é uma holding que não fabrica nada diretamente, mas que busca controlar todo o ecossistema da inteligência artificial — de data centers a designs de chips, passando pelos modelos de IA mais avançados do planeta. No lugar de fábricas, a SBG tem data centers; no lugar de motores, GPUs; no lugar de revendas, participações societárias em startups bilionárias.
Se a liderança da SBG será duradoura ou efêmera depende exclusivamente dos rumos do ciclo de investimentos em IA. Mas o fato de que, em junho de 2026, o mercado elegeu como a empresa mais valiosa do Japão um veículo de apostas em inteligência artificial, e não o maior fabricante de automóveis do mundo, é um registro histórico que ficará marcado como um ponto de inflexão na Bolsa de Tóquio.

